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COMIDAS FINAS, BEBIDAS MELHORES AINDA


Bebe um pouco de vinho porque dormirás muito tempo debaixo da terra, sem amigo, sem camarada e sem mulher.

Confio-te um segredo: as tulipas murchas não reflorescem mais.


Imagem de Hatsuo Fukuda


No imenso matagal em que vivíamos nos anos 40 e 50 do século passado, era um arauto da boa mesa, das melhores bebidas e da vida em sociedade. Na sociedade paulista da época ensinou boas maneiras a gerações de mocinhas e rapazes. Os Cavalcante, os Almeida Prado, os Scarpa, a fina flor da sociedade paulista passaram por suas mãos e aprenderam a usar os talheres, harmonizar as bebidas e a seduzir e ser seduzida (em sociedade tudo se sabe, já dizia outro cronista, este um fofoqueiro). Ele mesmo era uma fina flor da oligarquia brasileira. Seu avô, aliás, foi presidente da Província do Paraná, e marcou a sua presença no matagal (ervatal) paranaense com a inauguração da ferrovia Paranaguá- Curitiba, que foi um dos grandes aceleradores do crescimento da província. Seu irmão foi o grande Paulo Machado de Carvalho, empresário e cartola de futebol responsável pelas vitórias de 1958 e 62, além de criador da TV Record, a emissora líder de audiência, antes do domínio da Rede Globo. Do imenso império de mídia da família sobrou apenas a Jovem Pan.

Eu, que de boas maneiras, boas comidas e boas bebidas só tenho a experiência das biroscas que frequentei (as mais finas biroscas curitibanas), e sei como equilibrar uma garrafa de cerveja, um copo e uma empadinha, sentado no meio-fio, ao lado de uma boca-de-lobo em frente ao Bar do Torto, enquanto discuto existencialismo, fenomenologia e música popular, tenho Marcelino de Carvalho como um grande mestre. Aprendi muito com ele. Naturalmente, aprendi em seu livro, A Arte de Beber (Assim Falava Baco), pois não tive tempo para frequentar o curso de boas maneiras que ele deu à fina flor da sociedade paulista.


Conversas à mesa:

“Converse sobre vinhos, sobretudo à mesa, ao invés de saber se o café subiu ou se o dólar vai melhorar de preço. Devia ser obrigatório conversar à mesa somente sobre comidas e bebidas. A conversa ficaria mais animada, sendo entendida e discutida ali, de corpo presente. Mas se todo mundo se esqueceu até de conversar, como exigir que se fale de um assunto de tanta importância e responsabilidade?”

Sobre a importância da água:


“Há muita gente que bebe água. Talvez bebesse menos, se soubesse alguma coisa mais aprofundada sobre esse líquido.”

“Antes de mais nada, quero que fique bem claro que não tenho preconceito algum contra a água. Acho-a até indispensável. Que seria do mundo sem mares e rios, sem lagos ou estreitos? Coisa alguma mais agradável do que uma longa viagem transatlântica e mesmo uma pescaria à margem de um rio piscoso. Chuva é coisa necessária e um belo banho é uma delícia.”


O brinde aos amigos:


“Há um velho e bom costume que não deve desaparecer. É aquele de se levantar o copo à saúde de alguém ou do grupo todo que se senta à mesa de um bar ou uma refeição. É amável e a gente deve ser sempre amável, quando se procura a companhia dos outros.”

“O chin-chin habitual e universal não é uma expressão onomatopaica, como parece, e sim uma expressão chinesa que quer dizer “felicidade-felicidade”, porque em chinês repetir uma palavra é igual a dizer “muito”. Chin-chin quer dizer muitas felicidades em português.”


Sobre a cerveja:


“A cerveja é a vingança dos povos que não tem vinho sobre os que o têm.”


“Nas cervejarias, há sempre bochechas vermelhas, que suam em bicas. Apressadamente. Nas leiterias, há rostos pálidos, que olham melancolicamente para o vizinho, que também bebe leite. Lentamente.”


Sabedoria inglesa:


“Whisky after beer, clear.

Beer after whisky, risky.”


Sobre modismos alcoólicos:


“O mundo continua girando e sempre haverá preconceitos, esquecendo-se os menos afeiçoados que toda bebida tem seu tempo e sua hora e, que se a gente perde um e outra, depois torce as orelhas e leva um tempão louco para compensar a oportunidade que já passou.”


Como beber:


“Quando se bebe, a primeira gota é sempre precedida de um chin-chin (felicidade em chinês). Que a última tenha também a acompanhá-la um pensamento bom, como o da gente de nossa terra.”



A epígrafe é de Omar Khayan, na tradução de Otávio Tarquínio de Souza. A Arte de Beber (Assim falava Baco), de Marcelino de Carvalho, suponho que seja encontrável na Estante Virtual ou nos melhores sebos da terra, onde encontrei o meu exemplar. Chin-chin.

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