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O Olhar do Outono: A Jornada do Rio

28 de jul.
6 min de leitura

Atualizado: 20 de ago.

Visão interna ampla da sala de concertos da Capela Santa Maria em Curitiba. O espaço possui teto decorado com afrescos claros, galerias e camarotes laterais em madeira escura estruturados em dois andares, fileiras de poltronas estofadas voltadas para um palco ao fundo com cortinas pretas e iluminação cênica quente.
O palco histórico da Capela Santa Maria, em Curitiba: cenário que acolheu a união entre a ciência médica e a sensibilidade poética. (Foto: Divulgação/Fundação Cultural de Curitiba)
Nota do Editor: Sob as luzes da Capela Santa Maria, em Curitiba, o lançamento do livro “A Escolha é Sua”, dos médicos Hamilton Moreira e André Romano, destacou-se pela performance do médico Gerson Zafalon, que dançou ao som de Impossible Dream, cantado por Frank Sinatra, com a atriz Pagu, em cena concebida pela produtora Júlia Cipolla e embalada pelo DJ Leo Franco. Após a abertura teatral, Zafalon assumiu o microfone para defender a medicina humanista e a beleza do envelhecer. Discursos, normalmente chatésimos, na linguagem poética e culta de Zafalon se transformam em uma jornada que vale a pena percorrer. Como a vida.


O Olhar do Outono: A Jornada do Rio


Gerson Zafalon


Lembro que por ocasião da cerimônia de formaturas dos residentes de oftalmologia da instituição Médicos de Olhos, disse ao Dr. Hamilton:


- Por que não fazer um capítulo sobre o “Olhar” num livro técnico?” 


Não só o livro foi editado, como também propiciou esta peça de teatro e, surpreso, me honrou com o convite para dela participar. Grato, prezado amigo Hamilton.


Kierkegaard, filósofo dinamarquês, diz, que "a pessoa que fala sobre a vida humana, que muda com o decorrer dos anos, deve ter o cuidado de declarar a sua própria idade aos seus ouvintes". Como escreveu Rubem Alves, ele “sabia o que os oftalmologistas não sabem: com a idade, os olhos não ficam mais fracos. Eles ficam diferentes. Sob a luz do sol a pino eles veem coisas luminosas. Sob a luz do crepúsculo eles começam a ver as criaturas delicadas que não suportam luz em excesso”.


A maturidade muda o olhar, o tempo não é apenas um relógio passando; ele altera a forma como sentimos, sofremos e interpretamos o mundo. Um jovem e um idoso veem a mesma luz, mas absorvem e compreendem essa luz de maneiras radicalmente diferentes.


Dito isso, tenho 81 anos, 8 meses e 1 semana.


O livro “A Escolha é Sua”, de Hamilton Moreira, André Romano e colaboradores, é um tratado sobre lente intraocular... que me levou às Cataratas do Iguaçu.


Como? Imagino os presentes surpresos exclamarem! Não se preocupem... esse velhinho aqui não pirou.


Das nascentes — olhos d’água — na borda ocidental da serra do Mar, o rio Iguaçu vai crescendo com percalços, por cerca de mil quilômetros, para maravilhar o mundo com suas volumosas e impressionantes quedas d’água: as Cataratas do Iguaçu.


Cataratas... de águas doces... e de olhos. Lente intraocular. L.I.O.


Lá no fundo... Identifiquei o... Outono!


Na frente da jovem oftalmologista... a velhice em sua plenitude. 

As cataratas da velha paciente esmaeciam a cor e a luz do curso da sua vida. Num desafio, quase juvenil, com o oftalmoscópio na mão, ela pensou:


Lá no fundo... Identifiquei o... Outono!


E, num arroubo poético, a LIO transformou-se em: Lá no fundo Identifiquei Outra estação... a Primavera.


Vamos rememorar? Trazer de volta as memórias do rio da sua vida?



A médica lembrou do filósofo escritor Rubem Alves, autor do livro “O Velho que Acordou Menino”, e depois de um longo diálogo humanista, compreendeu que o objetivo da indicação da lente não era apenas curar a visão, mas fazer com que o paciente enxergasse a beleza outonal da velhice através das lembranças e das memórias... pedaços de nós mesmos, da vida vivida. O reencontro com o passado.



Que ele chegasse nas nascentes, nos olhos d’água da sua vida, e agora, quase no final dela, encontrasse uma nova catarata: translúcida, barulhenta, vigorosa, amorosa. Desejava que recordasse o que outro poeta, Manoel de Barros, viveu: “o meu quintal é maior do que o mundo”. Lembranças da bola de meia, a boneca de pano, o bambolê, as árvores frutíferas.


A médica proporcionou à velha paciente, que amava poesias e músicas, lembranças que refletem sobre o tempo, o envelhecimento e o estranhamento diante da própria imagem do passado, capturando a melancolia de não se reconhecer mais na pessoa que um dia fomos.


A velhice vê sua imagem no espelho e, por um segundo, hesita. “Quem é essa... que me olha de tão longe... com olhos que foram meus?” O reflexo devolve o rosto de uma velha, uma estranha que carrega as marcas, mas que mal lembra a moça que um dia foi. A velhice tem disso: transforma a nossa própria imagem em um território estrangeiro e eivado de melancolia.


