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Luiz Bacellar: Crônicas de Manaus(I)

11 de ago.
5 min de leitura
Ilustração digital mostrando um homem sentado em uma cadeira  sob uma mangueira mostrando um mapa para crianças, 
com elementos culturais de Manaus e Portugal.
Painel ilustrativo sobre a crônica "Quem era Camões no bairro de Aparecida?", de José Ribamar Bessa Freire, retratando o poeta Luiz Bacellar mostrando em um mapa as conexões de Portugal e o bairro Aparecida para os jovens sob a mangueira. (do autor, com IA) 

Quem era Camões no bairro de Aparecida?

José Ribamar Bessa Freire (*)

Nota do Editor: Iniciamos hoje a publicação de uma crônica em três partes escrita por José Ribamar Bessa Freire. Nas próximas três semanas, o autor nos conduz em uma viagem afetuosa pelas memórias do bairro de Aparecida, em Manaus, trançando poesia, futebol, imigração e o legado do maior poeta da língua portuguesa.

“E mesmo que toda a gente / fique rindo, duvidando / destas estórias que narro / Não me importo: vou contente / toscamente improvisando / na minha frauta de barro”. (Luiz Bacellar. Frauta de barro. 1963)


Dois poetas e um bairro. Talvez até por dever de ofício, Luiz Bacellar (1928-2012) fosse o único morador do popular bairro dos Tocos, em Manaus, que nos anos 1950 sabia quem era Luiz Vaz de Camões, seu xará, nascido em Portugal no séc. XVI. Mas "todo o mundo é composto de mudança". Com a criação da paróquia, o bairro trocou o nome para Aparecida. E Bacellar? Ficou conhecido nacionalmente ao ganhar, em 1959, o Prêmio Olavo Bilac de poesia com o voto encomiástico do poeta Manuel Bandeira. Quanto a Camões, o príncipe dos poetas, tema de aulas de literatura do Colégio Estadual do Amazonas, seu nome passou a designar a mais importante distinção literária da língua portuguesa.


Fotografia em preto e branco de um homem jovem usando óculos de armação escura, em plano detalhe do rosto.
O poeta amazonense Luiz Bacellar (1928-2012) em registro do jornal A Gazeta, de 22 de janeiro de 1964. (Instituto Durango Duarte)  

Luiz, o português, inspirava Luiz, o amazonense que, sempre no final da tarde, costumava sentar-se em pijamas numa cadeira de balanço na calçada de sua casa na rua Xavier de Mendonça para ler um livro diante de frondosa mangueira. Era Os Lusíadas. Lido e relido. Um dia, levantou os olhos e observou moleques que, depois de jogarem bola na rua, se lambuzavam com mangas maduras caídas da árvore. Leu para nós um trecho do Canto V, com voz que tremia levemente, num tom carregado do peso da história ali contida. Ouvimos em silêncio respeitoso e vibramos com os versos:


Vasco da Gama, o forte Capitão, / Que a tamanhas empresas se oferece /De soberbo e de altivo coração, / a quem Fortuna sempre favorece.


— Vocês entenderam? – perguntou Bacellar, autor de Frauta de Barro, “uma das mais importantes obras da poesia brasileira de todos os tempos e toda escrita em Manaus”, segundo Thiago de Mello. Quem respondeu foi o Ivan Boca-de-sentina, apelido do mais escolarizado da turma:


— Entendi. Ele está dizendo que a sorte sempre favorece o Vasco, o time da virada.


Prosseguiu fazendo referência ao noticiário dias antes da Rádio Baré, quando o Real Madrid, que disputava com o Vasco a taça do Torneio de Paris, começou ganhando com gol do Di Stéfano, mas o Cruzmaltino virou o jogo com a vitória final de 4 x 3. Citou os craques Sabará, Vavá e Pinga, cuja atuação em campo repercutiu ali em frente na banca de tacacá da dona Alvina.


Bacellar esclareceu didaticamente que o Vasco da Gama do verso era uma homenagem ao grande navegador português e que o nome do Clube de futebol do Rio era uma homenagem a ele, que descobriu o caminho marítimo para a Índia, sem o qual não estaríamos comendo mangas. A mangueira. desconhecida no Brasil, foi trazida de lá e se aclimatou muito bem aqui.


— Mas então porque ele menciona Bellini, “o forte capitão” do Vasco? – indagou Ivan abrindo bem a boca.


