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A SENSAÇÃO DE ESTAR DENTRO, SENDO VISTO DE FORA

Dois velhos agasalhados na frente de um prédio, um deles tomando um líquido numa caneca, o outro olhando para a frente. Ao fundo, a rua, com carros e lâmpadas acesas no início da noite.
Velho e doente é sempre o outro, aquele que passa pela calçada do outro lado da rua. (Ilustração por Caio Brandão/Gemini)

A SENSAÇÃO DE ESTAR DENTRO, SENDO VISTO DE FORA

Por Caio Brandão


Demerval Quaresma é um tipo inspirador. Já passou dos setenta e está prestes a saltar para outra década temerária, com alguns obstáculos indesejados no horizonte.


Mas não se amofina. Velho e doente é sempre o outro, aquele que passa pela calçada do outro lado da rua e que, do Demerval, pensa exatamente a mesma coisa.


Ser observador e observado ao mesmo tempo é curioso. Demerval se refere justamente a essa condição: saber que está sendo observado por ele mesmo, como se assistisse à própria vida da plateia.


O telefone toca. Demerval prefere não atender. É muita propaganda, muita tentativa de golpe. Quando ameaça reagir com impropérios, o golpista desliga, e ele se frustra. Assim, é melhor deixar tocar.


Intrigado com essa sensação de duplicidade, telefona para Bernardo Malamut, psicólogo de renome, e pergunta se isso é possível. Bernardo diz que sim, mas não avança. Pede que marque uma consulta. A secretária sugere uma data para dali a três meses, e Demerval desiste. Acha que pode morrer antes. Prefere recorrer ao terreiro de Umbanda indicado pela diarista, que curou o lumbago pelas mãos de uma entidade apadrinhada pelo Exu Caveira.


A diarista está no bico do corvo. Pediu vale, disse que a gata urinou na sua peruca e quer aumento. Ruim com ela, pior sem. Demerval terá de faxinar a casa e não está disposto.


O carro na garagem ficou sem bateria. Demerval acha que foi o porteiro quem trocou a sua pela dele. Vai pagar o flanelinha da esquina para fazer a troca de madrugada, sem alarde. Se o porteiro desconfiar, fará cara de paisagem, mas o olhar sugerirá a culpa ao morador do apartamento 301.


O motoqueiro trouxe a pizza, mas vai deixá-la no chão, na portaria. O porteiro foi ao banheiro e o rapaz diz que não espera. Demerval manda subir. O entregador pede gorjeta — o dobro do valor da pizza. Demerval concorda, paga e ainda dá ao rapaz metade da pizza, porque está sem apetite.


O rapaz desce e é abordado pelo porteiro, que acha que o moço invadiu o prédio para roubar. O rapaz reclama, altera a voz e diz que vai chamar a polícia para fazer um B.O. Alega discriminação, diz que foi chamado de preto e que o porteiro acha que ele é gay.


O síndico desce à portaria. Não quer confusão. Alega que o fundo de reserva do condomínio está esgotado e que não há dinheiro para pagar advogado. O porteiro reclama, diz que não está sendo apoiado por zelar pela segurança do prédio e pede as contas. O rapaz da pizza, que está com o salário atrasado, aproveita a oportunidade e pede a vaga do porteiro.


É muita confusão para Demerval. De repente, sente uma dor no peito.

O síndico dá o diagnóstico:


— São gases.


Demerval alega não saber peidar em público.


A diarista reaparece com um copo d’água recheado com quarenta gotas de Luftal. Demerval toma num só gole e se engasga. Fica roxo, com os olhos esbugalhados.


O porteiro, num golpe de reflexo, segura Demerval por trás e comprime seu abdômen. Ele solta o ar, salta de banda, sara na hora e grita:


— Comigo não, violão!


Na portaria, o silêncio dura apenas o tempo de o vento levar a metade da pizza, expelida com vigoroso estampido.


Demerval ajeita a camisa amassada, confere se o coração ainda bate no ritmo certo e olha ao redor.


O porteiro, de braços cruzados, aguarda o agradecimento pela manobra que salvou uma vida. O ex-entregador de pizza já segura o livro de tombo do prédio, pronto para assumir o turno da noite. O síndico, aliviado por economizar o fundo de reserva e a chamada do Samu, apenas acena com a cabeça.


Ao fundo, o flanelinha espia pela grade da garagem, segurando um cabo de chupeta e esperando o sinal para o serviço da madrugada — e para dobrar o valor da gorjeta.


Demerval dá três passos em direção ao elevador, mas para.

Olha para o espelho do hall e encontra o próprio reflexo.

Lá está ele: o velho do outro lado da rua. O sujeito que provoca incêndios de proporções administrativas só para não ter de lavar a louça do jantar.

Lá de dentro, ele sorri para o Demerval de fora.

E o de fora, por via das dúvidas, pisca de volta antes que a porta do elevador se feche.



Foto de Caio Brandão, um homem idoso, de óculos escuros, cabelos grisalhos, olhando para a câmara.

Caio Brandão é jornalista.



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