O CHUTADOR DE PAREDES, UM CARA NORMAL

O CHUTADOR DE PAREDES, UM CARA NORMAL
Por Caio Brandão
O som da bota de couro contra a alvenaria era o único relógio confiável daquela casa. Não havia quadro nos pregos, nem marcas de braços nos sofás; apenas o pontapé seco, calculado contra o canto da sala, seguido pelo ruído de alguns grãos de reboco caindo sobre o taco.
Ele morava só e carregava uma árvore genealógica de pouca folhagem, mas isso nunca lhe pareceu um infortúnio, apenas um alívio técnico: havia menos ruído em seu espaço. Não ostentava talentos extraordinários, desses que ganham aplausos ou justificam biografias. Era um homem comum, silencioso, mas dotado de duas faculdades incômodas.
A primeira era uma audição inversa: captava com nitidez cirúrgica exatamente o que as pessoas se esforçavam para não dizer. Entendia as pausas, o peso dos não ditos e a covardia oculta nas frases bem dobradas. A segunda era ainda mais física, quase visceral — o cheiro. Ele não precisava de exames para saber do tempo de alguém; sentia no ar o cheiro denso e adocicado da tessitura exalando dos corpos que cruzavam seu caminho, muito antes que a primeira manifestação verbal ousasse dar as caras.
Chutar as paredes não era um ato de loucura. Era a sua forma de testar a solidez do mundo. Se as pessoas eram feitas de segredos transparentes e carnes vulneráveis, algo naquela casa precisava resistir.
A imaginação cumpliciava com ele e, nos fundos do espaço, desdobrava-se um recanto pantanoso, cortado por uma ponte em arco, voltada para o nada. Havia o risco e a tentação de percorrê-la de olhos fechados, à espera do novo, do diferente e da emoção do abismo. Sob o arco, repousavam pedras — algumas reluzentes, outras translúcidas ou opacas — e tantas outras pareciam sussurrar convites ininteligíveis.
Acima, no teto, o vazio. Dali não havia de onde buscar auxílio, embora pendessem cordas curtas e grossas, lá postas apenas para iludir, sem levar a lugar algum.
Da penumbra emergiam vozes sussurrantes, escorrendo em cânticos melódicos e contidos, aprisionadas no hiato entre o desejo e a satisfação — dois territórios há muito ressecados pela inanição. Eram vozes mutantes: ora ásperas e roucas, ora aveludadas e sedutoras, insistindo em se insinuar pelas frestas de seus sentimentos.
Mas a alucinação não resistia ao impacto. O verdadeiro choque de realidade vinha com a bota fincada na parede: a vibração seca dos tijolos, o reboco esfarelado no chão e o eco imediato de um mundo duro, implacável e, exatamente por isso, socorrista.
Foi justamente essa alvenaria agredida, mas firme, que o impediu de reparar quando os cantos da sala começaram a sangrar uma névoa espessa e violeta. Das frestas do rodapé, relógios sem ponteiros brotavam como cogumelos mecânicos, marcando apenas a digestão do tempo que não passa.
Ao esticar a mão para agarrar a corda inútil pendente do teto, seus dedos atravessaram uma matéria tépida, semelhante à gelatina de um olho gigante que o observava sem pálpebras. No reflexo daquela pupila invisível, ele viu a si mesmo caminhando sobre o arco da ponte, descalço. Estava febril, e a imaginação fervilhava a ponto de lhe contorcer os dedos dos pés.
As pedras no chão, então, abriram pequenas bocas e começaram a devorar a própria sombra que ele tentava projetar.
Descalço e privado até da própria sombra, restou-lhe a rigidez do tornozelo. Sem a bota, o impacto contra o tijolo nu não ofereceu o eco oco de antes, mas o estalo direto da carne e do osso contra o mineral. A dor fria subiu-lhe pela espinha como uma agulha de gelo, clareando instantaneamente a névoa violeta e calando as bocas famintas do chão.
Naquele estalo, a casa pareceu inspirar fundo: a ponte retrocedeu, as cordas inúteis encolheram-se como vermes assustados e o teto voltou a ser apenas o gesso rachado de sempre.
Ah! Por que o telefone não toca e o livra dessa piração?
Ele mancou até o centro do cômodo, sentindo o sangue morno escorrer pelo peito do pé até alcançar o taco seco, ciente de que, enquanto houvesse dor para lembrá-lo de sua própria carcaça, o abismo do outro lado continuaria do lado de fora.
Mas não havia sangue, nem ferida. Havia apenas a casquinha de um sorvete de morango jogada no chão.
Chutar a parede era a realidade, e a bota, a sua proteção.
Tomou-a de novo, sem hesitação; esticou o couro surrado com a determinação silenciosa de quem veste uma armadura. Ajustou a fivela sobre a carne que ainda imaginava ferida, ignorando a pulsação surda do pé machucado, porque sabia que aquele calçado não era um adereço, mas uma fronteira.
Era a sua ferramenta de mediação com o chão, o escudo necessário para manter o delírio encurralado no invisível.
De pé novamente, sentiu o peso firme da sola contra o piso e compreendeu que caminhar — e chutar — era o seu único pacto possível com a sanidade.
De repente, parou de chutar.
Na parede, introduziu a mão direita, que penetrou a alvenaria de forma leve e natural.
O que esperava? Apalpar um seio? O cara pulou o alambrado.
Do outro lado, nada: nenhum calor ou frescor, sequer a comprovação do vazio em meio ao seu balançar. Não havia pega, nem algo sólido a que recorrer.
De real, real e seguro, apenas o chute na parede e o seu reverberar austero.
Ele aprumou o corpo, foi ao banheiro, retornou à sala e mirou-se no espelho. Viu a pessoa comum, pronta para o desafio lá fora.
Tomou um gole d'água e saiu.
Na rua, viu pessoas, movimento, sons e o céu claro e iluminado. Seguiu a passos firmes para a sua rotina, deixando para trás o tambor da parede, a bota surrada, a ponte e as pedras — o seu mundo privado e confortante.
Vestiu a criatura travestida de pessoa comum e misturou-se às outras. Todas caminhavam, conversavam, gesticulavam. Algumas falavam sozinhas, gungunando coisas ininteligíveis para elas mesmas.
Ninguém parecia perceber.
Ou talvez todos percebessem.
Era apenas uma questão de escolher quais paredes chutar, porque o cara, como outros tantos, era rigorosamente normal.

Caio é advogado, jornalista e escritor de Minas Gerais.











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