Cavalos, Padres e Sermões: A Vida Cotidiana na Prudentópolis de Outrora
- EMILIO GAUDEDA

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Cavalos, Padres e Sermões: A Vida Cotidiana na Prudentópolis de Outrora
Por Emilio Gaudeda
NOTA DO EDITOR: Trazemos novamente ao leitor do blog o escritor Emilio Gaudeda, de cujo livro, Ponte Nova de Outrora, retiramos uma saborosa crônica sobre a comunidade ucraniana de Ponte Nova, distrito de Prudentópolis, no Paraná, seus personagens, suas igrejas, sua devoção e seus momentos de lazer.
Prudentópolis é a Ucrânia Brasileira: 70% de seus 50 mil habitantes são de origem ucraniana. E a comunidade se destaca por sua devoção religiosa, razão e fundamento de sua resiliência durante os difíceis anos do início da imigração, e da persistência de seus costumes, língua e tradições. A permanência cultural da Ucrânia no Paraná é um fato. E provavelmente foi a Igreja Ucraniana o grande fator que os manteve unidos e falantes da língua e costumes. Das cem igrejas de Prudentópolis, cinquenta são ucranianas. Seus sacerdotes sempre estiveram umbilicalmente ligados ao povo, como mostra Gaudeda. Para uma imersão total, o livro Ponte Nova de Outrora está disponível na Estante Virtual. Compre, não seja muquirana. (Hatsuo Fukuda)

Sem cavalo, nem à missa se assistia. A igreja mais próxima era a da colônia Jesuíno Marcondes. Para assentar os imigrantes ucranianos, ela havia sido planejada e projetada como aldeia típica da Ucrânia da época. A igreja no centro. De madeira, em forma de cruz, com cúpulas de tabuinhas. Em volta dela, um pátio largo; na sua entrada, um cruzeiro enorme de imbuia com inscrição esculpida em ucraniano: "спаси свою душу!" (Spassê svoiu dúchu!) — "Salve a sua alma!".
Circundava o pátio uma faixa larga de canteiros cheios de flores diversas, contornada por uma cerca de ripas a pique, fazendo o conjunto, do alto do voo de um pássaro, parecer uma toalha bordada. A par dela, uma área grande gramada e também cercada, chamada de obora. No dia em que vinha o padre e havia missa, ficava toda lotada de carroças.
O mais impressionante desse estacionamento era a tranquilidade dos cavalos, permanecendo comportados durante a celebração toda, que não era curta, mesmo atrelados ou encilhados e sem olheiro por perto. Alguns preferiam deixar suas carroças no pátio da ferraria do seu Semen Kukurudza, um líder local que havia trabalhado duro no assentamento dos imigrantes na vinda deles para Jesuíno Marcondes.
Nessa obora havia uma privada, que chamavam de casinha, uma vala alongada feito trincheira e uma casa de madeira.
Bem, a privada era pública.
A vala era para assar o churrasco no espeto para a festa do dia do padroeiro.
A casa era para o pernoite do padre. Nela também ele recebia os fiéis antes da missa. Cumprimentavam beijando a mão direita dele, já de longe demonstrativamente estendida. Um ritual imprescindível, tanto para o padre quanto para o colono.

