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A Velha e a Nova Gazeta do Povo (2/3): Guilherme Cunha Pereira e a onda no mar

há 5 horas
9 min de leitura
Estudantes da Faculdade de Direito da UFPR reunidos nas escadarias da Praça Santos Andrade nos anos 1980, incluindo Marilena Winter e o autor.
A turma de Direito da UFPR nos anos 80, nas escadarias da Santos Andrade: na primeira fila, à esquerda (de camiseta preta e cabelos longos), a futura presidente da OAB/PR, Marilena Winter; na segunda fileira, com as mãos no queixo, Marisa Zandonai. André Luiz Nunes, o único negro na turma. Ao centro da efervescência juvenil daquela década, Guilherme Cunha Pereira trilhava o caminho austero da prelazia.

Parte II: O Aprendiz busca o seu caminho


Por Hatsuo Fukuda


Os anos 80 do século passado foram anos de ebulição. Novos ventos sopravam no país, e uma canção de Lulu Santos e Nelson Motta dava o tom do tempo: Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará / A vida vem em ondas, como um mar…


O mar havia refluído e agora retornava em ressaca, abalando estruturas cristalizadas da sociedade brasileira: nos costumes, nas artes, nas relações afetivas e na política. A sensualidade deixava de ser apenas insinuada para invadir o cotidiano da classe média urbana. Rita Lee cantava despudoradamente nos rádios: Me vira de ponta-cabeça / Me faz de gato e sapato / Me deixa de quatro no ato / Me enche de amor…


A vetusta Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade, recebia um fluxo contínuo de jovens que assimilavam com naturalidade esses novos ares. A sisudez das Arcadas cedia gradativamente à descontração, para desconforto dos velhos mestres conservadores. O professor René Dotti espantava-se com a cerveja vendida na cantina de João Fernandes, figura sempre amigável aos estudantes. Não era o ambiente adequado para libações, advertia o professor aos alunos — anos mais tarde, o álcool seria formalmente banido das cantinas da universidade.


Entre os contemporâneos daquela geração despontavam figuras singulares. Vera Karam de Chueiry, jovem inquieta, flertou com o jornalismo — chegou a trabalhar na Folha de S.Paulo —, mas a vocação jurídica falou mais alto. Fez o doutorado na New York University, onde estudou com Ronald Dworkin, seguiu a carreira acadêmica e décadas depois tornou-se a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Direito da UFPR, com direito a placa de bronze nas Arcadas.


Arthur Virmond de Lacerda Neto circulava pelas Arcadas, um jovem autoconfiante e conversador, entregando exemplares de seu opúsculo positivista “Aquilo em que creio”, um anacronismo entre jovens atraídos pelo direito alternativo e as modas socializantes. Arthur, seguindo as pegadas de seu mentor intelectual, Davi Carneiro, tornar-se-ia no futuro um incansável pesquisador da história do Paraná, com uma cornucópia de livros publicados.


A bem-humorada Marilena Winter despontaria no mesmo ambiente, vindo a ser, no futuro, a primeira mulher a presidir a OAB do Paraná. O Centro Acadêmico Hugo Simas (CAHS), baluarte das lutas estudantis, quebrava um tabu histórico ao eleger seu primeiro presidente negro, André Luiz Nunes, mais tarde também conselheiro da Ordem.


Outro desses jovens, Carlos Augusto Martinelli Vieira da Costa, o popular Talo — hoje respeitável procurador do município de Curitiba e conselheiro da OAB —, era um rapaz alto, magro, de rosto ossudo, olhos verdes e cabelos despenteados, que fazia sucesso entre as garotas. Em um Encontro Nacional de Estudantes de Direito no Rio de Janeiro, em meio a uma inflamada e etílica plenária noturna, Talo justificou o apelido diante de colegas estarrecidos e gargalhadas gerais, corporificando o velho rifão de “matar a cobra e mostrar o pau”.


Marisa Zandonai, a popular Ziza, talvez fosse a mais emblemática das jovens daqueles tempos. No primeiro dia de aula, viu um garoto por quem se apaixonou imediatamente. Chegando em casa, anunciou: “Hoje conheci o homem com quem vou me casar”. Numa blitzkrieg fulminante, em poucos meses ela seduziu o jovem surfista de olhos verdes, casou e engravidou (não se sabe a ordem dos fatores). Um bebê passou a frequentar as aulas da Faculdade, aliviando a solenidade que se espera do augusto recinto.


Ziza, a carismática estudante, no futuro seria Procuradora Geral do Estado e coordenaria os trabalhos de uma constelação de juristas, como Luiz Edson Fachin, Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, Manoel Caetano Ferreira Filho, Carlos Frederico Marés Filho, Celso Ludwig, todos professores da UFPR, alguns deles ex-mestres de Marisa Zandonai.


Nesse ambiente efervescente e ruidoso, circulava com passo sóbrio e postura compenetrada o jovem Guilherme Cunha Pereira. Tinha como parceiro de estudos o futuro embaixador Celso de Tarso Pereira, filho do ministro do STJ Milton Luiz Pereira (sem parentesco com a família do jornal). Todos guardam a lembrança do rigor de ambos: não eram apenas dedicados aos alfarrábios jurídicos, mas possuíam método. “Eles sabiam estudar”, recorda um contemporâneo de turma.


