O dia em que Cris salvou o gambazinho
- Miriam Giro

- 27 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Miriam Giro

Quinta-feira sempre foi meu dia preferido da semana, meu dia de sorte. Por isso, naquela quinta, quando ouvi Sílvia, a diarista que ajuda nossos dias a fluírem melhor, dizer “meu Deus do céu!!!!”, já comecei a ficar nervosa, afinal, seria meu dia de sorte, não de azar. Quando fui até onde ela estava, perto do tanque de lavar roupa, já sabia que vinha chumbo grosso. Que foi? Perguntei. E ela: tem um gambazinho dentro do tanque. E tinha mesmo, um bichinho peludo, com cara de filhote abandonado – o que parecia ser o caso.
Os gambás que habitam nossa vizinhança são um problema desde sempre… Santinha, minha mãe, já mandou erradicar a parreira de suas amadas uvas de tanta raiva que ficou quando, por dois anos consecutivos, não conseguiu colher nem meia dúzia de cachos por que os gambás haviam devastado sua safra. No último ano, até o pé de acerola ela mandou cortar – se bem que, neste caso, não foram só os gambás o problema.
Peguei o telefone e saí ligando pra Força Verde, que me encaminhou à Guarda Municipal que me encaminhou ao IAP (?) – não consegui identificar direito a sigla – cujo telefone tinha mensagem de voz que informava que o atendimento era de 12 às 18 horas e liguei pra uma empresa de desinsetização/desratização que me informou nada poder fazer por que gambás são animais silvestres e gozam de algum tipo de “proteção ecológica” – algo que já havia frequentado minhas preocupações quando, anos atrás, tentei achar um jeito de me livrar dos “bichinhos tãããoo bonitinhos”.
Algum dos atendentes com quem falei informou que os gambás têm hábito noturnos e que, se eu deixasse o bicho quieto dentro do tanque, à noite a mãe viria resgatá-lo. Quase disse a ele que nosso tanque é uma cuba lisa, sem rampa de esfregar a roupa e que não tinha como, com aquelas garras curvadas que os gambás têm, o filhote e/ou a mãe saírem de lá de dentro sem ajuda.
Já comecei a entrar em crise existencial: a) o tanto de imposto que a gente paga e, nessas horas, não há um mísero órgão público que possa me tirar do sufoco; b) não gosto de animais, nunca tive gato ou cachorro ou mesmo um aquário e agora tenho que me defrontar com a questão de “salvar” um bicho que nem ao menos poderia ser qualificado como pet; c) se eu tivesse acesso a um método indolor de matar o bichinho eu o faria?; e, mais importante, d) onde foi parar minha sorte das quintas-feiras???
Tomei mais um café, fumei mais um cigarro e comecei a caminhar pelo quintal… O portão estava aberto porque Sílvia estava varrendo a calçada de fora e fui até ela queixar-me da vida. E foi aí que minha sorte voltou: nossa vizinha, Cris, também estava varrendo a calçada. Quando contei a ela minha tragédia existencial, sua reação foi a de um autêntico ser humano digno: precisamos tirá-lo de lá e devolvê-lo à mãe, disse.
Também me contou que os filhotinhos machos correm risco de que machos adultos os matem e que, por isso, a mãe redobra os cuidados com eles. Disse que, quando mandaram podar a mangueira de seu quintal, nem se tocaram que estavam tirando a casa e o supermercado dos gambás que nos rodeiam (moramos perto do vale – ou mata ciliar – do córrego Água Fresca).
E Cris – tchan tchan tchan tchaaannn – resolveu o problema: pegou uns panos velhos e uma embalagem de um quilo e meio de paçoquinha (vazia) e resgatou o animal do fundo da cuba arredondada de nosso tanque. Em seguida, levou-o pra seu jardim e advertiu sua gata para que não se aproximasse do bichinho.
Cris é a mulher mais linda do mundo, as quintas-feiras continuam sendo meu dia de sorte e eu vou começar a mentalizar firmemente para que os gambás criem juízo, andem meio quarteirão e voltem a morar no meio das árvores que ainda existem no vale aqui perto de casa.

Miriam Giro é londrinense de Sertanópolis e têm problemas com gambazinhos








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