Como Usar IA Sem Perder a Reputação Acadêmica
- LUIS CARLOS EIRAS

- há 4 horas
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Dez lições e um epílogo para o intelectual que deseja usar Inteligência Artificial sem comprometer sua reputação
Como parecer um gênio enquanto terceiriza o trabalho para as IAs
Por Luís Carlos Eiras
A inteligência artificial trouxe um dilema inédito ao mundo intelectual. Durante séculos, o sábio precisava ler milhares de páginas para escrever um ensaio mediano; hoje basta redigir um bom prompt e reclamar que a tecnologia está destruindo a civilização. Convém, portanto, estabelecer algumas regras de comportamento para que o intelectual desfrute dos benefícios da máquina sem parecer que a usa.
1. Nunca admita que usa Inteligência Artificial; apenas denuncie os que a utilizam.
A moral acadêmica exige que o instrumento mais empregado seja também o mais condenado. Sempre que possível, publique um artigo explicando como a IA ameaça o pensamento humano. Redija-o, evidentemente, com a assistência da própria IA, que costuma escrever excelentes manifestos contra si mesma.
2. Faça perguntas tão longas quanto seus antigos artigos.
A máquina aprecia prolixidade quase tanto quanto um professor emérito. Se o prompt tiver menos de duas páginas, corre-se o risco de ela responder rapidamente, privando-o do prazer de acreditar que participou do processo criativo. O ideal é que o comando exija mais esforço do que a resposta.
3. Quando a IA cometer um erro, proclame a falência da tecnologia; quando acertar, atribua o mérito ao seu refinado discernimento.
Assim preserva-se a antiga hierarquia entre homem e ferramenta. O intelecto permanece infalível, enquanto o algoritmo continua sendo uma criança prodigiosa que só presta quando concorda com seu tutor.
A arte de parecer indispensável
4. Jamais aceite a primeira resposta.
Peça vinte versões do mesmo texto até que a vigésima se pareça exatamente com a primeira. Esse ritual não melhora o resultado, mas produz a agradável sensação de que houve um intenso processo intelectual. Nenhuma ideia é realmente sua enquanto não tiver sido rejeitada dezenove vezes.
5. Cite autores que você nunca leu.
A IA recorda passagens de livros esquecidos com uma eficiência ofensiva. Aproveite essa capacidade para ornamentar o texto com referências eruditas e, caso alguém lhe pergunte detalhes sobre determinada obra, responda que sua leitura foi "intertextual". A palavra é suficientemente vaga para encerrar qualquer conversa.
6. Declare que a escrita é um ato profundamente humano.
Faça essa afirmação em conferências, entrevistas e redes sociais. Depois volte discretamente ao computador para pedir à IA que reescreva o discurso em estilo mais elegante, mais conciso e com referências adicionais ao humanismo renascentista.
A preservação do prestígio
7. Nunca economize indignação.
Diga que os estudantes perderam o hábito de pensar porque usam inteligência artificial. Evite mencionar que sua última conferência, seu parecer, sua carta de recomendação e o prefácio do livro foram todos refinados pelo mesmo sistema. A coerência é uma virtude admirável, mas raramente compatível com a produtividade.
8. Sempre introduza pequenos defeitos no texto final.
Um leve erro de concordância, uma vírgula extravagante ou um adjetivo excessivo tranquilizam o leitor. A perfeição desperta suspeitas; a imperfeição cuidadosamente planejada continua sendo o selo de autenticidade mais barato do mercado.
9. Insista em dizer que a IA jamais substituirá os grandes intelectuais.
A máquina, afinal, não frequenta congressos, não disputa verbas de pesquisa e não participa de intermináveis mesas-redondas sobre o futuro da criatividade. Acrescente, com ar professoral, que ela "não entende contexto", embora o famoso artigo Attention Is All You Need tenha tornado o contexto o centro da arquitetura dos modelos modernos de linguagem, auxiliado, entre outras engenharias, pelas codificações posicionais baseadas em seno e cosseno. Não importa: sempre haverá quem confunda processar contexto com compreendê-lo, e é precisamente nessa confusão que o intelectual prudente continuará vivendo. Há formas de inteligência que permanecem exclusivamente humanas, sobretudo aquelas que produzem relatórios de cinquenta páginas para justificar reuniões de duas horas.
10. Não seja vulgar: jamais use a inteligência artificial que todos estão usando.
Há uma indignidade quase plebeia em empregar a mesma ferramenta que estudantes, advogados e tios no WhatsApp. Visite o Hugging Face, onde repousam hoje 2,9 milhões de modelos de IA esperando apenas um usuário suficientemente pretensioso para descobri-los. Escolha sempre o mais obscuro, de preferência desenvolvido por um pesquisador finlandês às três horas da manhã, especializado em traduzir inscrições hititas para latim medieval. Ainda que produza respostas absolutamente incompreensíveis, você poderá declarar, com um discreto sorriso de superioridade, que as IAs comerciais são "boas para iniciantes", enquanto a sua exige um leitor intelectualmente preparado para apreciar seus erros.
Epílogo para tempos automatizados
11. Por fim, lembre-se de agradecer à inteligência artificial apenas em pensamento.
Nos agradecimentos do livro, mencione colegas, familiares, o cafezinho e até o cachorro do laboratório, mas jamais o algoritmo que lhe poupou semanas de trabalho. A posteridade aprecia a imagem do gênio solitário. E seria uma pena estragar uma tradição tão venerável justamente agora que ela se tornou completamente desnecessária.

SOBRE O AUTOR
Luis Carlos Eiras nasceu em Cambuí, sul de Minas, em 1950. É Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Autor de O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana que estão à venda na Amazon.










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