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VARÕES DE PLUTARCO

Machos de antanho, canetas tinteiro, radinhos de pilha e outras bagaças


Quem usa esta expressão hoje em dia? Acho que se a mencionarmos, para jovens de menos de 50 anos (...?), muito provavelmente eles vão associá-la com machos bem dotados. É, lá se vão os tempos em que se usava esta e outras expressões; juntaram-se ao cemitério onde estão as sessões corridas nos cinemas (às duas, quatro, seis, oito e dez horas), os carroções de colonos descendo a Rua Nilo Peçanha em direção ao centro da cidade (ao Largo da Ordem, onde está o bebedouro), o sabonete Lever, usado por nove entre dez estrelas de cinema, o gramofone, a caneta tinteiro e o radinho de pilha. Outras noções antigas se enterraram neste cemitério: o otimismo do “Brasil, país do futuro”; “Brasil, onde se plantando tudo dá”, o “por que me ufano do meus país“ (também perdido neste cemitério o meu exemplar do Conde de Afonso Celso), o samba exaltação, a escola risonha e franca.


Esta escola risonha e franca de grupos escolares, ginásios e cursos clássicos e científicos foi obra de um desses varões de Plutarco de antanho (outra palavra que se perdeu no cemitério), o ministro Gustavo Capanema, autor da reforma educacional nos anos de Getúlio Vargas, este, também, um varão de Plutarco, talvez o brasileiro mais próximo a se assemelhar àqueles nobres romanos e gregos. Antes que os antigetulistas comecem a jogar paus e pedras, acrescento que, como nas Vidas, sua nêmesis, Carlos Lacerda, a meu ver, também é merecedor do título. Lá se vão quase oitenta anos da reforma Capanema (de 1942), sistema educacional que foi finalmente liquidado pelo regime militar, no início dos anos 1970. Mais uma bagaça no cemitério de inutilidades.


Nas Vidas, Plutarco retratou em paralelo as biografias de grandes personagens romanos e gregos (por isso o título pelo qual é normalmente conhecido, Vidas Paralelas). Devo confessar também que, preguiçoso, não as li todas, mas li e reli algumas, como as de Júlio César, Antônio, Bruto, motivado pela riqueza dramática das narrativas– aliás, sempre aproveitada na dramaturgia - Shakespeare, em Júlio Cesar, praticamente se limitou a encenar a narrativa de Plutarco - e pelo cinema. Não há mistério algum. Basta pegar as histórias de Plutarco e você terá sempre um filme cheio de ação, romance, sexo (em todas as suas variantes), traição, fidelidade, honra, amor à pátria, grandeza e mesquinharia – tudo - bastando destacar um ou outro aspecto, conforme o interesse do cineasta ou o talento de seus atores e atrizes. Sucesso garantido junto ao público, Shakespeare que o diga.


Galinha ao molho pardo – adeus. Substituído por nuggets da Sadia. Junte-se ao velho Plutarco. Memória – para que memória, se tudo está disponível a dois toques no Iphone ou Ipad, na infalível nuvem? Às tamancas a memória. A lista seria infindável. Para nós, curitibanos, ou curitibanos por adoção, como é o meu caso, não há perca maior que as balas Zequinha. Infelizmente, as figurinhas surrealistas do velho Zequinha estão sendo trocadas junto com os gibis na sessão das 2 horas do falecido Cine Curitiba, das sessões duplas a preço de banana, ali na Rua Voluntários da Pátria.


Em desuso, também, o cafezinho na Boca Maldita. Neste caso, a pandemia só acelerou um processo em curso em marcha acelerada. Como disse o engraxate, certo dia, “não tá tendo reposição”. Os velhos frequentadores se vão ao famoso cemitério de elefantes dos gibis do Tarzan e os jovens não se dão ao trabalho de bater boca ao vivo na Boca Maldita. O bate-boca hoje é virtual, se faz no Whatsapp ou no Twiter. Pescar lambaris no Rio Belém, como me contou um amigo, que trabalhava no Palácio Iguaçu e pescava no rio ao lado na hora do almoço: adeus lambaris, adeus pescarias. Aliás, adeus, amigo, que sejam boas as pescarias, onde quer que você esteja.


E, no entanto... Ouço pela janela, do meu 14º andar, uma briga de bêbados no bar da esquina, aos berros. O bar insiste em abrir e colocar mesas de plástico na calçada, às favas a pandemia, os cuidados. Se, como diz o presidente Trump, desinfetante é bom para o coronavírus, então a cerveja e a cachaça melhor serão, mesmo porque todos sabem, é um mata-bicho. Nosso homeless de estimação, habitué da quadra, continua firme e forte. Não é a senadora Elizabeth Warren, mas persiste. Persistem também, os moradores de rua que fazem ponto na Rua XV de Novembro com a Mariano Torres, em frente ao supermercado, junto com seus três incansáveis cães. Fizeram bem, rapazes, os cães são seus melhores amigos, neste mundo pouco amigável. Escondido pelo asfalto da Rua Mariano Torres, o Rio Belém continua a pulsar, fazendo-se lembrar, fétido, nos dias de verão. Sujo, cheio de ratos e entulhos, quase morto, mas está lá, dirigindo-se, como sempre fez, em direção ao Rio Iguaçu. Ele aguarda, silencioso, o momento em que a civilidade o reapresentará às futuras gerações. Vivo.


Getúlio, de Lira Neto (Companhia das Letras), em três volumes, começa cinematograficamente e termina como um grande drama, com trilha sonora de um dos maiores discursos da história do Brasil. O homem era letrado (como César). Lê-se como um romance de aventuras de tirar o fôlego. Tempos de Capanema, de Simon Schwartzman, Helena Maria Bousquet Bomeny e Vanda Maria Ribeiro Costa, da Editora Paz e Terra e Editora FGV: neste livro você se dará conta de quão liliputianos são os personagens que pululam na educação brasileira hoje. Na Amazon Books você encontra edições Kindle das Vidas em vários idiomas. Diversão garantida por alguns poucos dólares. De quebra, nunca mais vai se preocupar com os simulacros de vida que se arrastam por Brasília. Se você quiser uma caneta tinteiro, o site Ali Express vende barato razoáveis imitações da Parker 51. Outro simulacro. Balas Zequinha, nunca mais.

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