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CPI DA COVID VIII

O governo se embaraça…

Imagem deJL GporPixabay


Ontem, finalmente, Pazuello compareceu perante a CPI da COVID e falou. O habeas corpus foi quase desnecessário, afinal, pois ele quase não usou a prerrogativa de permanecer calado para não se comprometer. A princípio seguro, contudo, lenta e gradualmente foi desmoronando.


Um dia antes, o ex-Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, prestou longo depoimento onde comprometeu profundamente Eduardo Pazuello, pois debitou como determinações do Ministério da Saúde várias decisões equivocadas: recusa das vacinas da Pfizer, compra de cloroquina, omissões assassinas em Manaus ( inclusive ).


Ernesto Araújo não foi - nem de longe - o arrogante chanceler que comandou o Itamaraty por mais de dois anos. Humilde, hesitante, respeitoso, em nada lembrou o homem que invectivou contra a China, a globalização, a OMS e assim por diante. Parece ter percebido que o Planalto não está preocupado com ele, que está disposto mesmo a imolá-lo no altar da preservação de Bolsonaro. Sequer a tropa de choque do governo compareceu para defendê-lo com o habitual aguerrimento.


Araújo optou por salvar-se, entregando Pazuello. O ex-Ministro da Saúde pareceu finalmente entender sua situação, e falou. No caso da Pfizer, afirmou que firmou contrato mesmo com parecer contrário da Controladoria-Geral da União e da AGU. Desmentiu a Pfizer frontalmente, afirmando que houve resposta à oferta das vacinas entre abril e agosto, prometendo fazer prova documental. Assegurou que o Presidente estava a par de todo processo de negociação. Ao final, pareceu ancorar a decisão do Ministério da Saúde em supostas cláusulas leoninas, mesmo que contratos de idêntico teor tenham sido firmados no mundo inteiro e que o próprio governo brasileiro tenha recentemente firmado contrato com as mesmas cláusulas antes rejeitadas. Pazuello lançou todas negativas às orientações jurídicas que vinha recebendo.


Quando as indagações chegaram em Manaus, a situação ficou ainda mais complicada. Pazuello afirmou que somente no dia 10 de janeiro ficou ciente da crise de oxigênio, embora haja declarações de que tivesse ciência já no dia 7. Prosseguiu afirmando que a crise durou apenas três dias - 13, 14 e 15 de janeiro - no que foi firmemente contraditado pelos senadores amazonenses, que asseguram que as mortes por falta de oxigênio perduraram até o fim do mês. Também ficou mal para o ex-Ministro sua omissão no que toca ao oxigênio oferecido emergencialmente por americanos e venezuelanos.


Na compra menor das vacinas do Consórcio Covax Facility afirmou que a opção pela menor quota foi decisão tomada por conta do preço da vacina e pela falta de garantias na entrega. E quanto à cloroquina, ainda buscando afirmar uma suposta divergência da ciência, buscou respaldar-se em decisões técnicas, declaração com a qual comprometeu vários de seus assessores. E no que toca à Coronavac, atingiu o ridículo: "nunca o Presidente me ordenou não comprar vacinas do Butantan". Dezenas de declarações de Bolsonaro, gravações em redes sociais, notório conhecimento, enfim, provam o contrário. A quem pensa que engana?


O que se destaca em todo depoimento de Pazuello é a busca de preservar o Presidente - embora o Brasil e o mundo conheçam amplamente as posições de Bolsonaro - e a tentativa de se escudar em tecnicismos e em pareceres que supostamente teriam sido produzidos pelas assessorias jurídicas. Mas em momento algum percebe e percebeu que, numa crise da dimensão enfrentada, o gestor público precisa muito mais que apenas seguir pareceres e burocracia. Precisa coragem de tomar decisões, a despeito das opiniões alheias, mesmo superiores, se suas ações são exigência para evitar milhares de mortes.


Ao final, Eduardo Pazuello passou mal, sofreu uma queda de pressão. Atendido pelo Senador Otto Alencar - que é médico - recuperou-se prontamente e estava disposto a continuar seu depoimento. Mas como os trabalhos avançariam por toda noite, preferiu-se transferir seu depoimento para o dia de hoje, a partir das 9:00.


Para um governo que alardeia ser imune à corrupção e que vê esta alegação fazer água por todos os lados - já que avultam notícias de corrupção no Ministério da Saúde, do Meio Ambiente, entre outros - a CPI vem trazendo seu comprometimento irreversível, pela omissão assassina documentada, pelo negacionismo que mata por ações/omissões e maus exemplos, pelos gastos com remédios inadequados e pela absoluta falta de empatia com o povo brasileiro e sua dor.


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