A Velha e a Nova Gazeta do Povo (1/3): Francisco Cunha Pereira Filho e o Império

Parte I: Pater Noster
Por Hatsuo Fukuda
Norberto Zanello Archegas, responsável pelo setor de assinaturas da Gazeta do Povo, contou-me como iniciou os trabalhos. Ele nada sabia do ofício, e resolveu entregar os jornais como amostra. Selecionaria uma região da cidade e sua equipe passaria pelas casas, onde deixariam os exemplares, gratuitamente. Durante uma semana o procedimento se repetiria, bem cedinho. Os entregadores chegavam de madrugada na Praça Carlos Gomes, 4, sede do jornal, empilhavam os jornais em suas bicicletas e seguiam para os pontos determinados por Norberto. Depois de uma semana, ele pessoalmente passava nas casas e oferecia a assinatura.
O jornal enfrentava sérios problemas: equipamento obsoleto, afundado em dívidas e com circulação modesta. Tudo precisava ser construído, inclusive um setor de assinaturas funcional. Francisco Cunha Pereira Filho não era homem de desperdiçar talentos. Talvez sua maior virtude como proprietário fosse a capacidade de reconhecer qualidades e extrair o máximo do pessoal que tinha à disposição.
Tomando conhecimento de que um dos funcionários do parque gráfico perdera todos os bens em um incêndio, Dr. Francisco mandou que ele fosse até a loja da Hermes Macedo, a duas quadras dali, e lá comprasse tudo o que fosse necessário. A empresa seria ressarcida em centenas de prestações módicas. Aquele gráfico seria eternamente um dos devotos da Família.
Norberto contou-me que quando o Dr. Francisco faleceu, ele chorou. O cartunista Paixão, na ocasião, desenhou o publisher subindo uma escada em direção ao céu. Norberto também se sentia membro da família. Era aforismo corrente entre os funcionários veteranos da casa: “A Gazeta é uma mãe; e o Dr. Francisco era um pai”. Outra piada da época, esta sobre as convicções políticas do jornal: no dia em que o comunismo fosse implantado no país, a manchete seria "Vencemos!", em letras garrafais, com direito a uma bandeira vermelha na capa. Isso em pleno regime militar. Assim operava a velha Gazeta do Povo de Francisco Cunha Pereira Filho, que se tornaria o carro-chefe da maior rede de comunicações do Paraná, dona da repetidora da TV Globo no Estado, além do Diário da Tarde e de emissoras de rádio.
O estilo senhorial de Cunha Pereira, que tratava paternalmente o quadro funcional, tinha também um nítido sentido econômico. No período anterior ao FGTS, demitir saía excessivamente caro. A decisão mais humana — reter as equipes e reciclar os trabalhadores, mesmo quando funções se tornavam obsoletas por inovações técnicas ou imperativos financeiros — criava em contrapartida um inquebrantável senso de lealdade corporativa.
Mesmo em fases agudas de recessão, como no início dos anos 80, quando a receita publicitária minguou a quase zero — a caudalosa edição dominical, que passava de duzentas páginas, desidratou para apenas 32 —, Cunha Pereira não demitiu ninguém. Em contraste, o concorrente O Estado do Paraná, de Paulo Pimentel, promoveu uma razia em seus quadros, ceifando cerca de duzentos profissionais. Vários daqueles talentos abrigaram-se na Gazeta do Povo e na TV Paranaense, repetidora da Globo e braço televisivo da sociedade Cunha Pereira-Lemanski. Isso explica em boa medida a derrocada que atingiria o jornal de Pimentel anos depois: substancial parcela da identidade do veículo esvaiu-se naquela demissão em massa.
A Gazeta do Povo era o espelho da sociedade paranaense. E Francisco Cunha Pereira Filho — figura elegante, refinada, com porte que lhe rendeu o epíteto de "Chico Beleza", filho de desembargador e lente de Direito —, conservador por convicção, sabia manejar esse espelho como poucos. Instalado em seu gabinete na Praça Carlos Gomes, atendia diariamente a uma romaria de empresários, governantes, literatos e aspirantes à evidência. Os visitantes seriam fotografados com um exemplar do jornal em primeiro plano, na mesa do publisher. Nunca ele próprio seria ele retratado. Por que figuraria, se era o próprio dono do espelho?
De Gutenberg a Zuckerberg: A redação e a testemunha
Ninguém testemunhou com mais lucidez essa engrenagem do que o jornalista Celso Nascimento. Ele ingressou na Gazeta do Povo como foca em 1966, quando Francisco Cunha Pereira Filho contava apenas três anos à frente da folha, e lá permaneceu por mais de meio século, até a transição para seu filho, Guilherme Cunha Pereira. Costuma definir seu périplo como uma travessia "de Gutenberg a Zuckerberg": sentou-se à mesa no tempo das oficinas tipográficas a chumbo derretido e aposentou-se imerso nos fluxos da rede mundial.

