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No BAR ANGA com Simone de Beauvoir

há 22 horas
12 min de leitura
Marinho Bastos, Lorise e a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir sentados à mesa de um típico boteco tradicional, brindando com taças de vinho tinto e copo de cerveja em meio a petiscos e garrafa do Bar Anga.

No Bar Anga com Simone de Beauvoir


Por Marinho Bastos


Tempo de leitura: 7 min


Sextou!


Noite maravilhosa, lua cheia, céu estrelado. Curitiba só se explica por si só: ou você ama ou você odeia. Roupa casual. Quase pronto, uma pequena pitada de perfume e lá vou eu rumo à felicidade garantida. A Italiana adentra o quarto.


— Perfume?


— Não! Você sabe que, após o banho, meu corpo exala esse cheiro doce. É pura genética diferenciada.


Esperei o contra-ataque, mas ela apenas arqueou a sobrancelha.


— E posso saber quem é o alvo desse magnetismo hoje no BAR ANGA?


Pigarreei, fitei aqueles olhos verdes e pensei no poeta: “Olhos verdes são paixão, mas são cruéis como punhais.”


— Simone de Beauvoir.


O olhar dela congelou por um instante.


— Perfeito. Eu vou junto.


— Melhor não...


— Sem chance de eu ficar de fora. Conheço O Segundo Sexo de cabo a rabo. Faço questão de estar lá.


Esclarecendo ao leitor: não era ciúme melodramático. Se bem conheço minha Italiana, era curiosidade e talvez um pequeno receio de dividir o Marinho com uma mulher cuja fama atravessou o século.


Quarenta minutos depois, ela saiu cheirosa do banho, bela e impecável. Meu sangue lusitano atacou:


— Você está simplesmente maravilhosa!


A testosterona ignorou completamente o relógio:


— Estamos adiantados... Quem sabe a gente não aproveita esse tempo extra?


— Nem pensar, Marinho! O foco é o BAR ANGA!


A Italiana assumiu o volante e seguimos em direção ao

santuário.


Fachada noturna do Bar Anga em esquina clássica de paralelepípedos molhados pela chuva, com toldo listrado, vitrais coloridos iluminados, mesinhas na calçada e poste de luz antigo.

Ao chegarmos, Bambu Albino, flanelinha oficial do pedaço, veio nos cumprimentar, todo paramentado com as cores do Tricolor da Vila.


— Veio acompanhado da patroa, Marinho? Que beleza! Mas você sabe, né... homem acompanhado da esposa não passeia, cumpre pena em regime semiaberto.


A Italiana me lançou um olhar capaz de derrubar a rede Wi-Fi.


— Italiana, veja bem... O Bambu é figura carimbada. A casa dele tem até duas portas no banheiro: uma para entrar e outra para sair. Explicado! Vamos chegando.


Antes de entrarmos, Bambu fez um pedido:


— Não esqueça as minhas pedrinhas de gelo!


— Pedrinhas de gelo? — perguntou a Italiana.


— No final da noite, a senhora vai compreender — respondeu ele, sorrindo.


Adentramos o BAR ANGA. Sr. Edu veio imediatamente ao nosso encontro e abriu um largo sorriso ao ver a Italiana.


— Que prazer recebê-la! Finalmente alguém de bom senso acompanhando o Marinho.


— Alguém precisa cuidar dele, Sr. Edu.


— Ei! Eu estou aqui.


Os dois riram. Seguimos para a mesa de sempre. Cumprimentei a Morena, sentada à mesa adjacente. Pedi ao Flash Gordon cerveja, um bom vinho e acepipes. A Italiana acomodou-se ao meu lado. Eu olhava discretamente para a porta.


— Você está tenso — disse ela.


— Tenso? Eu? Não!


— Só vejo você assim quando o Paraná Clube joga.


— Não estou tenso.


Ela apenas molhou os lábios no vinho. A Italiana não bebia; fazia o gesto mais para acompanhar o ritual da mesa do que a bebida.


— Aliás... o Paraná Clube ainda existe?


Respirei fundo.


— Italiana, vamos deixar o futebol fora disso. Existem assuntos que machucam.


Ela sorriu.


— Então me explica por que a Morena cumprimentou você como Sr. Chico.


Dei um bom gole na cerveja para dar tempo de o cérebro fabricar uma resposta.