O padre, um ícone revestido de aura sobrenatural, infalível como tal na paróquia, tanto em assuntos espirituais e religiosos quanto nos materiais e profanos — embora hoje até o papa, tido como infalível, tente se desculpar dos pulos errados dados por algum pastor, eminente ou não, dos seus rebanhos. Já para o padre, o colono era uma ovelha incolor que segue instintivamente o seu pastor no meio do seu numeroso plantel. Assim aconteceu porque assim faziam os padres europeus na terra-mãe. Por que, então, não o fazer na de adoção?
Com a entrada de padres abrasileirados, tal ritual aos poucos foi sendo deixado de lado, a começar com Dom Efraim, que retirava a mão quando algum colono ou não queria beijá-la. Eram colonos parados em frente da porta, esperando a vez de conversar com o padre. O padre, tanto o europeu como o já meio abrasileirado, era visto e tido como dono de toda verdade. Ai daquele fiel que por algum motivo tivesse e expressasse qualquer opinião que não condissesse com a dele.
Já nascido no Brasil, o padre Teodósio K., assim que voltou da Ucrânia — para onde, junto com alguns outros, havia sido enviado para estudar —, foi mandado a Jesuíno Marcondes celebrar a missa do mês. Um homem forte e troncudo, de voz insuperável, quando na Ucrânia dado a se indumentar e se passar por cossaco valente.
Como sempre acontecia na vinda de padre, logo ele foi rodeado de fiéis perto da cerca da obora, estabelecendo uma conversa animada sobre assuntos da igreja e da comunidade. Conversa vai, conversa vem. Ao que o padre dizia, só se reagia com "sim, senhor!". Mas alguém mais opinativo reagiu firme com "não, senhor! Porque isso..., porque aquilo...". A discussão, então, começou a esquentar.
O padre Teodósio, achando que queriam ensiná-lo a rezar o Padre Nosso, ou talvez surpreendido pela rejeição insistente da sua verdade, para botá-lo na linha, pegou o intrigante pelas pernas e congote e o arremessou para o outro lado da cerca. Tal fato inédito e inesperado, de pastor bater em ovelha que berra, perdurou por décadas nas conversas dos fiéis marcondenses, pois ele talvez fosse daqueles que ainda acham que o bom cabrito não berra.
Encomendavam missas, pediam conselhos, queixavam-se da vida, pegavam ou pagavam o jornal Prácia que o padre trazia (não havia correio), e o mais intrigante era para fazer enredo, o que hoje chamam de narrativa, isto é, falar inverdades ou mal da vida alheia. Os outros fiéis, agrupados por perto esperando o início da missa, ficavam olhando de esguelha se entre eles não havia algum vizinho seu encrencado, que ali estava só para falar mal dele para o padre. O padre ouvia e logo mais no sermão da missa aproveitava esses enredos para censurar, advertir e orientar os mal falados, claro, baseado nos preceitos religiosos e sem dizer de quem se tratava, embora não fosse difícil saber quem havia alcaguetado e a quem se referia:
"Quem deixa sua vaca entrar na roça do vizinho..."; "Moça que veste calça..."; "Mulher casada que anda sem lenço na cabeça..."; "O homem que volta bêbado da bodega..."; "Quem não paga o que deve...",
A igreja por fora era de paredes de tábuas sarrafeadas, caiadas de branco, com cobertura e cúpulas de tabuinhas lascadas de pinheiro já escurecidas pelo tempo. Por dentro, nas laterais do presbitério, duas sacristias. A da esquerda era reservada para o padre, coroinhas, paramentos e acessórios litúrgicos. A da direita abrigava o reduto dos stárostas — senhores que faziam parte da comissão da igreja, cuidavam do incenso no turíbulo, acendiam e apagavam as velas do altar, passavam com a coleta por entre o povo, colocavam o ambão para a leitura do evangelho, portavam o andor nas procissões, etc. Faziam isso com o máximo cuidado, sérios e compenetrados.
Não havia iluminação elétrica; os castiçais altos no altar e o lustre central eram de velas. O patamar — acendedor e apagador de velas na igreja — usava um bastão comprido com um pavio e um cone na ponta para alcançar as velas: acendê-las com o pavio e apagá-las com o cone de lata.

O espaço da nave, isto é, do salão, era rigorosamente distribuído: na frente, meninos e meninas — elas à esquerda, eles à direita, pequenos na frente, em fila transversal. Ai se algum ou alguma delas estivesse na igreja, mas em outro lugar. Já vinha uma freira e os levava quase puxados pela orelha para a frente. Lá eles ficavam de pé ou ajoelhados; só sentavam no chão ou no degrau do presbitério durante o sermão.
Na nave, mulheres e moças à esquerda, homens e rapazes adultos à direita, ambos em bancos compridos com genuflexório. As mulheres de lenço amarrado na cabeça, as moças de véu. Os homens com seus chapéus na mão ou no banco, embora colonos, sempre de terno, de preferência azul ou preto. O átrio ou vestíbulo tinha uma importância um tanto curiosa. A mulher que tinha dado à luz jamais poderia ultrapassá-lo sem antes ser purificada. Antes da missa, o padre a purificava lendo do breviário diante dela uma ladainha de orações. Até por isso esse recinto se chamava em ucraniano de babnek, isto é, lugar de mulher.
Começamos a falar de cavalo e acabamos a falar de mulher. Voltemos aos cavalos, nossos guias e personagens no roteiro desta crônica. Finda a missa, formava-se uma fila de carroças, cheias de gente vestida à domingo, tentando pegar a vez de sair da obora e se desfiar em tantos comboios quantas estradas havia para os quadrantes do interior campesino.
Na saída para a rota de Ponte Nova, Visconde de Nácar, Visconde de Guarapuava e Linha Novembro, havia a bodega dos Dvulhatka, que aos domingos, após a missa, atendia pela janela. Gente, principalmente solteiros, a pé ou a cavalo, se apinhava em frente, promovendo algazarras e muitas vezes brigas de embriagados. Já no dia do padroeiro, bebiam na festa, onde vendiam churrasco no espeto, galinha assada, pão d'água chamado de bulka, rifas de coisas diversas, mas a maior atração era o leilão. Do alto de um estrado provisório, um colono dado a leiloeiro, segurando nas mãos um porquinho guinchando, gritava:
— Olhem que porquinho lindo, um Duroc dos grandes! Quanto me dão?
Os bens doados para o leilão chamavam-se prendas. Como tais, havia porcos, cabritos, bezerros, potros, gansos, galinhas vivas e assadas, às vezes até utensílios domésticos.
No Natal e na Páscoa havia a missa do galo, isto é, a da meia-noite. Iam a pé, não se valiam do cavalo. Noites escuras, estradas estreitas, qualquer vulto virava visagem. Adultos acompanhados de crianças, oito quilômetros de Ponte Nova a Marcondes a pé via Visconde de Guarapuava. (Não foi à toa que bem mais tarde construíram uma igreja também em Ponte Nova.) O dia e a noite de Sexta-feira Santa eram de adoração por escala.
São João, um arraial de Firmo Mendes de Queiroz, só se tornou município de Prudentópolis em 1906. Alguns colonos que já haviam sido lá assentados ainda nos anos 1890 plantavam, colhiam, comiam o quanto podiam, mas com o que sobrava não tinha o que fazer. Todos tinham milho, trigo, feijão, porcos, galinhas, ovos..., tudo do seu. Mas dinheiro, nem um patacão. Vender a sobra, só mesmo em Ponta Grossa, longe pra danar. Estradas sinuosas, muito barrentas e ainda perigosas.
De novo, cavalos, para que os tenho? Haida! Para Ponta Grossa! De carroções de duas parelhas, com toldos de lona encerada espichada sobre armação de arcos de timbó lascado ou descascado, com um tampão feito cortina atrás, cheios de produtos da terra. Entre tais tchumakeiros, isto é, carroceiros de longas viagens, não podia faltar alguém de Ponte Nova.