Já formalmente engajado nas atividades da prelazia do Opus Dei, Guilherme convidou Talo, Arthur e outros colegas de faculdade para conhecerem a sede da instituição. Jovens curiosos, aceitaram o convite. Mas a atmosfera austera, silenciosa e regrada da Fraternidade não dialogava com a volúpia juvenil dos anos 80, com os hormônios em ebulição daquela geração e, muito menos, com a afirmação e independência das mulheres que ocupavam os bancos acadêmicos.


Nenhum dos convidados retornou. Vera Karam, Marisa Zandonai e Marilena Winter, até onde se sabe, jamais receberiam tal convite — a instituição reservava papeis bem distintos às mulheres. Guilherme prosseguiria sua jornada pessoal e espiritual de forma solitária e disciplinada, graduando-se com louvor como um dos alunos mais brilhantes de sua turma.


O abismo entre realidades conflitantes não poderia ser maior. Enquanto seus pares mergulhavam no mundo secular e na abertura dos costumes, Guilherme forjava sua consciência em uma tradição religiosa severa e exigente.


Caminho: O santuário no trabalho e a unidade entre fé e ação


Josemaria Escrivá havia fundado o Opus Dei em 1928, concebido em oposição a um século dilacerado entre o materialismo hedonista e consumista ocidental e o materialismo coletivista ateu. Frente a esse mundo, Escrivá levantou o estandarte da ortodoxia católica, em moldes que lembravam outro combatente clerical, Inácio de Loyola, em época de crise semelhante da Igreja. Mas Escrivá, atuando em uma era secularizada, inovou no método: em vez de erguer muralhas monásticas, preferiu formar apóstolos leigos — que hoje compõem a esmagadora maioria dos membros da instituição —, homens e mulheres chamados a viver e operar dentro do próprio mundo profano.



Capa do livro Caminho, de Josemaria Escrivá, com pintura sacra da entrada de Jesus em Jerusalém montado num burrico e título em letras amarelas.
A capa de "Caminho", de Josemaria Escrivá: a pregação de unidade entre fé e ação no mundo leigo que moldou a cosmovisão do jovem herdeiro da Gazeta.

Fê-lo de forma programática no célebre livro Caminho, lançado em linguagem cortante e direta, conclamando à militância da fé no cotidiano:


Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto. Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração.”  

A filiação doutrinária do Opus Dei está impecavelmente alinhada à tradição da Igreja, reportando-se aos seus grandes mestres, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, e por via deles, ao pensamento filosófico clássico de Platão e Aristóteles. Mas o seu apelo mais revolucionário e sedutor repousa na remissão evangélica que Escrivá faz ao episódio de Marta e Maria (Lucas, 10, 38-42).


Ao longo dos séculos, o cristianismo debateu-se na tradicional dicotomia entre a contemplação e o labor, entre a recolhida oração de Maria e o afã prático de Marta nos afazeres da casa. Essa divisão espelhava a clássica ansiedade humana pela integridade da vida. Escrivá operou a unificação desse pensamento: para o fundador da Obra, Marta e Maria deveriam habitar a mesma pessoa. Não haveria cisão entre fé e ação, entre o mundo terreno e o divino.


Ao propor a leigos inseridos no mundo uma existência em que tudo — do gesto comezinho de lavar a louça ao desempenho na vida profissional e acadêmica — se torna motivo de comunhão com Deus e apostolado, Escrivá prometia resgatar a perdida integridade do ser humano. Era uma resposta poderosa a um mundo desencantado e fragmentado, onde as pessoas viviam dilaceradas pelas exigências conflitantes do trabalho, da família e da política.


Embora a instituição afirme que não possui ideologia política e conceda formal liberdade de consciência temporal a seus membros, na prática essa teologia da ação recruta prioritariamente nas elites socioeconômicas e intelectuais: na alta burguesia, nas faculdades de Direito, na cúpula empresarial e na magistratura. O resultado concreto é a formação de quadros rigorosos, vocacionados à liderança e estritamente comprometidos com a preservação moral e a ordem tradicional.


Dan Brown, em seu best seller Código da Vinci – que depois se transformou num filme, com Tom Hanks -, amplificou uma visão que se murmurava no mundo: a Opus Dei é uma sociedade secreta, com objetivo de dominar o mundo, que utiliza como instrumentos fiéis fanatizados e autoflagelantes. As grandes editoras e produtoras de Hollywood sabem que a clientela só compra historinhas simples, em que o bem se digladia com o mal, mocinhos contra bandidos. A realidade é bem outra. A sociedade é tão secreta e misteriosa quanto foram antes a Sociedade de Jesus, de Inácio de Loyola, e o Partido Bolchevique, de Vladimir Ilitch Lenin. Estas organizações recrutaram homens decididos a abandonar o mundo por seus ideais revolucionários, homens que se transformariam em uma vanguarda transformadora. O elevado grau de exigência moral e intelectual desses militantes é terreno fértil para sussurros dos tiozinhos do zap e filmes para as multidões.  