— É que todos os convidados que recebo no BAR ANGA já partiram desta para melhor. Então, carinhosamente, ela começou a me chamar de Sr. Chico.


A Italiana franziu a testa.


— Sr. Chico...?


Fiz silêncio. Ela arregalou os olhos:


— Chico Xavier?


Levantei o copo:


— Finalmente, aleluia!


Ela começou a rir.


— Meu Deus, Marinho! Então isto aqui não é um bar. É uma sessão espírita com alvará para vender bebida alcoólica.


— Respeite o estabelecimento. Aqui os espíritos bebem por conta própria.


— E você é o médium?


— Não exageremos. Sou apenas o anfitrião.


— Só falta psicografar a conta no final da noite.


— Se o Sr. Edu aceitar pagamento no além, podemos conversar.


Foi quando alguma coisa mudou no BAR ANGA. Algumas conversas cessaram. Sr. Edu caminhou em direção à porta. A Italiana interrompeu o gesto com a taça e olhou para a entrada.


Virei-me.



Bambu Albino vinha caminhando devagar. Ao seu lado, Simone de Beauvoir. Por alguns segundos, a cena me pareceu improvável até para os padrões do BAR ANGA: uma das mulheres mais importantes do século XX sendo solenemente conduzida por um flanelinha vestido com as cores do Paraná Clube.


Bambu Albino parou diante da porta e fez um pequeno gesto para a banda. A SAMBASTOS entendeu o recado. Os primeiros acordes de uma canção francesa espalharam-se pelo salão. Simone parou. Sorriu.

Uma cadeira se arrastou. Depois outra. Sr. Edu ficou de pé. Flash Gordon pousou a bandeja sobre o balcão. A Morena levantou-se da mesa adjacente. Um a um, os contumazes fizeram o mesmo. Em poucos segundos, o BAR ANGA inteiro estava de pé. E aplaudindo.


Simone permaneceu imóvel por alguns instantes, como se aquela homenagem inesperada tivesse atravessado alguma muralha que nem mesmo os anos conseguiram derrubar. Olhei para a Italiana. Ela também aplaudia, com os olhos marejados. Levantei-me.


Simone agradeceu com um discreto movimento de cabeça e entrou. Bambu Albino, cumprida sua missão histórica, voltou solenemente para a calçada. Afinal, alguém precisava cuidar dos carros.


Simone caminhou em nossa direção. Confesso: toda a minha preparação intelectual desapareceu. Sartre, existencialismo, feminismo, liberdade, O Segundo Sexo... tudo virou uma pequena confusão dentro da minha cabeça. Ela chegou à mesa. Estendi a mão:


— Madame Beauvoir, seja muito bem-vinda ao BAR ANGA.


— Simone, por favor.


Sorri.


— Simone, esta é minha esposa, Lorise.


As duas se encararam por alguns segundos. Lorise estendeu a mão:


— É uma honra conhecê-la. Li O Segundo Sexo.


Simone apertou-lhe a mão, mas não a soltou imediatamente:


— Então teremos assunto.


Olhou para mim. Depois voltou os olhos para Lorise:


— Muito assunto.


Não gostei daquele “muito”.



Sentamos. Naquele instante compreendi: talvez eu tivesse convidado Simone de Beauvoir para conversar comigo, mas ela acabara de escolher sua interlocutora. E estava sentada ao meu lado.


Flash Gordon serviu o vinho. Antes de se retirar, olhou para as duas e cravou:


— Adoro mulheres que não pedem licença para existir.


Simone ergueu a taça:


— A isso vale um brinde.


— Tim-tim! — disse Lorise.


Brindamos. Simone tomou um pequeno gole. Lorise apenas encostou os lábios na taça.


— Há quanto tempo vocês estão casados? — perguntou Simone.


Lorise pensou por alguns segundos:


— Tempo suficiente para saber que certas revoluções começam dentro de casa.


Ela olhou para mim, talvez esperando algum complemento filosófico.

Entreguei-lhe o que tinha:


— Estamos a um pentelho das bodas de ouro.


Recebi imediatamente um cutucão por baixo da mesa.


— Permitam-me reformular. Estamos na marca do pênalti. Agora é torcer para não chutarmos a bola para fora.


Simone olhou para Lorise:


— Ele é sempre assim?


— Imagina, Simone. É pior.


Simone riu:


— Meio século convivendo com a mesma pessoa e ainda conseguindo rir juntos? Isso merece investigação.


