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O MASTIGADOR RUMINANTE

há 12 horas
3 min de leitura

Ilustração em estilo charge de um homem de pijama na cama às 03:17 da madrugada com olhos arregalados e expressão de ansiedade. Ao seu redor, múltiplos balões de pensamento mostram preocupações como contas no negativo, política, o Supremo Tribunal Federal, preço do combustível e idas à padaria. Na mesa de cabeceira, há livros empilhados e uma caneca com os dizeres "Ruminar também é viver".

O MASTIGADOR RUMINANTE


Caio Brandão


O sono já não o aconchega como antes. Envelheceu, conheceu os labirintos da insônia e o desassossego de braços e pernas em conluio, trocando ideias noite adentro e sem chegar a acordo. Toma remédios poderosos, mas tem medo do sonambulismo e de passeios sinistros pela cozinha, entre panelas, armários e os guardados da geladeira. Prefere os fitoterápicos, mas exagera e o fígado diz que não.


Já ferveu folha de bananeira com aipim, misturou com chá de erva-cidreira e gastou com o táxi em direção ao pronto-socorro: dor nos rins, inchaço nas pernas e olhos esbugalhados. A esposa se horrorizou e os filhos, em prantos, chegaram a assumir a morte do pai. Não morreu. Voltou para casa, mas ficou com a suspeita de que, naquela família, talvez a sua morte fosse recebida com excessiva precipitação.


Ele é um ruminante, um mastigador de ideias, um pensador angustiado que não dorme e cultiva o bruxismo. Os dentes reclamam; gostariam de afastar o mastigador, deixá-lo à distância, com seu ronronar bucal ressoando pelo céu da boca. Dente não é tamborim de língua, e saliva não é aperitivo de botequim.


No silêncio da madrugada, a mandíbula trabalha em ritmo de oficina mecânica. Mói frustrações antigas, mastiga a política do país, o preço do combustível e a inevitável finitude das coisas, rangendo o esmalte numa partitura soturna. Pela manhã, o espelho revela o estrago: a cara amassada, os músculos da face rígidos como ferro-gusa e a nítida impressão de que passou a noite inteira num duelo de boxe contra o próprio travesseiro — e perdeu por pontos.


O mastigador ruminante é um perdedor vocacionado. Perde para a ingratidão do patrão, para a indiferença morna da esposa e para a miudeza do reconhecimento dos mais próximos — régua torta que só mede no negativo. Perde na contabilidade afetiva da vida e aduba a própria amargura com firulas, ressentimentos e sentimentos menores que alimentam e perpetuam a moenda da noite.


É a idade, conclui, atribuindo a culpa à queda da testosterona e aos lapsos de esquecimento que começam a pontuar a equação. Mas ele é alfa. Macho alfa provedor, daqueles que ainda se olham no espelho antes de sair de casa para conferir se a autoridade continua no lugar.


Já não provê como antes, porque na sua horta quase não chove mais e os brotos se recusam a florescer. Mas vai levando a vida, certo de que tudo haverá de melhorar. Afinal, as eleições batem à porta, trazendo as mesmas caras, os mesmos problemas, as velhas promessas e o frescor das novas denúncias.


Ah, as denúncias! Bom conhecê-las, mas melhor ainda não as ler. Conhecê-las para ter o que ruminar; não lê-las para evitar a decepção. Já nascem temperadas, envoltas em molho de versões, recheadas de interesses e cobertas por uma generosa camada de indignação. Umas picantes, outras adocicadas. Todas elas prontas para consumo.


É a pizza, verdadeiro patrimônio nacional — quase um feriado —, carente apenas de um monumento próprio nos arredores do Anhembi, ombro a ombro com as alusões à independência do país. Afinal, se há coisa que o brasileiro sabe fazer, além de votar mal e reclamar do resultado, é transformar qualquer tragédia em assunto de mesa.


Mas o Supremo vem aí.


Promete virar tema carnavalesco, com samba-enredo milionário e destaque em carro alegórico vestido de toga preta, a acenar para a arquibancada enquanto atira confetes ao vento. Ou seriam melhor cédulas?


O mastigador agradece. Afinal, assunto não lhe falta.


E rumina.


A noite é preguiçosa e segue devagar. O relógio parece ter aderido ao serviço público: funciona, mas sem nenhuma pressa. Os pensamentos, ao contrário, trabalham em regime de hora extra. E os flatos estão presentes, fogos de artifício que alimentam o frescor da madrugada, anunciando que o organismo também participa, à sua maneira, da sinfonia noturna.


Mais um dia se aproxima. E, com ele, a preparação para outra noite de horrores.


Mas ruminar também pode ser gratificante. Permite viajar, retornar à adolescência e fazer vibrar o colchão com emoções pretéritas, sempre vigorosas e acompanhadas de farta salivação na moenda do pensamento. Há lembranças que envelhecem melhor que o homem e continuam jovens quando ele já não consegue acompanhá-las.


Afinal, a insônia é um cabaré sem cobrar entrada.


O problema é quando o sol desponta, o despertador toca sem piedade e a realidade cobra o ingresso — exigindo que o jovem galã de dezenove anos, ainda escondido em algum lugar daquele corpo envelhecido, retire novamente o pijama, desencaixe a placa de bruxismo, confira se os dentes ainda estão todos no lugar e vá comprar o pão.


Porque, no fim das contas, toda essa ruminação tem uma obrigação elementar:


- É preciso continuar ruminando e mastigando, porque a vida segue o seu curso.




Foto colorida do autor, Caio Brandão, um homem com um inicio de calvicie, de óculos escuros.

Caio Brandão é jornalista e escritor mineiro.

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