A trajetória de Celso confunde-se com a estruturação da imprensa paranaense moderna. Foi repórter de geral, chefe de reportagem, editorialista e parceiro nas investidas pioneiras da televisão com Rafael de Lala e José Dionisio Rodrigues na TV Paranaense — respondendo, inclusive, pela matéria inaugural sobre o trânsito curitibano exibida na estreia do Jornal Nacional. Coube-lhe ainda reativar o Diário da Tarde, recrutando nomes de fôlego como Fabio Campana, Airton Cordeiro, Benedito Pires, Raul Varassin e Toninho Vaz, tomando da Tribuna do Paraná a primazia do segmento popular nas segundas-feiras.
Afastou-se temporariamente para atuar como assessor de imprensa nas administrações Jayme Canet Jr., Ney Braga e José Richa. Percorreu praticamente todos os recantos do interior castigados pela trágica Geada Negra de 1975 e participou da redação do plano de governo estadual ao lado de Belmiro Valverde Jobim Castor. Essa bagagem técnica e institucional conferiu-lhe densidade analítica incomum. Ao retornar e assumir a coluna política da Gazeta em substituição a Campana, consolidou a leitura matinal mais influente do meio político local. Dr. Francisco jamais interveio em suas análises, não obstante a enxurrada de contenciosos judiciais desencadeados pelo espaço — inclusive uma mirabolante ação indenizatória de 2 bilhões de reais ajuizada por Eduardo Requião.
A caneta no fotolito e a liturgia da conciliação
O controle exercido pelo publisher beirava o milimétrico. Dr. Francisco escaneava o jornal integralmente nas madrugadas prévias à impressão. As páginas subiam ao seu gabinete e sua caneta caía certeira sobre o que contrariasse sua linha de conveniência: atenção máxima voltada à capa, à página 6 (editorial), à página 7 (política) e à 32 (vida urbana e local).
Sensacionalismo ou escândalos policiais não encontravam brecha, sobretudo se o caso tangenciasse figuras da alta roda curitibana ou amigos particulares (eu próprio testemunhei um episódio, envolvendo o irmão de um notório escritor da cidade). A caneta riscava, a matéria seguia para a lixeira e o espaço era preenchido por algum calhau institucional, enquanto os operários da gráfica aguardavam em vigília as correções, horas depois de os repórteres já terem ido para casa.
Cunha Pereira chegou a incumbir um revisor de estrita confiança, Adilson Ferreira, de declamar pelo telefone todo o fotolito da primeira página antes da autorização para rodar. Ele já havia checado a página, mas, por via das dúvidas, de casa, telefonou e ordenou a leitura do fotolito. Surpresas eram inadmissíveis — prudência redobrada naquela noite em que se aprontava a capa sobre a chegada do general Emílio Garrastazu Médici à capital paranaense.

