DIA D, O FILME: STEVEN SPIELBERG EM GRANDE FORMA
- Hatsuo Fukuda

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O FILME DIA D: STEVEN SPIELBERG EM GRANDE FORMA
Hatsuo Fukuda
Dia D (Disclosure Day), o novo filme de Steven Spielberg, que está em cartaz no mundo inteiro, retoma um tema que lhe é caro: os ETs, que ele havia abordado em Encontros Imediatos de 3.º Grau, ET, e no quarto episódio da saga Indiana Jones, O Reino da Caveira de Cristal. Para os nostálgicos, são quase cinquenta anos desde o lançamento de Encontros Imediatos, que deslumbrou o mundo na época.
O início do filme é puro Spielberg e o espectador desavisado imaginaria que teria entrado na sala errada: um espetáculo de luta livre se desenrola na tela e nos deixa pensando o que seria um MMA filmado por ele. É cinema na veia, e lembra as melhores cenas iniciais de seus grandes filmes.
Na aparência, é um filme banal: alguém disse que é uma mistura de Inimigo de Estado (de Tony Scott) com Encontros Imediatos de Terceiro Grau; e não está enganado. Mas outras referências estão presentes. Os fãs da série Arquivo X encontrarão o tema recorrente da presença de seres alienígenas e as operações de acobertamento desta realidade; as cenas de perseguição lembram cenas de outros filmes de Spielberg; enfim, aparentemente, uma reciclagem de outros filmes.
Mas trata-se de Steven Spielberg. Não é um produtor de filmes B com um orçamento irrisório, roteirista sem idéias, atores broncos e prazos impossíveis. Portanto, prepare-se para uma grande aventura.

Emily Blunt é Margaret, uma moça do tempo na TV em Kansas City, uma moça agitada, imprevisível e ambiciosa (quer deixar de ser a moça do tempo e se tornar âncora do noticiário); ou seja, Emily Blunt interpreta o papel preferido das atrizes de hoje: a garota independente, ambiciosa e lutadora, aquela que luta com as armas das garotas (fight like a girl).
Um pássaro vermelho, um cardeal, aparece em seu café da manhã. A partir desse momento, Margaret passa a falar todas as línguas e conhecer os pensamentos de todas as pessoas com quem se encontra. No filme, ela falará coreano, russo e uma língua recheado de cliques e sons guturais, uma língua extraterrestre. Mas principalmente, ela passará a entender todas as pessoas com quem se encontra, um superpoder como nenhum outro, que lhe permitirá vencer a violência e a incompreensão que se abatem sobre ela com a mera empatia humana.
Em outra linha paralela, Josh O’Connor é Daniel, um nerd que trabalhava em uma corporação secreta, Wardex, da qual havia roubado arquivos secretos e que pretende divulgar ao mundo. Daniel está sendo perseguido pelos sinistros e implacáveis agentes da Wardex, esta dirigida pelo vilão Noah, interpretado por Colin Firth.
Enfim, um casal de heróis perseguidos por um vilão de história em quadrinhos, com direito a eletrizantes corridas de carro e uma cena com um trem em movimento. Um filme banal?
A indústria cinematográfica, como se sabe, não vive da originalidade. No cinema o público procura entretenimento fácil e de imediato acesso. Elucubrações intelectuais ficarão restritas a um público restrito em salas secretas.
Spielberg, que é um nerd, conhece como ninguém a tradição cinematográfica – Indiana Jones é fruto deste conhecimento, a filmografia B da Republic revisitada e reciclada – portanto seus filmes não serão estranhos à platéia. Cenas de perseguição fazem parte da antologia do cinema americano e Spielberg, em sua estréia, construiu um filme inteiro sobre o tema, Encurralado, que se tornou um clássico. E foi feito para a televisão, repositório, na época (1971), da antiga cinematografia B. As cenas de perseguição não são banais, são clássicas, revisitadas pela câmara esperta (espertíssima) de um cineasta que conhece seu ofício e seu público como ninguém. Prepare-se para perder o fôlego nestas cenas. Prepare-se para o passeio com as câmeras spielberguianas.
Em um filme comum, o tema “heróis perseguidos por um vilão de uma corporação maligna”, seria motivo de tédio; o entretenimento morno de uma noite de sábado. Em se tratando de Steven Spielberg, o embrulho revela um tesouro mais precioso e emocionante. Alguns virão nele um drama do retorno ao lar – Ulisses em busca da distante Ítaca – e esta é uma chave interessante e não deve ser descartada. O filme trata também do retorno ao lar perdido no labirinto da memória, para ambos os heróis, Emily Blunt e Josh O’Connor, mas também para o vilão Colin Firth.
Steven Spielberg, em entrevista ao Late Show de Stephen Colbert, mostra a sua chave para o filme: empatia. “Empatia é o maior dos superpoderes”, diz. No filme, o mundo está envolvido com notícias sobre uma possível 3.ª Guerra Mundial. Nossos heróis correm para contar ao mundo da existência de uma outra grande notícia, a existência de aliens e seu acobertamento pelo governo. Mas nesta, há uma outra grande história a ser contada, e ela colocará toda nossa humanidade em cheque.
Steven Spielberg, o grande contador de histórias, levará emoção aos espectadores até o último segundo. Os dez minutos finais do filme, que lembram Encontros Imediatos de 3.º Grau, assemelha-se a uma missa solene em que a verdade é revelada com emoção. Esta verdade se resume a uma única palavra, e à maneira de Cidadão Kane, Steven Spielberg pronuncia seu Rosebud. Prestem atenção, muita atenção, trata-se de uma palavra sagrada na liturgia do autor.
Dia D (Disclosure Day) é um Spielberg em grande forma, e pode ser comparado a outros grandes filmes dele: Contatos Imediatos de 3.º Grau, ET, Indiana Jones, Tubarão e Jurassic Park. Vale sair de casa para assistir. Leve a família. A magia do cinema está de volta.

Hatsuo Fukuda, cinéfilo de subúrbio, foi assistir Disclosure Day como deve ser: no cinema.










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