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O Conto Inédito de Alan Turing: Leia a tradução de «Pryce’s Buoy»

Retrato em preto e branco do matemático inglês Alan Turing em 1951, autor do conto inédito Pryce's Buoy.

O Conto Inédito de Alan Turing: Leia a tradução de «Pryce’s Buoy»

NOTA DO EDITOR: Luis Carlos Eiras traz aos leitores do blog a tradução de um conto inacabado de Alan Turing, o cientista inglês que coordenou o desvendamento dos códigos de guerra alemães, na 2.ª Guerra Mundial, o famoso Enigma. A descoberta dos códigos foi um dos segredos mais bem guardados durante a guerra, e contribuiu decisivamente para a vitória aliada (sem hipérboles). O filme O Jogo da Imitação, baseado em sua vida, com Benedict Cumberbatch, recebeu 8 indicações ao Oscar, ganhando o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado. A onipresente necessidade dramática, no filme, mostrou Turing como um homossexual atormentado em uma Inglaterra repressiva e atrasada. O conto, inédito em português, mostra outra realidade: um homem em paz com sua sexualidade, jogando os jogos habituais de homens solteiros e solitários. Sem culpa. Boa leitura.  

Pryce’s Buoy

Um conto de Alan Turing

  

Tradução de Luís Carlos Silva Eiras

  

[Página 1] Alec Pryce estava ficando um tanto exausto com suas compras de Natal. Seu método era um pouco não convencional. Ele andava pelas lojas de Londres ou Manchester até ver algo que lhe agradasse e, em seguida, pensava em qual de seus amigos e parentes ficaria feliz com aquilo. Era uma espécie de alegoria de seu método de trabalho (embora ele não soubesse disso), que dependia de esperar pela inspiração.  


A aplicação desse método às compras de Natal levava a uma variedade de emoções tão grande quanto quando o aplicava ao trabalho. Longos períodos de semidesespero vagando pelas lojas e, a cada meia hora mais ou menos, de forma repentina, algo saltava à vista daquele cenário miserável. Naquela manhã, Alec já havia passado umas boas duas horas nisso. Tinha encontrado uma fruteira de madeira que seria perfeita para a Sra. Bailey. Se ela...  


[Página 2] certamente apreciaria. Alec também tinha comprado um cobertor elétrico para sua mãe, que sofria de má circulação. É verdade que ele teve de pagar; mas ela com certeza precisaria dele, e nunca pensaria em comprar um para si mesma. Alec começou a pensar de forma mais neutra... Mas agora era hora do almoço, e Alec estava caminhando em direção à Universidade, mas procurando por um restaurante razoavelmente bom. Alec havia trabalhado bastante nas últimas duas ou três semanas, e achava que merecia uma pausa.  


Fotografia das seis páginas do manuscrito original do conto inacabado de Alan Turing com anotações e rasuras feitas à mão.
Manuscrito original do conto de Alan Turing, traduzido por Luis Carlos Eiras.

[Página 3] seu trabalho era bastante sólido, ou tinha sido quando ele era mais jovem. Este último artigo era realmente muito bom: melhor do que qualquer coisa que ele fizera desde seus vinte e poucos anos, quando concebera a ideia que agora é tão comumente conhecida como a "boia de Pryce" [Pryce's buoy]. Alec sempre sentia um brilho de orgulho quando essa frase era usada. O duplo sentido um tanto óbvio também lhe agradava. Ele sempre gostou de exibir sua homossexualidade, e em companhias adequadas Alec fingia que a palavra se escrevia com 'o' [boy - garoto]. Já fazia um bom tempo desde que ele 'tinha tido' alguém, de fato, não desde que conhecera um soldado em Paris no verão passado. Agora que seu artigo estava terminado, ele poderia, com justiça, considerar que havia ganhado a companhia de outro homossexual, e sabia onde poderia arranjar alguém que fosse adequado.  


Ron Miller estava nitidamente entediado. Estava desempregado há dois meses e sem dinheiro algum. Aquele pequeno serviço em que ele havia ajudado o Ernie... Tudo o que precisou fazer foi manter o vigia noturno conversando por alguns minutos enquanto os outros faziam o serviço.  


[Página 4] Mas ainda assim não era algo realmente seguro. Ser interrogado pela polícia era muito desconfortável. Ron estava com fome e um tanto com frio no clima de dezembro. Se ele deixasse alguém levá-lo debaixo dos arcos por dez minutos, poderia ganhar cinco xelins. Os homens não pareciam mais tão a fim disso como há um ano, antes do acidente. É claro que não era a mesma coisa que estar com uma garota, nada a ver, mas se o sujeito não fosse muito velho, não seria desagradável.  