Lá, naqueles anos pioneiros, um deles, por um certo tempo, foi Basílio Melnik. Ia carregado com um pouco de tudo, voltava com de tudo um pouco. Levava produtos do campo, trazia produtos da vila. Sem cavalo, ninguém conseguia ser alguém. O Basílio, então, foi corajoso até demais. Para assistir a um casamento de parente na colônia Calmon de então (hoje Ivaí Calmon), enfrentou sozinho a cavalo estradas e trilhas daquela época de uns 70 km, embora isso tenha acabado custando-lhe a vida. Assim que voltou, morreu de resfriado.
Cavalo, montado ou atrelado, levava quem quer que quisesse a passeio aos domingos, visitar parentes ou compadres distantes — não os havia por perto, era uma só morada por gleba demarcada, normalmente de 10 alqueires. Quando a área de tal gleba terminava um pouco antes de algum rio ou sumidouro, a parte restante, chamada de deixa, ficava por conta do dono da gleba encostada.
A bodega também ficava longe. Havia uma que mais tarde passou às mãos dos Zaias e uma do Kloster. Podia beber à vontade noite adentro: os cavalos de bêbado, montados ou atrelados, conheciam o caminho, levavam direitinho de volta para casa sem serem guiados, tal como em avião com piloto automático.
Por isso nas madrugadas havia muita cantoria rutena nas estradas. Entre tais cantadores, ninguém superava o tal do Snak. Fazia o seu trecho a cavalo, da sua casa na Linha Visconde de Guarapuava, via Serro Azul, até as bodegas, embora fosse ele longo demais — uns oito quilômetros —; mesmo assim, não esgotava o seu vasto repertório ruteno enquanto durava a sua volta. Até por isso não criava canções próprias, como o fizeram os imigrantes rutenos em Rio Azul, no Paraná, satirizando à moda caipira a nova vida em terra estranha, misturando nas canções o caipirês com o ucraniano camponês, ou em Iracema, Santa Catarina, onde um tal de Bodnar, inspirado nas douradas promessas e esperanças de garimpar ouro, inventou uma canção sobre o Brasil, no qual acaba andando sem roupa e tendo apenas feijão-preto para comer.
SERVIÇO: Em Prudentópolis há vários circuitos turísticos, que combinam gastronomia, natureza e fé: o Caminho de São Miguel Arcanjo, de 120 km, é um dos principais. No distrito de Ponte Nova, há o circuito Pinheiro de Pedra, de treze quilômetros. Há outros, para todos os gostos, seja você um sedentário ou caminhante inveterado. Na deslumbrante natureza de Prudentópolis, viaje pela ricas histórias de seus habitantes. Vale a pena.


SOBRE O AUTOR
Emilio Gaudeda é professor, escritor, revisor de textos e um dos mais expressivos tradutores da língua e literatura ucraniana no Brasil. Formado em História e Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), atuou por mais de 30 anos como revisor de textos e docente de Língua Portuguesa e Redação Técnica na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Como figura intelectual de destaque dentro da comunidade eslava no Sul do país, Gaudeda dedica sua vida ao resgate rigoroso e afetuoso da memória histórica, folclórica e humana dos imigrantes ucranianos que povoaram o Paraná. Além de autor de memórias e crônicas regionais como Ponte Nova de Outrora e Heróis Não Morrem, sua contribuição literária inclui traduções marcantes de grandes obras e autores ucranianos contemporâneos e clássicos para o mercado editorial brasileiro.










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