Esse rigor nada tinha a ver com perseguições — até porque Dr. Francisco evitava criar inimigos. Não colocaria seu patrimônio a serviço de campanhas de desgaste pessoal contra mandatários, distanciando-se do figurino beligerante de Paulo Pimentel em O Estado do Paraná. Pimentel deflagrou oposição frontal ao governador Jayme Canet Jr., cravando na primeira página um selo com a contagem regressiva para o término do mandato palaciano. O confronto cobrou seu preço: Pimentel perdeu a concessão da Rede Globo no Paraná em 1975.
E a quem o regime outorgaria tão rentável ativo? Ao sóbrio e previsível Francisco Cunha Pereira Filho, o empresário que equilibrava negócios sem atritos e cultivava interlocução serena com todas as forças políticas, civis ou de farda.
A tradição do Estado e o ouro de Joaquina
Paulo Pimentel, em sua índole paulista de Avaré, lastreado no capital do sogro cafeicultor João Lunardelli, talvez tenha ignorado uma regra de ouro regional. Desde o surgimento do periódico 19 de Dezembro, em 1853 — fundado justamente para veicular os atos normativos da recém-emancipada Província —, a imprensa no Paraná atuou majoritariamente como extensão formal ou informal do Estado. Do governo local, da União, ou habitualmente de ambos. A imprensa independente nunca se criou nestas paragens.
Não se trata apenas de conveniência mercantil. A matriz social paranaense inclina-se à preservação da ordem e ao respeito à hierarquia pública. Foi assim nos primórdios da ocupação e assim se manteve com o afluxo dos núcleos coloniais europeus. Alemães, poloneses, ucranianos e italianos, concentrados em pequenas propriedades e na lida severa com a terra, não encontravam utilidade prática em peitar as instâncias de poder. Pimentel, em sua verve combativa, subestimou a força dessa inércia paranaense e o ambiente fechado dos anos de chumbo.

Enquanto Pimentel operava com a ousadia mercantil de São Paulo, Cunha Pereira trazia no sangue a secular vocação conciliatória e acomodatícia da fidalguia mineira. Suas origens familiares conectam-se diretamente à emblemática matriarca Joaquina de Pompeu, titular de sesmarias que hoje cobririam vastos territórios em Minas Gerais e matriz de uma linhagem que atravessou a história política e intelectual do país — gerando nomes como Magalhães Pinto, Benedito Valadares, Gustavo Capanema, Afonso Arinos, Francisco Campos e Roberto Campos, Dom Geraldo Proença Sigaud. Curiosa é a inclusão nesta lista de estrelas pop como o padre Marcelo Rossi e a cantora sertaneja Paula Fernandes, bem como da escritora Maura Lopes Cançado.
Diz a tradição que Joaquina, por ocasião das lutas pela Independência, enviou a Dom Pedro I um primoroso cacho de bananas moldado em ouro nativo (havendo quem inverta os papéis da oferenda). Fato ou lenda, o episódio ilustra com precisão a sabedoria da diplomacia senhorial e a percepção cirúrgica de como cortejar o poder soberano.
Ao construir a Gazeta do Povo e receber as benesses do Planalto na expansão da RPC, Francisco Cunha Pereira Filho revelou com clareza a herança de sua estirpe: compreendia com precisão a hora exata de remeter bananas douradas à corte em vez de disparar-lhe petardos.
(Continua na próxima sábado)
No próximo capítulo (Parte II): A ruptura geracional nos anos 80. O choque entre a juventude universitária secular, as Arcadas da Faculdade de Direito e o voto de fé de Guilherme Cunha Pereira na Opus Dei; a Gazeta rompe com a liturgia do pai para desnudar o rei nos Diários Secretos e nos supersalários paranaenses — até o confronto inescapável com a crise do papel impresso.

Hatsuo Fukuda tenta entender as entranhas da imprensa paranaense. De óculos escuros? Tem dó.











Ótimo relato histórico. Parabéns aguardo os próximos capítulos.