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A Curitiba em que viajo

Plano detalhe de uma antiga argola de ferro rústica e oxidada cravada entre as pedras de paralelepípedo e o meio-fio com faixa amarela gasta da Rua São Francisco.

A Curitiba em que viajo


Por Hatsuo Fukuda


A Curitiba da Biblioteca Pública na Rua Cândido Lopes, onde me perdia em estantes repletas de aventuras que não vivi, nesta Curitiba eu viajo.


Escultura de bronze de um homem musculoso, o Semeador, projetando o braço para a frente em gesto de plantar, localizada na Praça Eufrásio Correia em Curitiba.

Eu viajo com meu amigo polaco na Praça Eufrásio Correia, que trabalha, trabalha, enquanto eu observo — adolescente sem rumo, sem saber que ali estava o rumo. Nesta Curitiba eu viajo.


Plano detalhe de uma antiga argola de ferro rústica e oxidada cravada entre as pedras de paralelepípedo e o meio-fio com faixa amarela gasta da Rua São Francisco.

Eu viajo pelas pedras da Rua São Francisco. Paro extático diante do seu anel de ferro rugoso, solitário e ignorado. Sei que nele estou amarrado. Meus arreios nele estão e neles pacientemente devo aguardar meu destino. Até quando? Nesta Curitiba eu viajo.


Escultura de bronze de uma onça-parda espreitando sobre um pedestal de concreto nos arredores ajardinados do Palácio 29 de Março, sede da prefeitura de Curitiba.

Eu viajo nesta terra cheia de animais selvagens. Tenho olhos e ouvidos atentos, não vá eu me tornar presa de suas garras afiadas, destino inelutável dos caçadores descuidados. Nesta Curitiba eu viajo.


Grupo folclórico de imigrantes poloneses vestindo trajes típicos coloridos e bordados, caminhando em desfile nas escadarias do prédio histórico da UFPR, sob uma grande bandeira colorida.

Por um momento me senti em outro mundo, longe de suas casinhas de taipa, pobres e insalubres casinhas. Por um momento me vi em outro mundo, cheio de luzes e cores, com pores de sol deslumbrantes. Nesta Curitiba eu viajo.


Eu viajo por cada uma de suas pedrinhas de petit pavê. Cada uma delas lembra artistas pobres de marré, mas ricos de sonhos. Nesta Curitiba em que piso todos os dias eu viajo.


E viajo, viajo nesta minha terra tão pobre, pobre, que nos maltrata sendo tão rica, rica. Curitiba, Curitiba, em Curitiba eu viajo.


Uma ave socó-dorminhoco cinzenta pousada no chão do Passeio Público, ao lado de uma senhora de máscara sentada em uma cadeira branca de plástico junto a um carrinho de pipoca.

Por um momento, Curitiba, desço a seu chão. Paro, extasiado, e me reconheço no socó solitário do Passeio Público. Como o bacon que me dá a pipoqueira. Não estou sozinho. Nesta Curitiba eu viajo.


Eu viajo na mulher enlouquecida que recita poemas na Rua São Francisco e pede dinheiro para o hotelzinho em que dormirá naquela noite. Ela me assusta. Só tem uma sacola cheia de poemas desconjuntados, ela não tem um abrigo — e eu, abrigado, sou um homem sem teto.


Eu viajo insone por bares no Largo da Ordem e caio do alto de suas torres de cerveja quente. Caio, vertiginoso. Não sou Super-Homem, não sou rápido como um raio, não sou forte como Hércules. Acabo no Passeio Público, observando solitário o despertar do leão. Meu desalento não tem fim, e nesta Curitiba eu viajo.


 Fotografia do dia da inauguração da estátua de bronze do filósofo Confúcio no Largo da China, com autoridades e o prefeito Rafael Greca reunidos na rotatória cercada por carros.

Eu viajo nesta Curitiba que sitia seus pensadores em uma torrente de carros indiferentes, e lanço nela uma maldição silenciosa: Curitiba ignorante e mesquinha. Em Curitiba eu viajo.


Subo a suave Itupava e paro para descansar. É íngreme e rochosa. Tão distante a Rua Ubaldino, tão sombria. Só me aguarda a angústia e a solidão no Alto da Glória?


Fotografia em plano vertical e fechado mostrando as copas densas de cerejeiras cobertas de flores cor-de-rosa, formando um teto vivo sobre o calçadão da Rua XV de Novembro.

Eu viajo em ti, Curitiba, e a suas flores na Rua XV de Novembro que insistem em retornar todos os anos, eu peço: por favor, flor, por favor, flor, permaneça. Nesta Curitiba eu viajo.


Nota do Editor (e autor): Este ensaio dialoga com "Em Busca da Curitiba Perdida", de Dalton Trevisan. A cidade que some sob os paralelepípedos da São Francisco é a mesma que resiste nos dedos do seu cronista. Dalton caminha invisível entre nós, recolhendo os fragmentos do nosso desalento. Sob o fantasma de seus passos, restamos nós, parados diante de novos e solitários socós, tentando decifrar o mistério da Curitiba perdida.


Fotografia em plano vertical e fechado mostrando as copas densas de cerejeiras cobertas de flores cor-de-rosa, formando um teto vivo sobre o calçadão da Rua XV de Novembro.

Hatsuo Fukuda, viajante curitibano, leitor de Dalton Trevisan, homenageia o maior dos nossos viajantes.

1 comentário


Caio Brandao
há 2 dias

Peguei carona nessa viagem e cochilei na calmaria do balaço. Quero viajar de novo e prometo compartilhar os sonhos do cochilo. Excelente texto.

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