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NÃO FAÇA BARULHO, PORQUE OS PARLAMENTARES REPOUSAM

há 13 horas
5 min de leitura
Ilustração satírica em estilo pintura digital mostrando o gabinete da autoridade pública Eleovaldo. Em primeiro plano, um homem de terno sisudo faz sinal de silêncio com o indicador nos lábios diante de uma mesa de despacho com livros de direito, uísque e uma placa com seu nome. Atrás dele, um agiota de óculos escuros fuma charuto com sorriso predatório. Ao fundo, vereadores dormem no plenário da Câmara Municipal sob uma placa que diz "Não faça barulho, porque os parlamentares repousam", enquanto uma advogada atende ao telefone e uma televisão noticia um escândalo político.

Não faça barulho, porque os parlamentares repousam


Por Caio Brandão


Eleovaldo ocupava posição de relevo na prefeitura. Indicava apaniguados para cargos gordos, reduzia multas de comerciantes distraídos, barrava a fiscalização de obras clandestinas — ou mandava demolir o que contrariasse certos interesses —, alterava o sentido de tráfego das avenidas e mantinha sob sua proteção as meninas da casa de diversões mais bem falada da cidade. Enfim, tinha a última palavra em quase tudo. Não precisava mandar muito: bastava que todos soubessem que ele podia mandar: era supremo em suas decisões.


De família de prestígio, era sobrinho de um daqueles coronéis antigos, agraciados com títulos em recompensa por favores despendidos mediante somas generosas e com destino certo. Na prefeitura, era temido pelos demais secretários que, embora detivessem prerrogativas semelhantes, não tinham seu apetite pelo poder nem a maneira escrachada de fazer valer pontos de vista em despachos de temerária e singular fundamentação.


Eleovaldo era sisudo, tinha ar senhorial e não abria espaço para intimidades, senão aquelas ornadas por ambientes altamente sofisticados, regados a bons vinhos e uísques de renomada tradição etílica. No colegiado, não tinha concorrentes. A pose, a fluência verbal, os gestos estudados e o tom de voz médio-agudo, com eventuais lances de graves oportunistas, abafavam qualquer tentativa de contestação.


Propina? Nem pensar.


Eleovaldo mantinha secas as mãos, jamais molhadas por interesses subalternos. Era uma vestal pudica, cheia de não-me-toques e temente não apenas a Deus, mas ao seu próprio e severo julgamento.


Numa tarde de outono, porém, Eleovaldo foi surpreendido pelo apelo inusitado de um agiota de grande poder: Dr. Valfrido.


Gestor de somas imensas de dinheiro de origem tão duvidosa que até a dúvida parecia suspeita, Valfrido captava seus milhões por mecanismos espúrios no setor público e nas barbas de aposentados e pensionistas, cujos parcos proventos costumam ficar à mercê de ventos e tempestades.


Valfrido era jovem de espírito, de meia-idade no RG, mas ostentava uma elegância agressiva e performática. Tinha o trajar jovial, o falar solto e uma cabeleira vistosa, capaz de causar inveja às vítimas da alopecia, quer a androgenética, quer a areata — criaturas implacáveis na manutenção do terreno conquistado.


Hedonista incurável, não escondia de ninguém o desprezo pelas convenções sociais. Promovia festas lendárias e descontraídas, povoadas por jovens e belas donzelas trazidas de vários cantos do mundo, todas de hábitos bastante liberais, regadas à gastronomia exótica, bebidas caríssimas, charutos imensos, piscinadas libertinas e tudo mais que a devassidão pode proporcionar — sobretudo a homens maduros e privados da descontração, cuja audácia costuma habitar apenas o imaginário ou a intimidade do toilette residencial.


Eleovaldo manteve a costumeira cautela no contato. Sabia que Valfrido era pródigo — e até exagerado — na distribuição de benesses, mas também conhecia sua voracidade.


Sem pedir licença, o agiota acomodou-se na poltrona do gabinete, cruzou as pernas com o descarrego de quem é dono do quarteirão e acendeu um charuto encorpado, cuja fumaça densa invadiu, sem cerimônia, as narinas da pudica autoridade.


— Meu caro Eleovaldo — disparou Valfrido, ajeitando com a ponta dos dedos a farta cabeleira e ostentando um sorriso predatório. — Deixe de lado essa carranca circunspecta. A vida é curta demais para ser gasta despachando papéis mofados. Estou aqui porque preciso que você resolva um probleminha simples. Mas tem que ser hoje. E sem essa palhaçada de trâmites burocráticos.


Eleovaldo ajeitou os óculos na ponta do nariz, indignado com a audácia, mas sentindo o baque da presença magnética e perigosa do visitante.


— Dr. Valfrido — respondeu a vestal, usando seu tom médio-agudo de praxe, tentando restabelecer a hierarquia. — O senhor sabe que minhas decisões primam pela técnica e pela estrita legalidade institucional...


— Poupe-me do teatro, Eleovaldo! Guarde o sermão para quem acredita em Papai Noel — atalhou Valfrido, sem perder a postura aristocrática nem o brilho no olhar. — O que eu preciso exige a aprovação imediata da Câmara. Onde estão os nobres vereadores desta cidade?


