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CABRAL DESEMBARCOU NO RIO GRANDE DO NORTE

Nosso precioso colaborador lançando luzes sobre nossa história.


Arthur Virmond de Lacerda Neto

O quadro de Oscar Pereira da Silva - obra de 1900 - retrata o desembarque de Cabral em terras brasileiras.


Escassamente divulgado, conhece-se (um somente) passo da carta de Cabral a el-rei D. Manuel, motivada pelo achamento do que veio a ser o Brasil, de cuja existência Caminha e Cabral sabiam; este possivelmente já cá estivera antes de 1500, bem como, provavelmente, Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Colón (Colombo), Duarte Pacheco Pereira. Caminha é explícito em que Nicolau Coelho estivera no Brasil antes de 1500.


Das inúmeras outras cartas redigidas então, perderam-se algumas no incêndio de 1570, na expatriação (para Espanha) dos arquivos de Lisboa em 1612, no terremoto de 1755, exceto a de Caminha e a de Mestre João, e curto excerto da de Cabral, em que este confessa a intencionalidade da rota seguida pela frota e o prévio conhecimento que detinham ele e el-rei, da existência do futuro Brasil, em sua missiva a D. Manuel: “[…] em obediencia a instruçam de vossa alteza navegamos no Ocidente e tomamos posse, com padram, da Terra de vossa alteza que os antigos chamavam Brandam ou Brasil”, por sua vez encontrada em 1343, pelo mareante português Sancho Brandão.


É extraordinário que este período da missiva de Cabral, divulgada pelo brasileiro Assis Cintra nos anos 1930, passe despercebida até ao presente da maioria dos estudiosos e brasileiros. Ela foi referida, por ordem cronológica:

1) pelo brasileiro Francisco de Assis Cintra, em Nossa primeira história. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1923.

2) Em Arquivo das Colônias, número 26, 1929, Portugal.

3) Pelo português Manuel Heleno, em O descobrimento da América. Lisboa, 1933, p. 19.

4) Pelo brasileiro Sérgio Corrêa da Costa, em Brasil, segredo de Estado. Rio de Janeiro, editora Record, 2001, p. 66.

5) Pelo brasileiro Lenine Pinto, em O mando do mar. Natal, Sebo Vermelho Edições, 2015, p. 167, 207 a 210.


A carta de Cabral foi adquirida por sir Carlos (Charles) de Rothsey, lorde Stuart, embaixador da Grã-Bretanha em Portugal ao tempo da independência do Brasil, que também adquiriu a segunda parte do texto das instruções de Vasco da Gama a Cabral, subtraídas da Torre do Tombo e que em 1921 paravam no acervo de opulento colecionador europeu, possivelmente o mesmo que possuía a carta e que porventura terá facultado a Assis Cintra sua leitura ou transcrição.


Em 1855 a casa leiloeira Shoteby´s leiloou a carta de Cabral, para Stevens, juntamente com outros manuscritos e de então a esta parte ignora-se-lhe o paradeiro e quem lhe seja o proprietário, se é que ela ainda existe: ter-se-á, talvez, perdido em uma das duas guerras mundiais; terá sido jogada fora como papel velho (se calhar por viúva ou filho ou neto, herdeiros dos papéis de seu marido, pai ou avô); terá sido vendida a algum alfarrabista ou antiquário, onde terá sido comprada por quem não a soube decifrar, já particular, já instituição pública ou privada; pertencerá a algum colecionador de papéis antigos, tampouco capaz de lê-la.

Dado que Francisco de Assis Cintra conheceu o lugar que acima transcrevi (único, aliás, que ele próprio reproduz), depreendo haver ele lido a carta; foi pena não a haver reproduzido por inteiro, não haver identificado quem a possuía em 1921, tampouco haver propiciado mais dados sobre ela, que dirime, definitivamente, a dúvida tão debatida acerca da intencionalidade ou da casualidade do achamento efetuado por Cabral, que veio com rumo certo, ciente da existência do que veio a ser o Brasil e de sua localização, como o demonstram, aliás, incontáveis indícios.


De nenhuma pista dispomos que nos certifique haver a frota de Cabral aportado em Porto Seguro, na Bahia; elas existem de que o fez no Rio Grande do Norte: já o marco da praia de Touros, já a informação do espia italiano Pisani, de que a frota perlustrara 2.000 léguas de costa, já a existência de segundo marco, em Cananéia, já o intervalo de 2.000 léguas de costa entre o ponto em que foram encontrados os marcos da praia de Touros e o de Cananéia.

Cabral provavelmente desembarcou no Rio Grande do Norte, tese verossímil lançada por Lenine Pinto, em O mando do mar (2015) e retomada por Manuel de Oliveira Cavalcanti Neto em 2018 (1500 – De Portugal ao Saliente Potiguar): eis autores cujos trabalhos merecem divulgação e atenta consideração.


A epístola de Caminha veio para o Brasil com a corte em 1808, achava-se no Arquivo Real da Marinha portuguesa, onde o historiador Aires de Casal desencantou-a, e publicou-a, parcialmente, em sua Corografia Brasílica, de 1817.

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