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NATAL EM CANDURA

Um conto de Manuel Rosa de Almeida sobre o Natal.

Imagem de Willgard Krause por Pixabay


Quando era pequeno sempre passávamos o Natal em Candura. Era um lugar mágico! As ruas da cidade iluminadas com luzes multicoloridas convidavam o passeio dos olhos da criança encantada. Árvores, praças, construções, tudo carregava gentilmente uma penca de luzes vermelhas, amarelas, azuis, verdes, e as pessoas, passeando nas ruas, ganhavam sombras e matizes coloridos.


Encontrava tantas vezes o Papai Noel nas ruas que chegava a imaginar que ele se multiplicava, ou tinha o poder de mover-se na velocidade da luz. Passeando em seu trenó, sentado em sua casinha ou mesmo andando na praça ao peso de seu gigantesco saco. E o bom velhinho estava sempre disposto a ouvir os pedidos das crianças e a distribuir doces.


As árvores de Natal eram plantadas em grandes vasos para depois serem replantadas em florestas. Correntes douradas, velas acesas, bolas, pinhas pintadas, pingentes, inúmeros enfeites vestiam a árvore de gala. E ela ficava postada, majestosa, orgulhosa de sua beleza. Seus galhos inferiores faziam cobertura ao presépio, que parecia vivo! Um caminho traçado no campo, entre pedras e musgos, plantas delicadas que ocultavam um lago, pastores e suas ovelhas, vilas nos morros ao fundo… E o caminho levava à manjedoura, aquele enigma para a mente infantil: quatro seres cercando um bebê, um casal, um burro e uma vaca... e reis que vinham oferecer-lhe tesouros! No presépio, em cada sombra, em cada fonte de luz oculta por barba-de-velho havia encanto, havia mistério.


Lembro também que em Candura todos eram felizes. As pessoas nas ruas pareciam bem dispostas em seu ofício de viver, sorrindo e cumprimentando-se jovialmente. Não havia mendigos ali, nem acidentes, nem brigas, nem ladrões. Não havia buzinas, gritos, explosões. Apenas música. Não havia dor em Candura.


De repente, assim, do nada, deixamos de passar o Natal em Candura. Nunca entendi porquê. Seguimos comemorando a ceia em família, trocando abraços e presentes. Ainda cantamos em torno da árvore, admiramos o presépio. Mas não há mágica. A mágica foi banida, substituída por obrigações, por tráfego, por stress, por compromisso. Papai Noel é um velho gordo que faz bico no fim do ano porque tem o figurino e leva jeito com as crianças.


Ano passado, décadas depois, um sentimento obtuso, vagabundo, fez-me pensar em Candura. E algum pirilampo encantado lançou a vontade de novamente passar o Natal em sua atmosfera mágica. Meus pais já morreram. Meus irmãos fizeram longos semblantes de estranheza quando lhes perguntei sobre Candura. Ninguém sabe do que estou falando.


Pesquisando por conta própria, descobri que este município não existe, sequer um distrito com este nome. Então, talvez fosse apenas o nome de um bairro ou de uma localidade pequena. Procurei mais. Em vão. Não havia meios de me levar novamente a Candura.


Aconteceu que num Shopping Center, carregando presentes de netos, identifiquei sentado ao banco de uma casinha enfeitada a figura de Papai Noel. Naquele momento, por acaso, ele acolhia ao colo um menino e não havia ninguém à espera. Algum tolo desejo me pôs na fila, segurando os presentes dos netos. O bom velhinho despediu um menino sorridente e eu me sentei ao seu lado.

A princípio fiquei calado, constrangido. Ele imaginou, talvez, que eu quisesse levar um pedido de meus netos, mas eu o surpreendi com um jorro incoerente de palavras. Falei de Candura e da magia que havia em seu Natal. Contei como tudo cintilava com um brilho especial e como havia paz nos corações e sorrisos nos semblantes. Por fim lamentei, aflito, que não havia como achar o caminho de volta para Candura, perdida que estava em algum ponto do passado.


-- O que, afinal, pode ter acontecido? -- perguntei por fim.


O homem pegou minha mão e deu duas palmadinhas. Deu um breve sorriso barbado, soltou um suspiro e disse meu nome. Em seguida sentenciou:


-- Ah… você cresceu.


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