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Antes do inverno chileno

há 11 horas
3 min de leitura
Fotografia intimista em preto e branco de uma mulher nua vista de costas, sentada na borda de uma cama em um quarto escuro. Uma luz tênue entra pelas frestas de uma persiana na janela, desenhando o contorno de suas costas e ombros em forte claro-escuro.

Antes do inverno chileno


Tito Guimarães Filho


Quem veio aquela noite? Todas as atividades do Hotel Imperial eram em torno do nascimento da primeira filha da caçula da Dona Edilena, uma paraibana arretada da porra, que vencera ali no Sul da Bahia, estruturando e administrando com sucesso um hotel, com seus mais de 60 apartamentos em seus oito andares.


Natacha, a caçula, e Latino optaram pelo nascimento em Eunápolis, cidade próxima de Alcobaça, onde no Hotel já estavam os cunhados, cunhadas, amigos e amigas e os dois casais de chilenos, médicos como Latino Henrique.


Uma grande festa para o jovem pai e a jovem mãe que formaram uma família que, em menos de dez anos, seria de mais oito pessoas, quatro meninas e quatro meninos.


No início daquela noite, como era costume de Latino, que dizia: “para aproveitar a noite, durma no final da tarde, pouco depois das 17h, e acorde às 20h/21h”. Ele fora para o seu apartamento. Bêbado, muito bêbado, logo caiu num sono profundo naquele sábado de um outono frio para o Sudeste.


Todos continuaram no grande salão do refeitório do Hotel Imperial. Latino sentiu um corpo quente se aproximando. A escuridão permitia identificar um corpo feminino, nu e grande, de uma mulher cuja pele branca era a pouca luz que tinha.


Não conseguia manter os olhos abertos. Sentia sua mão que havia tirado seu pijama e que acariciava seu rosto, sempre fechando suas pálpebras em suas tentativas de abri-las.


“Era Felipa, sua cunhada”, pensou, pelo volume do corpo, pelos seios e pela umidade em todo o monte pubiano, na vagina e na vulva. Conhecia o perfume da Felipa, e aquele perfume de flores de laranjeira deixou Latino em dúvida. Um perfume que tinha cheiro de banho tomado. Um perfume intenso com a mistura da flor de laranjeira com madeiras cremosas.


Felipa mudou de perfume? Era possível, ela sempre experimentava novos, mas seu preferido era La Vie Est Belle, da Lancôme, por ser muito duradouro.


Saíra do banho, carinhosa, e seus movimentos lentos percorriam o seu corpo com mãos quentes e calejadas. A boca gulosa engoliu o cacete e percorreu seu corpo até se acomodar sobre ele em movimentos lentos.


Quanto tempo duraria este prazer que eles queriam que não parasse e nem mais temiam a chegada de qualquer pessoa. Depois que ela saiu, Latino desmaiou.


O café naquele domingo consumiria toda a manhã. No restaurante do Hotel, ele procurava entre as mulheres Felipa. Ela já tomara o café e, ao chegar da missa, Latino teve a certeza de que não fora ela a sua visitante noturna. Discreto, procurava aquela cujo perfume não esquecia.


Quando estava sendo servido pela chilena de cabelos pretos que trazia o café quente e o pão de queijo quente, sentiu o cheiro cítrico do perfume. Ao colocar os ovos fritos em seu prato, sentiu como se estivesse sob as flores de laranjeiras. Ela, silenciosa, sequer trocou olhares enquanto o servia. Apenas sorriram. Lembrou de Neruda, do Confesso que Vivi e do amor junto do trigo no Dia da Debulha no acampamento dos Hernández.


Os dois casais embarcaram de volta, naquela mesma noite, para enfrentarem o inverno chileno que avançara sobre o outono. Tempo frio no Sul para equilibrar tanto calor daquela noite no Sudeste baiano.



Foto colorida do jornalista e contista Tito Guimarães Filho, de óculos, olhando para a câmara.

Tito Guimarães Filho é jornalista e contista mineiro.

1 comentário


Antonio Cristiano Esteves Gued
há 8 horas

Prazeroso degustar um texto fresco elaborado com carinho e sensibilidade em estilo inovador. "Um perfume que tinha cheiro de banho tomado", gostosa linguagem.

Saíra do banho, carinhosa, e seus movimentos lentos percorriam o seu corpo com mãos quentes e calejadas.

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