A Terra é fértil, o clima é próprio - Ricardo Lunardelli por Nilson Monteiro
- NILSON MONTEIRO

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APRESENTAÇÃO
O Dialéticos tem o orgulho de apresentar o primeiro capítulo da obra Ricardo Lunardelli, uma vida a serviço da terra, escrita pelo jornalista e escritor Nilson Monteiro.
Este fragmento inicial transporta o leitor para setembro de 1940, capturando o exato momento em que o pioneiro paulista Ricardo Lunardelli desbravou o solo roxo e fértil do Norte do Paraná para fundar Porecatu. Antes de cravar seu nome na história paranaense, Lunardelli construiu uma sólida trajetória política e empresarial em Catanduva (SP). Na cidade paulista, ele se destacou como um dos maiores produtores de café do país e, guiado por sua profunda fé cristã, foi um dos principais parceiros e apoiadores das grandes obras de caridade lideradas pelo Venerável Padre Albino, financiando hospitais, orfanatos e doando vastas terras para assistência social.

Longe de ser uma biografia linear e burocrática, o texto de Monteiro revela as múltiplas camadas de um homem complexo: o visionário do agronegócio e cristão convicto que, ao mesmo tempo, carregou em sua trajetória a cicatriz de ter seu nome ligado à cruenta "Guerra de Porecatu". Confira abaixo essa fascinante narrativa histórica.
A Terra é fértil, o clima é próprio
Nilson Monteiro
Quando ele apeou do cavalo, depois de andar 20 km por uma picada de terra roxa e grudenta em meio ao mato fechado, olhou em volta e vaticinou: “O pau d’alho nos mostra que a terra é fértil, e a embaúba endossa que o clima é próprio para a cultura do café, livre de constantes geadas.” A copa das árvores parecia curvar-se, mesmo sem o auxílio de ventos, e concordar com o novo visitante àquela região, em setembro de 1940. Em escritos ainda conservados por familiares, Lunardelli registrara, antes de ir para a região, que “muitos dos que compraram terra por ali tinham vendido sem ir até lá. Tinha fama de terra ruim e ninho de geadas”.
Aos 58 anos, realizado financeira e socialmente em Catanduva, no interior de São Paulo, ele primeiro viajou de trem pela Estrada de Ferro Sorocabana até Regente Feijó, na região Oeste Paulista. De lá, foi de jipe por 65 km de estradas precárias e depois atravessou de canoa o Rio Paranapanema até as barrancas do lado do Paraná. A seguir, cavalgou para chegar às terras que lhes foram oferecidas pelo embaixador José Carlos de Macedo Soares a 150 cruzeiros o alqueire, segundo documentos familiares.

Assunta, a quarta de seus 8 filhos, lembra que além das terras que lhes foram oferecidas por Macedo Soares, seu pai ainda compraria mais alqueires na região, perfazendo uma vasta gleba de terras de 17 mil alqueires. Ricardo Lunardelli, então proprietário das fazendas São João, em Pindorama, e São José, Santa Olga, São Francisco e Santa Ernestina, próximas a Catanduva (que, linguagem indígena, quer dizer “terra ruim”), enfiou os dedos no chão do sertão norte-paranaense, quase às margens do Rio Paranapanema, onde iria criar Porecatu, e percebeu sua fertilidade, além do clima adequado para o plantio que tencionava. “A Terra é muito boa”, disse, e repetiu, acompanhado e avalizado por seus filhos João e Urbano, comparando-a com o solo do município paulista de Ribeirão Preto.

Sua intuição ou leituras e informações sobre a região viraram constatação. Uma faixa de terra do Norte do Paraná é parte da mais fértil mancha vermelha do planeta, onde a crosta terrestre há mais de cem milhões de anos, através de suas rachaduras, despejou um bolo quente, feito creme, que, esfriando, virou um imenso manto de rocha estendido.
Além dessa fertilidade, ele fora para a região, segundo Assunta, atraído por outro motivo: a concessão para a construção de usinas de açúcar e álcool que o governo estava oferecendo para quem se dispusesse a enfrentar os desafios de novas fronteiras agrícolas. “Era seu sonho ter uma usina. E provar que sempre se pode fazer alguma coisa para preservar e melhorar a terra, independentemente da cultura que se escolhesse para plantar”, acrescenta Yone, uma entre os 24 netos de Ricardo Lunardelli, filha de Assunta e do médico Ângelo Di Ninno, que foi para Porecatu nas primeiras levas saídas de Catanduva.

