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ENTERRE O SEU ARMÁRIO, MAS NÃO COMA DA BANANEIRA

há 11 minutos
3 min de leitura
Ilustração em estilo de banda desenhada dividida em cenas narrativas: no topo, memórias de infância com oração e família; ao centro, um homem enterra um armário de madeira junto a uma bananeira com cachos e nabos que brotam da terra; em baixo, o homem guarda os nabos na gaveta de um novo armário e tranca-o com uma chave.

ENTERRE O SEU ARMÁRIO, MAS NÃO COMA DA BANANEIRA


Por Caio Brandão


Hermenegildo era uma pessoa comum. Educado à moda antiga, aprendera desde cedo o peso e o encanto da cortesia: beijava a mão dos avós ao chegar, cumprimentava as visitas com a compostura de um homenzinho e se retirava em silêncio antes que a conversa dos adultos perdesse o decoro. A disciplina continuava nos portões do colégio marista. Às sextas-feiras, entre o cheiro de água sanitária do piso e o balanço do terço dedilhado nas aulas de religião, acumulavam-se as partículas de uma fé que recebia pronta, selada pelas missas solenes e pela hóstia — símbolo de um perdão gracioso, o perdão pelo perdão, concedido à sombra de arrependimentos insinceros. Um mergulho na impunidade abençoada.


Em casa, a geografia moral era outra, ainda que perfeitamente pacífica. De um lado, a mãe espiritualista mantinha biblioteca avantajada, recheada de tomos encadernados sobre almas, luzes e vidas passadas; do outro, o pai ateu, primoroso no trato profissional, aplicava-se com rigor quase religioso ao deguste de bons e acessíveis destilados, num copo de fundo grosso, sem jamais perder a postura. Na rua, era um rapaz comum, com brigas, namoros, festas, desavenças e tudo o mais que emoldura o crescer e suas muitas nuances.


O jovem equilibrava-se nessa encruzilhada sem alarde, suspenso entre os desejos do ser e as ambições do ter. Tudo muito opaco para quem, em breve, teria de se sujeitar a um teste vocacional — sugestão de abelhudos da ocasião, levada rigorosamente a sério pelos familiares diretos.


Foi por essa época, contudo, que o confessionário católico começou a falhar. A ideia de descarregar na penumbra do sacerdote as contradições da puberdade, os espasmos da transição para a maturidade e o peso sutil das noções do certo e do errado passou a parecer-lhe uma ingenuidade inútil. O perdão alheio já não limpava a casa.


Em vez de sussurrar suas contradições através da treliça do confessionário, encontrou uma solução muito mais pragmática.


O armário não era grande e tinha poucas gavetas. Poucas, mas suficientes para entulhar e comprimir pensamentos dúbios e dignos de esquecimento. Um remorso aqui, um arrependimento acolá, um desconforto sufocado, um questionamento sem resposta, e por aí afora. Formidável armário: bonito por fora, lustroso e discreto no canto do quarto, mas profundamente temerário por dentro.


O teste vocacional ficou para trás, esquecido, mas fora do armário. Ele seguiu, seguindo, submisso ao tempo, que o conduziu à maturidade, à vida profissional, ao casamento, aos filhos e ao armário sempre disponível. Bendito armário dos feitos não ditos e sem fotografia, das lembranças não lembradas, cuidadosamente guardadas no silêncio das gavetas.


Muitos arquivos e poucas gavetas. A diarista passou a reclamar de um cheiro estranho num dos cômodos da casa. Ora cheiro de fumo de rolo, ora de borracha queimada, ora de fumaça de foguete de festa de São João. Agachava-se, limpava por baixo dos móveis e até queimava incenso para ver se resolvia o problema. Suspeitava de trabalho de macumba de algum desafeto invejoso e dizia ser melhor recorrer a Cosme e Damião ou a São Judas Tadeu.


Ah, se ela soubesse a verdadeira natureza do armário! Ou se afastaria em sobressalto ou, quem sabe, numa sabedoria prática, proporia compartilhar o espaço numa espécie de permuta, deixando de cobrar pelo trabalho em troca de uma gavetinha para descarregar as próprias assombrações.


O tempo e a idade se encarregaram de minar os espaços do armário, que já eram acanhados. Com a lotação, foram surgindo novos odores, mas nenhum propriamente nauseabundo. A diarista, imprudente e espaçosa, sugeriu abrir as gavetas para limpar por dentro. Hermenegildo quase desmaiou. A simples menção foi suficiente para que o peso do armário lhe recaísse de imediato sobre os ombros, prostrando-o num profundo constrangimento.


Melhor enterrar o armário, pensou. De repente, quem sabe na sua ausência, alguém resolveria abrir aquelas gavetas. Não encontraria valores, mas choro e velas materializados, matéria-prima para as mais maldosas interpretações. E assim fez Hermenegildo, num feriado de casa vazia, num canto do terreiro.


O tempo passou. Sol e chuva se alternaram sobre o armário e, quase por magia, nasceu no local uma bananeira. Cresceu viçosa e deu cacho. A família, por sorte, não gostava de bananas — todas grandes e viçosas. Pelo sim, pelo não, melhor não comer do cacho da bananeira do armário.


Hermenegildo cortou o cacho e o enterrou próximo ao defunto móvel, agora em decomposição. Passou o tempo, a bananeira morreu e, do cacho enterrado, nasceram nabos.


Hermenegildo surtou.


Saiu às pressas e foi a uma loja de usados. Comprou outro armário, um pouco maior e estiloso. Embalou os nabos, colocou-os na primeira gaveta, deu duas voltas na chave, abriu a janela e, ofegante, jogou a chave fora.


Respirou aliviado.


Foto colorida do autor, Caio Brandão, de óculos escuros.

Caio Brandão, jornalista mineiro, vai abrir uma loja de móveis usados.

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