ROLAND HASSON DESCOBRE O MUNDO: AS LIÇÕES DO KIBUTZ MIZRA NOS ANOS 70
- ROLAND HASSON

- 18 de jun.
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ROLAND HASSON DESCOBRE O MUNDO: AS LIÇÕES DE UM KIBUTZ NOS ANOS 70
Por Roland Hasson*
Em minhas aulas inaugurais no curso de Direito Constitucional do Trabalho, no Mestrado e Doutorado da PUC, onde lecionei antes de me aposentar, costumava contar a história de minha estada no Kibutz Mizra, em Israel, onde estive fazendo trabalho voluntário, com vinte anos, ainda estudante de graduação em Direito. Alguns podem estranhar o tema, aparentemente sem conexão com a matéria. Mas explico: foi uma experiência fundamental para um jovem e marcou existencialmente toda a minha vida, não somente como advogado e professor, mas como judeu e homem.
Saí desta experiência amadurecido e pronto para enfrentar os desafios que me aguardavam na vida e na minha profissão. Entendo que os jovens que frequentam os meus cursos precisam criar uma conexão com o professor, não apenas intelectual e acadêmica, mas humana. Esta conexão os ajudará a enfrentar com mais interesse o árduo labor que os aguarda, e servirá, no futuro, quando eles próprios estiverem em suas cátedras, às voltas com seus próprios alunos. E, não menos importante, a lição fundamental: nós, juristas, temos o homem como princípio fundamental, e entendê-lo é o primeiro passo para a resolução dos problemas jurídicos.
O CHOQUE DE REALIDADE: A CHEGADA AO KIBUTZ EM 1976
Foi em 1976. Chegamos em aproximadamente 15 jovens, brasileiros. Eu tinha 20 anos de idade, e ainda frequentava a Faculdade de Direito.

Nos apresentaram o kibutz: refeitório, com café da manhã das 6:30 às 10; almoço das 11:30 às 14:30 e jantar das 18 às 20:30h. Tinha também uma biblioteca, aberta 24h, com bolachas, sucos, livros, xadrez, etc. O Kibutz tinha piscina, campinho de futebol, basquete. Vôlei. Casas dos moradores e as nossas, um pouco mais afastadas. Sobrados geminados, para três pessoas; quarto amplo com armários, banheiro amplo e um balcão com chaleira/cafeteira, alguns talheres, copos e xícaras.
Ao lado dos nossos sobrados, uma pequena casa. Ela nos disse que deixaria ali, todos os dias, bolachas, café, chá, chocolates, amendoim, cigarros, etc.
Nos disse que era para termos alguma coisa nos quartos, se quiséssemos.
O primeiro a entrar, pegou metade de tudo que tinha, o segundo a outra metade.
Ela, a nossa “chefe”, nos explicou que não faltaria nada e que não precisavam pegar tudo de uma vez.
Pediu mais, que como os maços de cigarros eram muito caros, que aqueles que não fumavam, não pegassem.
Ainda, pediu que o que foi pego, fosse devolvido.
Pois bem: não devolveram!
A Chefe passou a abrir a “lojinha” uma vez por semana e nos dava sacolas prontas.
Mesmo aqueles que não fumavam pegavam os maços de cigarro para vender a quem fumava.
Assim foi o primeiro dia no Kibutz Mizra, situado entre Afula e Nazaré (a cidade onde Jesus passou a infância e juventude), em Israel.
KIBUTZ MIZRA: ENTRE O SOCIALISMO UTÓPICO E A HISTÓRIA DE ISRAEL
O kibutz é uma fazenda comunitária. Começou com casais jovens, idealistas que resolveram se mudar para Israel (Palestina) nos idos de 1890. Mizra foi fundada formalmente em 1923. Compraram um pedaço de terra, fizeram uma casa e plantavam ao redor. Com o dinheiro da primeira colheita, resolveram fazer um refeitório, para comer em lugar distinto de onde dormiam.
Quando as mulheres engravidaram, juntas, como sói acontecer entre casais jovens, trabalhavam até nascerem os filhos. Com o dinheiro da colheita, resolveram construir uma casa para as crianças. As mulheres precisavam trabalhar e resolveram que, em sistema de rodízio, uma das mães cuidaria de todas as crianças.
O Kibutz Mizra era comunista. Diziam: vamos fazer, porque ninguém fará por nós. Não eram religiosos, apesar de judeus. Nos anos 30, foi um centro de recepção de imigrantes judeus vindos da Rússia, Polônia e Alemanha. Nos anos 40, abrigou o quartel general da Palmach, a força de elite da Haganah, organização que lutava pela independência de Israel, e chegou a ser invadida pelas tropas britânicas. Há lá um museu que retrata o período.

Havia muita liberdade entre os casais, mas o que para nós parecia promiscuidade, era intimidade. As mAcervo do museu local preserva os utensílios domésticos e a estrutura original da cozinha comunitária dos primeiros anos do Kibutz Mizra.eninas namoravam com naturalidade.
Havia árabes e judeus e se davam muito bem.
Íamos para a cidade e o kibutz nos levava a passeios, conhecemos o país todo.
Hoje muita coisa mudou, mas na época era muito rústico.
Escrevi um conto, contando essa história.”

*Roland Hasson é advogado, Mestre em Direito Privado e Doutor em Direito das Relações Sociais pela UFPR, professor aposentado do curso de Mestrado e Doutorado da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Procurador do Estado do Paraná aposentado. Fez a graduação em Direito na Universidade Federal do Paraná, o antigo Ginásio e 2.º Grau no Colégio Estadual do Paraná. Você o encontra no Instagram em hassonadvogados.










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