A médica, sabendo do prazer da senhora pela poesia e modas de viola, trouxe de volta as correntes que moldaram a sua vida. Afinal, a nossa existência é como o curso de um rio.



Tudo começou no remanso das primeiras paixões, aquelas que cortam o peito e deixam cicatrizes profundas na juventude.

“Lá vai uma chalana, bem longe se vai... Navegando no remanso do Rio Paraguai...” 

Ouvir esses versos é navegar de volta à perda e à dor daquele primeiro amor juvenil, que partiu na correnteza e nunca mais voltou.


O desgosto era tanto que ela quase conseguia ver a dor transbordar:

“O Rio de Piracicaba vai jogar água pra fora quando chegar a água dos olhos de alguém que chora...” 

Um lamento chorado por um grande amor que se perdeu nas curvas do tempo.


Depois da tempestade, o rio da vida encontra a calmaria e as margens certas para fincar raízes.


“Os seus olhos são espelhos d’água...” ...“Que bom ser fotografadopelas retinas desses olhos lindos”...

Foi a lembrança exata que veio dele, o namorado dos seus dias dourados. Dali para a frente, o curso das águas só ganhou força:


“São as águas de março fechando o verão... É a promessa de vida no teu coração”.

O noivado, anúncio de um recomeço, a promessa de um futuro a dois que se desenhava sob o sol de março.


E então, o ápice da jornada:


“Foi um rio que passou em minha vida... E meu coração se deixou levar...” 

A memória exata do casamento, o dia em que se entregou completamente àquela correnteza mansa.



“O tempo é como o rio...” Não para, não recua. Viu as águas correrem céleres enquanto os filhos cresciam e, num piscar de olhos, os netos começavam a surgir, como novas fontes que brotam na cabeceira.


Hoje, resta o silêncio do leito vazio. Vivencia a saudade do companheiro, que já partiu para o oceano infinito antes dela. Olha para trás e vê que toda a sua história foi escrita com a força e a fluidez das águas.


A despedida não foi melancólica: a velha paciente possibilitou à jovem médica a oportunidade de nunca mais ver uma catarata sem possibilidade de revitalização e de esperança.


A velhice, como escreveu o amigo Hamilton, não é “algo a ser combatido, disfarçado ou negado”, mas, como disse Simone de Beauvoir: “O envelhecer tem uma dimensão existencial como todas as situações humanas: modifica a relação do homem no tempo e, portanto, seu relacionamento com o mundo e com sua própria história.”


“Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música”... um dos ditos do Rubem Alves.


A jovem oftalmologista não só entendeu, como mostrou à velha paciente, que a jornada não foi em vão: ela nos transforma o suficiente para que possamos enxergar nossa essência, ou nossa casa, com um olhar totalmente novo. Ela pôs em prática o que o poeta T.S. Eliot disse:

“Não cessaremos de explorar. E o fim de toda a nossa exploração será chegar ao ponto de partida... e conhecer o lugar pela primeira vez.”

 

Encerrando, sou grato aos queridos poetas, escritores e músicos que, olho no olho, revigoraram memórias na nossa conversa de hoje: Rubem Alves, Kierkegaard, Manoel de Barros, Helena Kolody, Simone de Beauvoir, T.S. Eliot, Patrícia Marx e Seu Jorge, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Maria Bethânia, Mário Zan e Arlindo Pinto, Lourival dos Santos, Martinho da Vila.



Foto em close da capa do livro "A Escolha é Sua", de autoria dos médicos Hamilton Moreira e André Romano. A capa traz o título principal em destaque com letras elegantes, acompanhado do subtítulo sobre o Método Seis Estrelas para lentes intraoculares, exibindo um design gráfico limpo, moderno e profissional focado na área de oftalmologia.

A Obra: A Escolha é Sua

O texto acima integrou a apresentação artística de lançamento do livro "A Escolha é Sua: Método Seis Estrelas para a escolha da lente intraocular", de autoria do Dr. Hamilton Moreira e Dr. André Romano, com prefácio do Dr. Rubens Belfort. Unindo ciência, tecnologia e humanismo, a obra funciona como um guia prático para auxiliar oftalmologistas na tomada de decisões precisas e personalizadas sobre implantes de lentes intraoculares, abordando temas que vão desde a inteligência artificial até o envelhecimento humano. 




Retrato em plano médio do médico e cronista Dr. Gerson Zafalon. Ele aparece sorrindo de forma acolhedora, vestindo trajes formais adequados ao seu perfil de palestrante e humanista, posando em um ambiente bem iluminado com fundo suavemente desfocado.

Gerson Zafalon é médico pneumologista e perito judicial. Com uma longa trajetória dedicada à medicina e às causas médicas, colabora com ensaios e discursos literários que exploram a intersecção entre a ciência, a maturidade e a arte da existência. (Retificado em 20/08/2026, por ter constado erroneamente que sua especialidade era oftalmologia).

Leia também no dialeticos.com: O Olhar Eterno (Ensaio por Gerson Zafalon).

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