Lorise apoiou os braços sobre a mesa:


— Não é milagre, Simone. Prefiro chamar de companheirismo. Talvez algo próximo daquele amor autêntico de que você fala: duas pessoas juntas sem que uma precise desaparecer para que a outra exista.


Simone não respondeu imediatamente. Apenas observou Lorise. Havia um sorriso discreto no canto de sua boca. Naquele momento, tive a impressão de que Simone de Beauvoir acabara de descobrir que, naquela mesa, havia uma mulher muito mais interessante do que ela imaginara. E eu começava a suspeitar que passaria o resto da noite tentando conseguir a palavra.



A Italiana girou lentamente a taça entre os dedos:


— Simone, há uma coisa que me incomoda. Quando se fala em liberdade feminina, parece bonito. Quase poético. Mas existem mulheres que ainda precisam lutar pelo direito mais elementar: não apanhar.


O sorriso de Simone desapareceu.


— E aí termina qualquer romantismo.


Fiquei olhando para as duas. Lorise continuou:


— No Brasil temos a Lei Maria da Penha. Foi preciso criar uma lei específica para proteger mulheres da violência dentro de casa. Dentro de casa, Simone. Justamente onde deveriam estar seguras.


Simone apoiou os braços sobre a mesa:


— Isso diz muito sobre uma sociedade. A violência contra a mulher nunca é apenas um ato privado entre duas pessoas. Ela carrega uma ideia de posse.


Resolvi entrar na conversa:


— Aquele velho pensamento: “minha mulher”.


A Italiana virou-se para mim:


— Depende de como você usa o “minha”.


— Começou!


Simone sorriu discretamente:


— A palavra não é o problema, Marinho. O problema é quando o pronome possessivo deixa de ser carinho e vira escritura de propriedade.


Olhei para o meu copo:


— Depois dessa, acho melhor eu dizer apenas “a Italiana”.


— Muito prudente — respondeu Simone.


Ela retomou:


— Uma lei como essa é necessária porque durante muito tempo a violência doméstica foi tratada quase como assunto particular. Como se uma porta fechada transformasse violência em intimidade.


A Italiana assentiu:


— E ainda existe aquela frase horrorosa: “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.


Levantei o dedo:


— Essa frase envelheceu muito mal.


— Algumas frases já nascem velhas — disse Simone.


Lorise ergueu a taça:


— Então que se meta a colher.


Ergui meu copo:


— A colher, o garfo, a polícia, a Justiça e, dependendo do sujeito, até a frigideira.


A Italiana me lançou um olhar:


— Sem violência, Marinho.


— Retiro a frigideira.


Simone riu:


— Veja como é curioso. Vocês fazem piada, mas estão falando de uma mudança profunda. Durante séculos ensinou-se que certas coisas pertenciam ao silêncio da família. Romper esse silêncio também é uma forma de libertação.


A Italiana ergueu a taça:


— A isso eu brindo.


Bati meu copo nas duas taças:


— Eu também. Principalmente porque percebi que hoje qualquer tentativa minha de mudar de assunto será considerada opressão.


Simone olhou para a Italiana:


— Ele aprende rápido.


— Convivo há anos — respondeu ela. — Alguma coisa tinha que aprender.


Respirei fundo:


— Italiana, com sua permissão, gostaria de fazer um esclarecimento.


Lorise cruzou os braços:


— Quando você começa assim, Marinho, geralmente vem confissão.


— Simone, em minha defesa, fui criado num mundo em que o homem sentava à cabeceira da mesa e acreditava que aquilo era a ordem natural das coisas. Levei anos para perceber que o problema nunca foi a cadeira. Não posso apagar meu passado. Alguns resquícios daquele machismo ainda moram em mim.


Simone me observou por alguns segundos:


— Reconhecer de onde você veio é importante. Mas o passado explica; não absolve.


Silêncio. A resposta veio como um tapa de luva aplicado por Mike Tyson. Olhei para a Italiana. Seu olhar dizia claramente: guarda alta, Marinho. Mais um golpe e seria ela quem cairia por solidariedade conjugal.

Tomei um bom gole de cerveja. Era hora de mudar o terreno da luta.



— Simone, recebi Sigmund Freud nesta mesma mesa.


Ela ergueu uma sobrancelha:


— Meus sentimentos.


A Italiana quase engasgou.


— E perguntei a ele sobre uma teoria que lhe rendeu algumas pedradas: a inveja do pênis.


