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BEIJINHOS DOCES

“Que beijinho doce, que ela me deu

Depois que beijei ela, nunca mais amei ninguém”


Fonte G1


Na mente a canção tornada famosa pelas Irmãs Galvão e gravada por dezenas de cantores de todo o Brasil.

Mas a lembrança não era de amores juvenis, mas das pequenas delícias açucaradas.


Essa canção, décadas atrás, foi um grande sucesso nas rádios. Era um tempo em que a música caipira ou assemelhada só tocava nas rádios populares, o gueto onde o popular se escondia. Gente chic só ouvia Cole Porter. O mainstream da canção popular era dominado por boleros nacionais ou importados ou a música vinda dos musicais da Broadway ou Hollywood. De contrabando, canções mexicanas, italianas, francesas, envolvidas em toneladas de açúcar – fatal para diabéticos – mas a turma gostava. E como.


As Galvão começaram nos anos 40, duas meninas em um meio predominantemente masculino. Mary tinha sete anos (a que toca acordeão) e Marilene cinco anos (violão). Elas se apresentavam e se deixavam fotografar, conversando bem-humoradas entre si, como duas irmãs muito chegadas e que se amavam incondicionalmente.


Elas eram de Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo, e não estudaram em Yale, como Cole Porter. Sua escola foi, desde a primeira apresentação na Rádio Club Marconi, em Paraguaçu Paulista, nas apresentações ao vivo em programas de rádio (estávamos nos anos 40 e 50) e em circos do interior de São Paulo. Onde houvesse cachê, lá estariam, escoltadas pelo pai amoroso. Foi o que as permitiu sobreviver, em um mundo de machos, em um ambiente atrasado e normalmente hostil a mulheres.


A primeira canção: La Ultima Noche que Pasé Contigo, que cantaram sem saber espanhol e sem a malícia dos adultos. Um feito notável, para duas garotinhas de 5 e sete anos, ao vivo.


Os donos dos circos iam ao Largo Paissandu, em São Paulo, no Café dos Artistas, à procura de atrações para seus espetáculos. O pai ia e tratava com os donos dos circos. Se a bilheteria fosse boa, tudo bem; se não houvesse público, ficariam mais alguns dias para ganhar o dinheiro da volta. Circos muito precários, com uma corneta no alto do mastro: era o alto-falante. Quando o vento batia, o microfone, pendurado no alto por um fio, se movia, e elas se moviam juntos, em uma singela dança caipira. O povo fazia silêncio para ouvi-las. Os espectadores comiam maçã do amor, pirulito envolvido em papel, pipoca. Saiam de São Paulo na quinta e voltavam na segunda, aboletadas em ônibus pinga-pinga ou trens que se dirigiam ao interior paulista.


Os anos 50 foram a década de ouro da música caipira. Nos anos 60, veio a Jovem Guarda, e uma nova sonoridade invadiu o país e o mundo. Aos poucos, a crescente urbanização do país foi deixando para trás os grandes astros que tinham seu público naquelas pequenas cidades do interior, sintonizadas nas rádios locais e de ondas curtas das grandes cidades.


Carlos Randal, compositor, conta que em uma viagem, Mary queixou-se que o namoro dela com o músico e maestro Mário Campanha não estava agradando. Estava muito fácil para ele, dizia. Vem, fica comigo e depois vai embora. Mas ela o queria inteiro, e não em pedacinhos. Randal, enquanto ouvia, compunha mentalmente uma canção. Naquela mesma noite, foi ao quarto de hotel onde estava Mary e a apresentou a Pedacinhos.


Amor eu não sou egoísta,

mas te quero aqui no mesmo travesseiro

Já chega dos seus pedacinhos

eu te quero inteiro


A canção retrata por inteiro (não em pedacinhos) a mentalidade de uma época. Esqueça as ficadas de uma noite, esqueça os amassos eventuais no carro e bye bye baby. Estes homens e mulheres queriam, além de partilhar o travesseiro, tomar café da manhã juntos. De preferência olhando nos olhos um do outro.


Por que duraram tanto? O carisma delas explica em parte: são amáveis, calorosas, gente que valoriza a alegria, o bom humor. Sua leveza de espírito conquistou gerações de ouvintes em mais de setenta anos. Os músicos, entre os quais não me incluo, oferecem outras explicações mais técnicas. A Rede Globo, ao incluir Beijinho Doce na trilha sonora de uma novela, colaborou.


Alguém, creio que Maikel Monteiro, disse que a música caipira traz você para casa.


Talvez esteja aí a resposta. Com Mary e Marilene estamos na cozinha de casa ou do vizinho, tomando um café coado na hora, comendo bolo de laranja e beijinhos doces.


Marilene Galvão faleceu no dia 24 de agosto de 2022, aos 80 anos. Deixou sua irmã e companheira de jornada, Mary. No Youtube você encontrará um belo documentário, “Eu e Minha Irmã”, narrando a trajetória das Galvão; também o show que elas fizeram no Teatro Guaíra, em 2017, está disponível. O pesquisador e radialista Maikel Monteiro escreveu o Dossiê As Galvão, de onde retirei as informações para este artigo. Na Amazon Books. Não seja muquirana, compre. Não é sempre que você pode comprar um pedacinho de felicidade. No Distrito de Sapezal, em Paraguaçu Paulista, um prefeito inteligente construiu o Memorial Irmãs Galvão. Se você passar por perto, faça uma visita. Beijinho Doce, de João Alves dos Santos (Nhô Pai, da dupla Nhô Pai e Nhô Filho), foi gravada por inúmeros cantores, além das Galvão: Irmãs Castro, Nalva Aguiar, Paula Fernandes (esta com Michel Teló), Chitãozinho e Xororó (com Ivete Sangalo e Margareth Menezes). João Alves dos Santos também era de Paraguaçu Paulista. Que cidade, esta. Maringá, por muito menos, é chamada Cidade Canção.

1 comentário


Cilos Roberto Vargas
Cilos Roberto Vargas
13 de out. de 2022

Parabéns, por esse singelo resgate da história musical de nosso país.

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