— Não! Não! Bellini é o capitão do time, mas o “forte capitão” do verso é o próprio Vasco da Gama. Sua história está aqui – dizia Bacellar dando tapinhas com a mão na capa marrom do livro. Mostrou um mapa e nos aconselhou a ler Os Lusíadas para conhecer mais a história de quem inspirou o nosso time.


As ruas do bairro


Desenho de um mapa estilizado em tons amarelados representando as ruas do Bairro Aparecida em Manaus, com ilustrações do Rio Negro, da mangueira, da casa do poeta Luiz Bacellar e anedotas históricas
Mapa literário e ilustrado do bairro de Aparecida em Manaus, destacando os locais marcantes citados na crônica de Bessa Freire. (Por Gemini)

Os vascaínos roíamos as unhas de curiosidade, mas era difícil entender o que estava escrito. O livro, que usa linguagem do séc. XVI, cantava - segundo Bacellar - a coragem do povo lusitano que, por sinal, se fazia presente nos nomes das ruas do bairro, a começar por Xavier de Mendonça, irmão do Marquês de Pombal, que governou o Estado do Grão-Pará no séc. XVIII. Portugal estava encravado em cada paralelepípedo da outra principal artéria, batizada com nome de Alexandre Amorim, cônsul de Portugal, que criou no séc. XIX a Companhia de Navegação do Alto Amazonas.


Os logradouros glorificam o colonizador: militares, políticos, comerciantes, administradores com título nobiliárquico, como Wilkens de Matos, o barão de Maruiá, descendente de lusitanos. E os poetas? Nada. Nem morta, filha. Ou “nem fal´cida, cachopa”, na tradução de Márcio Souza ao português lusitano, uma das tantas línguas faladas em nosso idioma. Inexiste em Aparecida uma rua Camões ou Sá de Miranda. Sequer um beco Ajuricaba a celebrar a resistência indígena. Por que não trocar agora o nome da Xavier por rua Luiz Bacellar, descendente de portugueses?


Bacellar jurava que sua família vinha lá da “terrinha” desde tempos imemoriais, daí seu amor pela cultura portuguesa. Tudo teria começado no séc. XIII, com o Conde de Barcelos, filho bastardo de D. Dinis, o “Rei Trovador”, autor de “cantigas de amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e maldizer”. Bacellar garantia, portanto, que sua origem era nobre e que descendia do rei poeta. Quem foi verificar essa história in loco foi o pintor Moacir Andrade, morador na rua Alexandre Amorim. Em 1969, sob o patrocínio do Itamaraty, ele realizou uma exposição individual de seus quadros em Portugal, alguns deles hoje no acervo do Museu de Arte Moderna de Lisboa.


Fotografia em preto e branco em tom de jornal mostrando o perfil do pintor Moacir Andrade com a cabeça levemente inclinada.
 O pintor e artista plástico amazonense Moacir Andrade em publicação do jornal A Gazeta, em 1963. (Instituto Durango Duarte)

Depois de ser empossado como membro da Academia de Artes de Lisboa, Moacir aproveitou para visitar o Paço do Conde, no distrito de Braga. Lá encontrou no topo de um morro de granito o castelo em ruínas, que começou a se desmilinguir com o terremoto de 1755. Foi aí que o pintor desconstruiu a nobreza do nosso poeta, exibindo fotos. Inventou, de pura sacanagem, que Bacellar descendia de um plebeu, cuidador dos cavalos, das carruagens e da estrebaria. Diariamente o Conde de Barcelos gritava da janela do seu palácio para o seu cavalariço anônimo:


— Ô M´nino, ba selar o cavalo.


Por causa disso, de tanto o Conde repetir a ordem ba selar, ba selar, todo mundo começou a chamar o m´nimo sem nome de Bacelar – dizia Moacir zoando seu amigo poeta.



Na próxima semana (terça-feira): Confira o segundo episódio da série: II — Fados, tabernas e um professor que declamava Camões, onde a colônia portuguesa movimenta o bairro e o inesquecível professor Farias de Carvalho apresenta Camões de forma arrebatadora.



Retrato de José Ribamar Bessa Freire sorrindo, um homem de cabelos grisalhos, barba e óculos de grau, com estantes de livros ao fundo.

José Ribamar Bessa Freire é jornalista, Doutor em Letras e professor da Pós-Graduação em Memória Social da UNI-Rio e da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas. Com vasta obra publicada sobre a Amazônia e a história social da linguagem, escreve semanalmente para jornais amazonenses desde 1984 e é o criador e editor do site Taquiprati, onde a crônica foi originalmente publicada.

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