Simone pousou a taça:


— E Freud conseguiu sair vivo daqui?


— Por pouco. Disse que talvez você tivesse percebido algo que os homens do tempo dele não conseguiam enxergar por inteiro. Mas pediu que eu não jogasse sua teoria pela janela tão depressa. Segundo ele, o inconsciente também tem seus argumentos.


Simone sorriu:


— Muito freudiano. Até quando recua, Freud deixa uma porta aberta para voltar.


— Então ele estava errado? — perguntou Lorise.


Simone pensou antes de responder:


— Minha crítica nunca foi simplesmente trocar uma certeza pela outra. O problema é tomar a anatomia masculina como medida e imaginar a mulher como um homem a quem falta alguma coisa.


Olhei instintivamente para baixo. Lorise percebeu:


— Marinho!


— Reflexo científico.


Simone riu:


— É exatamente esse o problema. O pênis ganhou uma importância simbólica que ultrapassa muito a anatomia. Poder, autoridade, independência, acesso ao mundo... durante séculos essas coisas foram reservadas aos homens. Talvez muitas mulheres não invejassem o órgão, mas aquilo que a sociedade concedia a quem o possuía.


Fiquei alguns segundos em silêncio.


— Então Freud olhou para o corpo quando deveria ter olhado também para a sociedade?


— Digamos que ele olhou profundamente para o inconsciente, mas nem sempre olhou com a mesma desconfiança para o mundo que ajudava a construí-lo.


A Italiana ergueu a taça:


— Essa doeu mais do que a anterior.


— Em mim ou no Freud?


— Nos dois.


Bebi:


— Ainda bem que Sig não está aqui.


Simone sorriu:


— Talvez esteja. Pelo que você me contou deste bar, não descarto nenhuma hipótese.


Olhei discretamente ao redor:


— Sig, se estiver escutando, fique onde está. Hoje já apanhei o suficiente por nós dois.


Lorise riu.



Foi quando percebi uma ausência naquela conversa. Uma ausência tão evidente que chegava a ser falta de educação.


— Simone, preciso lhe pedir desculpas.


— Por quê?


— Estamos conversando há esse tempo todo e não perguntei absolutamente nada sobre Jean-Paul Sartre.


Ela me encarou:


— Pensei que você estivesse evitando.


— Jamais. Seria grosseria receber Simone de Beauvoir no BAR ANGA e fingir que Sartre nunca existiu.


Lorise entrou imediatamente:


— Cuidado, Marinho. Você está entrando em terreno minado.


— Minha especialidade.


Simone sorriu:


— Então pergunte.


Olhei para ela:


— Sartre foi o grande amor da sua vida?


Pela primeira vez naquela noite, Simone demorou a responder. A SAMBASTOS tocava baixo. Ao fundo, alguém pediu outra cerveja. Flash Gordon passou carregando uma bandeja, percebeu o silêncio da mesa e seguiu adiante sem dizer uma palavra. Simone girou lentamente a taça:


— Sartre foi um grande amor da minha vida. Mas eu desconfiaria da expressão “o grande amor”. Ela parece querer resumir uma existência inteira numa única pessoa.


Lorise assentiu:


— Vocês viveram uma relação que muita gente ainda hoje não consegue compreender.


— Às vezes nem nós compreendíamos — respondeu Simone.


Eu ri:


— Graças a Deus! Finalmente alguma coisa normal nessa história.


— Marinho! — repreendeu Lorise.

Simone riu:


— Deixe. Ele não está completamente errado.


Aproveitei a absolvição:


— Vocês falavam em amor necessário e amores contingentes.


Funcionava mesmo?


Simone respirou fundo:


— Funcionava, falhava, machucava, libertava. Como quase tudo que envolve seres humanos.


Lorise olhou para mim:


— Está vendo? Não existe teoria que sobreviva intacta a uma relação amorosa.


— Nem casamento de quase cinquenta anos — respondi.


Ela encostou sua taça no meu copo:


— Principalmente.


Simone nos observou:


— Talvez a liberdade seja justamente isso: não encontrar uma fórmula perfeita, mas continuar escolhendo sabendo que toda escolha tem consequências.


Levantei o copo:


— Então proponho um brinde.


— A quê? — perguntou Lorise.


Olhei para Simone:


— À liberdade. Às mulheres que recusaram o lugar que lhes reservaram. Aos homens que ainda estão aprendendo a sair da cabeceira da mesa...


