Envelheça, mas não perca o glamour

Envelheça, mas não perca o glamour
Caio Brandão
Alcebíades estava próximo dos oitenta anos, mas mantinha a elegância. Vestia-se bem, mas com simplicidade, e não usava joias nem adereços caros, do tipo relógio ostensivo e correntes. Tudo muito normal. Sempre quis usar sapato branco e até chegou a comprar um par, mas usou-o apenas uma vez. O sapato o transportou para outro tipo de vida que não era a sua, pensou — mas tratava-se apenas de mero preconceito.
Terno já não usava mais, até porque a informalidade do seu dia a dia não pedia tal cerimônia. O jeans foi incorporado ao seu visual, mas nunca desbotado e com rasgos de moda, e sempre com cintura alta. Cabelos bem cortados, em que pese preferi-los com os fios mais longos, a permitir-lhe esconder um pouco da calvície. Dentes rigorosamente bem cuidados e o hálito sob controle. Um cara apresentável, ele se achava — e talvez tivesse razão.
A postura, sempre que possível, ereta — nada de velho corcunda. Sapatos de amarrar, jamais, para não ter que ficar discutindo com os cadarços e dobrando a espinha rebelde.
A barriga, resistente a todos os reclamos e furtiva no aproveitamento de proteínas e carboidratos, é uma traiçoeira. Ela conspira contra a sustentação das calças e clama por suspensórios, uma solução demodé, mas razoável.
Alcebíades gosta de si mesmo e preza a própria companhia. Mantém poucos amigos — os que sobraram e os que estão a caminho — e trata-os com gentileza. Não fala palavrões, em que pese admiti-los conforme a ocasião, e nem valida gestos abruptos e fora de contexto.
Bebe educadamente, com estilo, vinho de preferência — deixou de lado o uísque, velho companheiro, por conveniência etária —, mas não se acanha em insultar o fígado guerreiro, herói que ainda sustenta em bom nível batalhas etílicas justificáveis.
Sabe a hora de chegar e não desdenha da hora de ir embora. É pontual, o que reputa como respeito ao anfitrião e demonstra educação de berço. Com o copo não ultrapassa limites e controla o verbo, segura adjetivos exagerados e, na dúvida, para ganhar tempo, sempre se apoia nas preposições.
Não convive com quem fala de boca cheia — e ainda cospe nos salgadinhos — e controla os ímpetos de subtrair da bandeja os seus preferidos. Modera o apetite, escuta primeiro e fala depois. Não requinta o linguajar com palavras difíceis, mas também pode usá-las para, se necessário, chamar a atenção. Escuta o outro sem interrompê-lo, mas não conversa com bêbado. Pede licença sem falar que vai ao banheiro — e muito menos anunciar que vai fazer xixi — e discretamente vai embora. Conversar com bêbado é dar milho a bode e, se a criatura for mulher, então, um Isordil sublingual lhe cai bem, porque acha ultrajante.
Alcebíades não costuma ceder a convites de casamento, mas gosta de ser convidado e faz questão de mandar presente. Convite para padrinho de batismo, nem pensar: declara-se ateu — deslavada mentira — e resolve a questão pelo pragmatismo. Gosta mesmo é de um petit comité, pouca gente e conversa inteligente. E que não esteja presente nenhuma personalidade notória e cheia de vaidades, pois rouba a cena, fala sozinha e não escuta ninguém.
Dos que ostentam cultura no convívio social, afasta-se, porque, segundo ele, são uns chatos. A cultura deve aflorar quando solicitada, ou permear atividades profissionais e o trato com matérias peculiares. No cotidiano, a cultura não é protagonista, mas coadjuvante.
Alcebíades lidou com poderosos e os tratou com respeito, sem abdicar da própria dignidade. Diante da impáfia e da arrogância imaginava, de pronto, o seu interlocutor sentado na privada, defecando com esforço e fazendo caretas com sopros exagerados. Trazida para o rés do chão, a autoridade, diante dele, ganhava os contornos de ser humano como qualquer outro.
Alcebíades tenta ser leve, mas às vezes escorrega, é natural. Pisa na bola vez por outra, mas não pisa no tomate, para não espalhar. Não anda com braguilha aberta e nem usa sapato sem meia. Se espirrar, não faz alarde e nem espirra para dentro, para não enfartar.
Ontem Alcebíades foi a uma reunião importante, com figuras de proa e temas instigantes. Chegou manso, sem desfilar, procurou o assento com o seu nome e postou-se ereto depois de cumprimentar os presentes com discrição. Perguntado sobre café e água, aquiesceu. Num lapso, fruto de exageros na noite anterior, foi compelido a um pum, um punzinho discreto, daqueles frios, que não têm cheiro. Esticou o braço e com a mão direita pegou o copo d'água, enquanto levantava uma das nádegas para abrir caminho para o flato infantil, que se anunciava discreto e inofensivo. Constrangido, mas sem denotar esforço, liberou o pum — e cagou na calça.
Ninguém é perfeito.

Caio Brandão, cronista mineiro e observador dos costumes, é um fino conhecedor das boas maneiras — um discípulo fiel de Marcelino de Carvalho.











Como sempre,um maravilhoso comentário. Digno de quem postou!