Esse era o universo mental, espiritual e existencial em que Guilherme Cunha Pereira se formara. Ao assumir os negócios da família na virada dos anos 90 e 2000, o jovem herdeiro trazia consigo essa disciplina intransigente, mas encontrou na Gazeta do Povo uma redação de feitio secular, majoritariamente habitada por jornalistas de esquerda e alinhada à cultura liberal da época. Em sua primeira fase, Guilherme acomodou as diferenças e operou uma modernização jornalística sem precedentes no Estado.


A primeira virada: Caderno G e a exposição das oligarquias


Deixando temporariamente de lado a dedicação integral à cátedra acadêmica, Guilherme assumiu o posto de Publisher e promoveu uma mudança de 180 graus na rotina da Praça Carlos Gomes, varrendo os velhos vícios da acomodação provinciana herdada do pai.


O primeiro sinal visível dessa modernização foi a criação do Caderno G, capitaneado por sua irmã, Ana Amélia Filizola. O novo suplemento cultural trouxe um sopro de cosmopolitismo e arejamento a uma sociedade habituada a ver a cultura tratada apenas sob a ótica social e paroquial.


Outro foi a criação do jornal popular Primeira Hora, dirigida pelo genial Francisco Camargo (“Pancho”), com uma equipe jovem, a maioria recrutada em São Paulo. As divertidas manchetes criadas por Camargo fizeram história. Mas esta revolução era tardia. O Jornal da Tarde, em São Paulo, a fizera, 46 anos antes. Primeira Hora fechou, dois anos depois de lançado.  Mas a guinada definitiva veio no jornalismo investigativo.



Capa do suplemento Cultura G da Gazeta do Povo com a manchete A Revolta, destacando uma fotografia de arte contemporânea de Frans Krajcberg.
Capa do suplemento cultural da Gazeta com Frans Krajcberg: vanguarda estética e arejamento cosmopolita em um periódico até então provinciano.

A redação da Gazeta converteu-se em uma usina de grandes reportagens, acumulando os mais cobiçados prêmios da imprensa nacional. Nada contrastava mais com o estilo protetor de Francisco Cunha Pereira Filho do que a série de matérias que viria a sacudir os pilares do Paraná tradicional: a monumental investigação sobre os "Diários Secretos" da Assembleia Legislativa do Estado. A denúncia escancarou o esquema milionário de funcionários fantasmas comandado pelo todo-poderoso diretor-geral Abib Miguel, o “Bibinho”, escudeiro fiel do deputado Aníbal Khury, que por quase meio século reinara absoluto sobre as acomodações políticas do Estado.


Primeira página histórica do jornal Gazeta do Povo de 2010 com a manchete da série Diários Secretos sobre dois mil atos secretos na Assembleia Legislativa do Paraná.
A histórica edição dos "Diários Secretos" (2010): o apogeu da fase investigativa em que a Gazeta desafiou os alicerces do poder paranaense e anunciou que o rei estava nu.

Em seguida, o jornal avançou sobre o Judiciário e as forças policiais, expondo os supersalários da magistratura paranaense e as fissuras na conduta das polícias Civil e Militar. Os três eixos da ordem tradicional local — a Política, a Toga e a Polícia — foram colocados sob a luz crua da denúncia pública, exatamente pela batuta do filho de um de seus mais conspícuos articuladores. O neto de desembargador e filho do legendário "Chico Beleza" anunciava ao Estado que o rei estava nu.


Essa coragem investigativa, contudo, logo colidiu com a dura realidade financeira. Troféus e distinções jornalísticas conferem prestígio, mas não remuneram gráficas nem sustentam folhas de pagamento vultosas em um jornal diário. As massas publicitárias, outrora o sustentáculo do império impresso, migravam em ritmo acelerado para a internet e as plataformas digitais globais.


A Gazeta do Povo, a despeito do brilho profissional de sua equipe, encontrava-se em situação terminal. O modelo clássico do jornal de papel ruía, e não seriam os prêmios que impediriam o colapso iminente. Uma nova e dramática travessia impunha-se ao publisher.

(Continua no próximo sábado)



No próximo capítulo (Parte III — Conclusão): A travessia do deserto e a reinvenção da Gazeta do Povo. A consultoria de Carlos Alberto di Franco, o adeus definitivo ao papel e a aposta na trincheira conservadora nacional. O balanço comparativo entre Francisco e Guilherme Cunha Pereira: o empresário que espelhava a província e o profeta que desafiou os novos tempos.



Caricatura do autor Hatsuo Fukuda traçada por Paixão, lendo um livro de óculos escuros e boné branco numa poltrona de biblioteca.

Hatsuo Fukuda tentando entender as entranhas da imprensa paranaense. Sua bengala de cego tateia, tateia, tateia.

1 comentário


Jose Arapoty
há 2 horas

Otimo. cada vez melhor a história. Parabéns. Depois aguardamos um livro cim esta história. Vc esta sendo cirurgico e brilhante.

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