Lorise sorriu:


— Está melhorando.


— ...e aos amores que, necessários ou contingentes, sobrevivem às nossas teorias.


Simone ergueu a taça:


— A esse eu bebo.


Brindamos. Tomei um gole e pensei em Freud. Naquela noite, finalmente compreendi que talvez a velha história da inveja do pênis tivesse sido formulada olhando para o lugar errado. Talvez não fosse o pênis. Talvez fosse o poder. E esse, convenhamos, nunca deveria ter sido privilégio de ninguém.


A noite já havia avançado quando pedi a conta. Enquanto Flash Gordon fazia suas contas, chamei a Italiana.


— Faça um favor para mim. Peça ao Sr. Edu um saquinho com algumas pedrinhas de gelo.


Ela me olhou:


— Para quê?


— Confie no seu marido.


— Isso nunca termina bem.


Paguei a conta e me virei para Simone:


— Simone, já se faz tarde. Precisamos ir.


Ela se levantou:


— Também está na minha hora.



Acompanhamos Simone até a calçada. Vieram os abraços, os agradecimentos e aquela estranha sensação de despedida que certas pessoas deixam mesmo depois de apenas algumas horas.


— Vai ficar um pentelho de saudades — falei.


Simone riu:


— Você realmente não consegue terminar uma frase com elegância, Marinho?


— Consigo. Apenas evito.


Rimos. Ela se despediu de Lorise com um abraço demorado e seguiu seu caminho.


A Italiana então entregou o saquinho com gelo ao Bambu Albino. Ele olhou para aquilo, confuso:


— O que é isso?


— Para o seu whisky — respondeu ela.


Bambu começou a rir:


— Marinho, socorro!


Tirei do bolso algumas notas e entreguei a ele:


— Seu pró-labore.


A Italiana olhou para o dinheiro, depois para o saquinho de gelo. Finalmente entendeu:


— Ahhh... então eram essas as famosas pedrinhas de gelo!


Bambu guardou o dinheiro no bolso:


— Agora a senhora entendeu.


Eu já caminhava em direção ao carro quando ele perguntou:


— E então, Marinho? Como foi a noite com a madame?


Parei. Olhei para ele e resolvi exibir meus vastos conhecimentos internacionais:


Une nuit magnifique.


Bambu sorriu:


Oui. Madame Beauvoir est une femme admirable.


Fiquei imóvel. A Italiana também. Olhei para ele:


— Bambu... você fala francês?


— Um pouco.


— Um pouco?


Ele deu de ombros:


— Morei uns anos na França.


Silêncio.


— E por que nunca me contou isso?


— Você nunca perguntou.


A Italiana começou a rir. Bambu continuou:


— Aliás, peço desculpas pela demora para trazer a madame até a porta. Ficamos trocando umas ideias.


Olhei para ele, incrédulo:


— Você ficou conversando com Simone de Beauvoir?


— Sobre liberdade, Sartre, essas coisas... — Fez uma pequena pausa: —

Mulher admirável.


A Italiana já ria sem qualquer cerimônia.


Olhei para Bambu Albino, para o saquinho de gelo em sua mão e depois para a porta do BAR ANGA. Naquela noite eu havia conversado com Simone de Beauvoir sobre Freud, Sartre, liberdade, machismo e quase meio século de casamento. Mas quem realmente me deixou sem palavras foi o flanelinha Bambu Albino.


Entramos no carro. A Italiana colocou o cinto, ainda sorrindo, e ligou o motor.


— Marinho... Nem começa. Você passou a noite tentando impressionar Simone de Beauvoir...


Engatou a marcha:


— ...e o Bambu fala francês.


Olhei pela janela. Bambu Albino levantou o saquinho de gelo em nossa direção:


Bonne nuit, Marinho!


Fechei os olhos:


— PQP.


Retrato de meio-corpo do autor Marinho Bastos, homem maduro de barba e bigode grisalhos e óculos de armação fina redonda, vestindo terno cinza, camisa branca e gravata preta contra fundo escuro texturizado.

Marinho Bastos é cronista, observador das contradições humanas e frequentador assíduo dos balcões da vida. Entre o humor cotidiano e o existencialismo de botequim, escreve regularmente para o Dialéticos, onde recebe personalidades históricas para brindar às surpresas que só a mesa de bar é capaz de aprontar.

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