Movido pelo gosto ao desafio que sempre o caracterizou, segundo seus familiares, e por facilidades concedidas por seu amigo Macedo Soares, personalidade de destaque no cenário político e intelectual da primeira metade do século XX (havia sido ministro da Justiça de Getúlio Vargas e, depois de 5 meses no governo, solicitara sua exoneração porque teria percebido inspiração nazi-fascista na Constituição que o presidente da República pretendia outorgar), Ricardo Lunardelli acrescentou, ao apear do cavalo no lugar então chamado de Antenorburgo, acompanhado por seus filhos, pelo engenheiro Timóteo Niculiteheff, técnicos, um empreiteiro e trabalhadores braçais, um capítulo ao mesmo tempo vitorioso e dolorido em suas páginas de vida. Foi o único empreendimento controverso que ele experimentou, em inúmeros realizados durante toda a existência.
Sua biografia é distinta por uma cicatriz conflitante. De um lado, era cristão convicto para quem “o que há de mais valioso neste mundo é a vida, e a vida mais valiosa é a do homem, criado à imagem e semelhança de Deus” e de outro, o seu envolvimento direto na chamada “guerra de Porecatu”. Foi um confronto cruento que borbulhou a partir de 1944 e teve seu clímax no decorrer do biênio 1951/52, no qual estavam comprometidos governantes, jagunços, grileiros, comunistas, militares, fazendeiros e posseiros e do qual resultaram, oficialmente, seis mortos e oito feridos, além de uma inesquecível marca no barro roxo da região durante o processo de ocupação do Norte do Paraná. A mesma terra que ele cultivava como uma benção divina. “A erosão é o maior contrabando invisível. Ela leva anualmente 500 milhões de toneladas de terra para o mar e para o Prata.
Em abril de 1941, seu filho Urbano retornou para ficar de vez no local, na companhia de trabalhadores braçais, técnicos, o engenheiro Niculiteheff, e um empreiteiro. Naquela época, Londrina, que viria a tornar-se o grande pólo econômico regional, principalmente em função da cafeicultura, não passava de um povoado promissor com meia dúzia de anos de emancipação municipal, onde viviam pouco mais de 20 mil pessoas. De lá, vieram tábuas e zincos usados para a construção da primeira casa dos pioneiros de Porecatu.

Londrina era o núcleo de uma colonização que começou quando foram fundadas, nos anos 20, as empresas Brasil Plantations Syndicate Limited e Paraná Plantations Ltd., com o objetivo de explorar economicamente a região conhecida como Norte Central Paranaense. A cidade teve suas origens com estabelecimento de uma subsidiária da Paraná Plantations Ltd., a Companhia de Terras Norte do Paraná. Porecatu, que ficava mais ao norte da região, teve a colonização um pouco mais tardia, embora já houvesse registros históricos de posse de suas terras.
Em outubro de 1941, foi plantado o primeiro pé de café na fazenda Canaã, nome, segundo a história bíblica, da terra prometida por Deus a seu povo. Também naquele ano, foi aberta a primeira estrada ao futuro património, criado em 1943. Em 30 de dezembro deste ano, Porecatu teve seu registro como distrito do município de Sertanópolis, de acordo com o decreto estadual número 199, assinado por Manoel Ribas.
A lei estadual n.º 2, de outubro de 1947, elevou Porecatu à categoria de município. Essa mesma lei deixou o distrito de Alvorada do Sul sob a administração de Porecatu. Todas essas mudanças e a criação da comarca, a 14 de janeiro de 1948, pela lei estadual n.º 23, e instalada no dia 27 do mesmo mês, “tiveram o auxílio do amigo Vespertino Pimpão”, relatou Lunardelli, anos depois, referindo-se a um dos políticos influentes na época, morador de Bela Vista do Paraíso, cidade a pouco mais de 30 km do que viria a ser Porecatu. Otávio Bezerra Valente foi o primeiro juiz da cidade.

Nilson Menezes Monteiro (1951) é um dos mais respeitados cronistas, poetas e jornalistas do Paraná.
Liderança Estudantil: Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), teve atuação destacada na resistência à ditadura militar nos anos 1970. Ele integrou e presidiu o histórico Jornal Poeira, a combativa publicação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UEL que se tornou um símbolo da imprensa alternativa e da luta democrática no estado.
Carreira: Com mais de 50 anos de profissão, passou por redações como Folha de Londrina, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil.
Distinção: É imortal da Academia Paranaense de Letras (Cadeira nº 28).

Obras Selecionadas
Sua produção literária sintetizada transita entre a ficção de fôlego, a poesia e o resgate da memória regional:
Ricardo Lunardelli – Uma Vida a Serviço da Terra: Biografia e reconstituição histórica dos conflitos agrários paranaenses.
Jornalismo se escreve com seis letras: PAIXÃO: Antologia que celebra suas cinco décadas de reportagens.
Mugido de Trem & Lasca de Costela: Suas principais incursões no romance e na novela.
Curitiba Vista por um Pé Vermelho: Crônicas ácidas e afetuosas sobre a capital paranaense sob a ótica do interior.
Simples & Nem tão Simples: Antologias que reúnem sua produção poética.










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