Eleovaldo fez um gesto contido com a mão direita, num misto de prudência e piedade institucional. Levou o indicador aos lábios, tensionou a fisionomia no seu tom mais grave e solene e pronunciou, quase num sussurro:


— Baixe o tom, Dr. Valfrido. Por favor, não faça barulho... porque os parlamentares repousam.


Litografia histórica em preto e branco "Le Ventre Législatif" (1834), do artista francês Honoré Daumier, retratando em tom de sátira política os deputados do parlamento francês sentados nas bancadas em semicírculo, a maioria adormecida, curvada ou demonstrando indiferença e apatia.
Honoré Daumier, "Le Ventre Législatif" (litografia, 1834).

O agiota franziu a testa, desacostumado a ser freado por sussurros burocráticos.


— Repousam? Às três da tarde de uma terça-feira?


— Exercem o sagrado direito ao recesso não oficial das sessões exaustivas — explicou Eleovaldo, recuperando a majestade do cargo com um leve meneio de cabeça. — Pela manhã, votaram a denominação de três travessas no bairro novo e concederam duas moções de aplauso. Estão exaustos.


— Não se preocupe — retrucou Valfrido. — Tenho franco acesso à presidência da Câmara e o poder de contornar dificuldades. Gosto de atalhos e a burocracia me enlouquece.


Fez uma pausa, aspirou longamente o charuto e acrescentou:


— Ademais, Eleovaldo, acabo de contratar o escritório de sua sobrinha, a doutora Elisângela — de cujo escritório dizem as más línguas ser o prezado amigo sócio oculto.


Eleovaldo ergueu discretamente as sobrancelhas.


— O escritório não tem o prestígio desejado e sequer atua com a desenvoltura que eu gostaria — continuou Valfrido —, mas me pareceu a melhor alternativa, dadas as circunstâncias. Celebrei com ele um contrato milionário. Talvez até exagerado. Mas não economizo em investimento quando a obra é certa. Aumenta a garantia de sucesso.


Eleovaldo não respondeu de imediato.


Apenas ajeitou os óculos, elogiou a capacidade dos profissionais do escritório e disse que a sobrinha saberia conduzir o trabalho com a competência habitual.


Não confirmou ser sócio. Não negou.


Não confirmou participação nos honorários. Não negou.


Era sua especialidade.


Valfrido agradeceu e, no íntimo, cantou vitória. Entendeu que o espaço estava conquistado e pronto para investidas mais objetivas. Entrou no elevador exultante.


Do lado de fora do prédio, enviou de pronto a primeira mensagem pelo celular. A ela se seguiram outras tantas, sempre em tom de camaradagem e, mais até, de intimidade de quem compartilha interesses.


Eleovaldo, a seu turno, não estava disposto a se comprometer. Nas abordagens, não dizia que sim e também não dizia que não. Comunicava-se mais por contrações faciais e frases de sentido dúbio, recheadas de termos técnicos.


Achou relevante o contrato — que a sobrinha saberia capitaneanar com maestria —, mas não colocaria a mão no embornal. Poderia mamar nos frutos, desfrutar de um carro maravilhoso para dirigir, viagens notáveis e todo tipo de mordomia disponível, mas sem que sua mão acariciasse a mala.


E havia uma vantagem adicional: sabia que, mais cedo ou mais tarde, o caldo iria entornar.


Seu risco seria mínimo.


Mensagens frequentes, mas sem comprometimento objetivo. Acenos sem propósitos específicos. Coisa de profissional.


Afinal, se o agiota sabia jogar, o técnico em campo era Eleovaldo.


E, como previsto, o caldo entornou.


Valfrido, em pânico, telefonou para Eleovaldo e pediu socorro. A voz, antes arrogante, agora vinha carregada de urgência.


Eleovaldo ouviu em silêncio.


Não prometeu nada.


Não negou nada.


Pediu que Valfrido tivesse calma e que aguardasse novas instruções.


Desligou o telefone.


Em seguida, mandou uma mensagem protegida, de conteúdo literalmente vazio, quase de despedida. Nada que pudesse ser interpretado como compromisso. Nada que pudesse ser usado contra ele.


Depois ligou a televisão.


Na tela, a vinheta do Jornal Nacional anunciava mais um escândalo.


Eleovaldo sorriu.


Tomou um cálice de licor de amêndoas, limpou a boca com o dorso da mão direita e permaneceu imóvel, contemplando as imagens. Parecia assistir a um filme do qual já conhecia o final.


Do outro lado da rua, a sobrinha contabilizava números superlativos.


Na Câmara de Vereadores, discutia-se a mudança de nome da Avenida Radial.


E os nobres edis, depois de tão exaustiva jornada, certamente precisariam de repouso.


Eleovaldo desligou a televisão.


Estava tudo sob controle.


Afinal, suas mãos continuavam limpas.



Close aproximado do rosto de Caio Brandão, autor da crônica, usando óculos de sol com armação dourada metálica e lentes escuras.

Caio Brandão é jornalista e cronista das Minas Gerais.

1 comentário


Deusa
há 10 horas

Como eu disse antes, você vai tomar o lugar de Stephen King, o melhor dos melhores escritores para a minha humilde alma. Rsrs.

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