A Curitiba em que viajo
- Hatsuo Fukuda

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A Curitiba em que viajo
Por Hatsuo Fukuda
A Curitiba da Biblioteca Pública na Rua Cândido Lopes, onde me perdia em estantes repletas de aventuras que não vivi, nesta Curitiba eu viajo.

Eu viajo com meu amigo polaco na Praça Eufrásio Correia, que trabalha, trabalha, enquanto eu observo — adolescente sem rumo, sem saber que ali estava o rumo. Nesta Curitiba eu viajo.

Eu viajo pelas pedras da Rua São Francisco. Paro extático diante do seu anel de ferro rugoso, solitário e ignorado. Sei que nele estou amarrado. Meus arreios nele estão e neles pacientemente devo aguardar meu destino. Até quando? Nesta Curitiba eu viajo.

Eu viajo nesta terra cheia de animais selvagens. Tenho olhos e ouvidos atentos, não vá eu me tornar presa de suas garras afiadas, destino inelutável dos caçadores descuidados. Nesta Curitiba eu viajo.

Por um momento me senti em outro mundo, longe de suas casinhas de taipa, pobres e insalubres casinhas. Por um momento me vi em outro mundo, cheio de luzes e cores, com pores de sol deslumbrantes. Nesta Curitiba eu viajo.
Eu viajo por cada uma de suas pedrinhas de petit pavê. Cada uma delas lembra artistas pobres de marré, mas ricos de sonhos. Nesta Curitiba em que piso todos os dias eu viajo.
E viajo, viajo nesta minha terra tão pobre, pobre, que nos maltrata sendo tão rica, rica. Curitiba, Curitiba, em Curitiba eu viajo.

Por um momento, Curitiba, desço a seu chão. Paro, extasiado, e me reconheço no socó solitário do Passeio Público. Como o bacon que me dá a pipoqueira. Não estou sozinho. Nesta Curitiba eu viajo.
Eu viajo na mulher enlouquecida que recita poemas na Rua São Francisco e pede dinheiro para o hotelzinho em que dormirá naquela noite. Ela me assusta. Só tem uma sacola cheia de poemas desconjuntados, ela não tem um abrigo — e eu, abrigado, sou um homem sem teto.
Eu viajo insone por bares no Largo da Ordem e caio do alto de suas torres de cerveja quente. Caio, vertiginoso. Não sou Super-Homem, não sou rápido como um raio, não sou forte como Hércules. Acabo no Passeio Público, observando solitário o despertar do leão. Meu desalento não tem fim, e nesta Curitiba eu viajo.

Eu viajo nesta Curitiba que sitia seus pensadores em uma torrente de carros indiferentes, e lanço nela uma maldição silenciosa: Curitiba ignorante e mesquinha. Em Curitiba eu viajo.
Subo a suave Itupava e paro para descansar. É íngreme e rochosa. Tão distante a Rua Ubaldino, tão sombria. Só me aguarda a angústia e a solidão no Alto da Glória?

Eu viajo em ti, Curitiba, e a suas flores na Rua XV de Novembro que insistem em retornar todos os anos, eu peço: por favor, flor, por favor, flor, permaneça. Nesta Curitiba eu viajo.
Nota do Editor (e autor): Este ensaio dialoga com "Em Busca da Curitiba Perdida", de Dalton Trevisan. A cidade que some sob os paralelepípedos da São Francisco é a mesma que resiste nos dedos do seu cronista. Dalton caminha invisível entre nós, recolhendo os fragmentos do nosso desalento. Sob o fantasma de seus passos, restamos nós, parados diante de novos e solitários socós, tentando decifrar o mistério da Curitiba perdida.

Hatsuo Fukuda, viajante curitibano, leitor de Dalton Trevisan, homenageia o maior dos nossos viajantes.










Peguei carona nessa viagem e cochilei na calmaria do balaço. Quero viajar de novo e prometo compartilhar os sonhos do cochilo. Excelente texto.