Ernie tinha dito como os caras dele faziam amor com ele como se ele fosse uma garota, e diziam coisas desse tipo! Mas aqueles eram sujeitos da alta. Ernie, com seu jeitinho afeminado e sua carinha bonita de boneca, conseguia pegá-los em um piscar de olhos. Acredito que ele até gostava muito disso, o coitado daquele porquezinho. Costumava se gabar de que conseguia fazer com que eles fizessem qualquer coisa assim que o encontravam! Caras que estavam a fim e costumavam usar o lugar tinham se mantido bem distantes da última vez que ele passou por ali. Perguntava-se se ele valeria o incômodo, embora o Ernie pudesse torcer o nariz. Aqui estava ele, voltando de novo. Desta vez, Ron se afastou, acompanhou-o em sua caminhada e apressou-se. Não ficaria surpreso, pensou Ron.  


[Página 5] Sem dúvida zangado se o que ele desejava não acontecesse. Mas não parecia querer ir embora. Melhor dar a ele um pouco de encorajamento se passasse por ali novamente. Ele estava vindo também. Ron capturou o olhar de Alec e lhe deu um sorriso tímido. Foi o suficiente, porém. Alec se aproximou do banco do parque e Ron abriu espaço para ele, que se sentou. Não parecia estar muito bem vestido. Que sobretudo! Por que ele não estava curtindo nada? Poderia estar enganado? Não, ele estava dando uma olhada furtiva. Só um pouco tímido, ou possivelmente, se ele não tomasse cuidado, nada aconteceria.  


"Tem um cigarro?" ele perguntou. Por acaso, Alec tinha um cigarro. Ele não fumava, pois não tinha interesse suficiente para isso, e, de qualquer forma, não lhe caía muito bem. Mas ele sabia que, nessa situação, precisaria de alguns cigarros.  


"Vai fazer alguma coisa esta tarde?" Alec perguntou de repente. Era uma abordagem padrão. Um pouco de certeza brusca, mas ele não tinha pensado em nada melhor: de todo modo, a rispidez tendia a evitar mal-entendidos. Esse sujeito serviria muito bem. Mendigos não podem escolher. Ele estava balançando a cabeça. "Venha almoçar comigo."  

"Por mim, tudo bem", disse Ron. Ele não era chegado a jeitos esnobes de falar. Daria na mesma, de qualquer maneira. Cama é cama, não importa o jeito que você entra nela. Alec pensava o contrário, e ficou em silêncio por alguns minutos enquanto se dirigiam para o Gorenkoff's. Teria de seguir em frente com o almoço, pelo menos agora. Ron tinha muita clareza do que se tratava.  


[Página 6] Ele não tinha certeza se faria alguma coisa. Talvez conseguisse tirar algum proveito disso. Parecia ser muito, afinal. Dava para notar pela maneira como ele falava. Soava um pouco como aqueles caras do teatro que tentavam se aproximar dele. Ele não o prenderia por muito tempo, porém. Não havia dinheiro ali. Era legal ter a porta aberta para você por um porteiro, e passar primeiro como uma garota.  


No andar de cima, Alec estava tirando o sobretudo; por baixo, vestia um paletó esporte velho e calças de lã de penteado um tanto amarrotadas. Ele não fazia questão de usar terno; preferia o 'uniforme de graduando', que escondia sua meia-idade e o encorajava a acreditar que ainda era um jovem atraente. Esse mesmo desenvolvimento interrompido também se manifestava em seu trabalho. Todos os homens, por mais bem ajustados que estivessem, sentiam os padrões sexuais de proteção como substitutos para quem Alec tinha de exibir inteiramente seus poderes intelectuais.  


O 'uniforme de graduando' não surtia efeito na aparência de Ron. Um terno igualmente gasto certamente teria - Em todo caso, sua atenção estava estritamente concentrada no restaurante Gorenkoff's e em sua decoração. Alec estava se divertindo a valer agora. Geralmente, quando ia a um restaurante, ele se sentia constrangido, como se devesse estar em outro lugar, ou como se não estivesse fazendo a coisa certa. Ron não iria...  



SERVIÇO: Caso se interesse pela história da descoberta do manuscrito, leia o artigo no New York Times. Sobre o cientista, leia o artigo na Wikipedia, aqui. Ou leia a biografia Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges, um bestseller do New York Times, disponível na Amazon Books. O filme O Jogo da Imitação está na Netflix e em outros streamings. Cumberbatch e Keira Knightley sempre valem uma viagem. Leia também O Teste de Turing, um romance de Luis Carlos Eiras, disponível na Amazon Books. 



Capa do livro O teste de Turing, de Luis Carlos  Eiras.

Sobre Luis Carlos Eiras

Nascido em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Seus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.

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