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O TAPA DO OSCAR


A repercussão é um desfile de julgamentos prematuros.

Imagem por Pixabay



Li dezenas de comentários sobre o ocorrido e apenas um deles apreciava sobre o ato destituído de suas personalidades. Os demais discorriam sobre a individualidade de Will Smith e/ou de Chris Rock no fato concreto. Acredito que, antes de mais nada, devemos separar o caso específico do genérico. Afinal, apenas os dois envolvidos podem fazer um julgamento da situação, seja no sentido de mea culpa, seja no sentido condenatório, pois são os únicos que conhecem cem por cento o contexto do ato. E contexto é tudo. Alguns detalhes são conhecidos do público em geral. A condição de saúde de Jada é sabida há pelo menos quatro anos. Sabe-se, também, que não é a primeira vez que ela é alvo de piadas de Chris, e que este tem algum histórico de atrito com Will. Mas é só. Isso pode ser apenas a “ponta do iceberg” do contexto ali existente. E, desconhecendo os noventa por cento “submersos”, ninguém pode dar uma opinião sobre o caso específico sem estar cometendo algum grau de prepotência, pois julga-se capaz de dar parecer em um assunto que conhece apenas superficialmente. Uma coisa é dar sua opinião em uma conversa casual com seus familiares e/ou conhecidos. Outra, bem diferente, é lançar sua opinião em “forma de decreto” publicamente nas redes sociais, como se fosse o dono e senhor supremo da verdade. Esta pode estar na consciência de cada um dos envolvidos, ou até mesmo não ser absoluta, existindo duas verdades, a de cada um, dentro de seus próprios contextos, desconhecidos das segundas partes envolvidas. Sendo assim, é possível que apenas um esteja certo, ambos estejam errados, ou até mesmo ambos estejam certos. Provavelmente jamais saberemos. E é por este motivo que é tão difícil o ofício da magistratura. Na maioria dos casos não existem provas, apenas indícios. Se um gato entra numa loja de cristais, derruba todas as peças e sai, e um cavalo desgarrado entra na loja para ser surpreendido pelo dono, o cavalo será sumariamente condenado, e ninguém contestará. Mas a verdade não teria sido descoberta, e um inocente seria condenado. Ninguém saberia, mas a justiça não teria sido feita.

Não tenho competência para julgar o acontecido entre os atores, mas tecerei sobre a situação genérica ali colocada: O tapa como resposta a uma verbalidade. Poderia dizer “agressão verbal”, mas esse termo é relativo. O ofendido o vê como tal, mas nem sempre o “proferinte” compartilha dessa visão, e o público em geral tende a ficar dividido. Enfim, o tapa é justificável em caso de ofensa verbal ou é um escalonamento do conflito a outro patamar? Acredito que ambos. Como quase tudo na vida, depende da situação. Se o motivo é torpe, o tapa é uma agressão em outro nível. Um sujeito que está tocando violão e ouve alguém lhe dizer que toca mal. Um simples “não toco em seu benefício, mas sim porque me alegra” é suficiente.

O tapa pode não ser necessariamente uma agressão. Pode ser um argumento máximo de desagrado e/ou reprovação, empregado quando o simples “calar”, “ignorar”, ou “sair” forem uma reação muito branda, desproporcional ao evento. Não é, neste caso, um ato inicial de briga física, mas o último estágio de alerta de que aquela parte está passando algum tipo de limite. É um ultimato. Para tal, um caráter de moralidade e hombridade precisa estar implicitamente envolvido na questão. Mas não só, é uma situação complexa. O tapa não pode estar num contexto de desigualdade de condições, como adulto/criança, patrão/empregado, professor/aluno, etc. Requer que os indivíduos estejam na mesma prateleira, em igualdade de condições. A classificação do tapa como argumento, não como agressão, só se consuma a posteriori, com a concordância da segunda parte como tal, não podendo, assim, levar a vias de fato. Caso leve, significa que o paciente interpretou como primeiro estágio de agressão, e não como um argumento final.

Por fim, parabenizo aquele único comentário que li acerca do tema sem entrar no mérito do caso concreto. Nesse grande circo da vida, o que não faltam são julgamentos prematuros e hipocrisia. Essa é a natureza humana, e as facilidades do mundo moderno somadas às crescentes carências psicoemocionais causadas pelo sistema acentuam nossa animalidade. Até que ponto? As distopias de “Black Mirror” tornar-se-ão realidade? Creio que caminhamos a isso, mas sabem quem tem a resposta? Isso mesmo, ninguém!

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