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VINHAS DA IRA

Atualizado: 11 de mar. de 2023


As grandes vinícolas de Bento Gonçalves azedam o vinho.



Imagem de Epagri

Num país escandalizado com tantos escândalos, surge o escândalo de Bento Gonçalves. Uma empresa terceirizada trazia trabalhadores da Bahia para atividades de colheita de uva para a Vinícola Garibaldi, Salton e Aurora. Duzentos trabalhadores foram resgatados em condições assemelhadas a trabalho escravo. O noticiário é horripilante. Alojamentos precários, compras em lojas a preços superfaturados, dívidas a juros escorchantes, jornadas de trabalho exaustivas, e segue o rol de atrocidades.

Adicionando insulto à injúria, a Associação Industrial de Bento Gonçalves culpou a falta de mão de obra na região aos programas assistencialistas – ou seja, ao Bolsa Família. Um vereador ensandecido (de Caxias, não de Bento Gonçalves) acusou os baianos de serem “tocadores de tambor”.


Como tudo que acontece no país, a questão descambou para a arena política. Alguns culparam a reforma trabalhista do Temer, outros resgataram fotos do vereador com Bolsonaro e lembraram que 70% dos eleitores da região votaram nele, inclusive a dirigente da entidade empresarial que culpou o Bolsa Família pela importação de mão de obra. Felizmente, o governador Eduardo Leite reagiu prontamente, repudiando a prática. Aliás, um Estado que tem Lupicínio Rodrigues (negro) e cultua o Negrinho do Pastoreio não pode ser identificado como racista.


E as empresas vinícolas? Trata-se de um setor ultramoderno da economia brasileira. O ramo, para ser competitivo, exige inserção e parâmetros internacionais do produto e em sua confecção. A Aurora (faturou um bilhão no ano passado) anuncia vender para mais de 21 países. A Salton (quinhentos milhões em 2022) é uma empresa centenária. Quem ficou pior na fita foi a Garibaldi (duzentos milhões de faturamento anual), cujo diretor de marketing (espanto!) foi às redes para dizer que as denúncias eram “lacração” e não se deu ao trabalho de pedir desculpas aos trabalhadores e à sociedade. Todas se justificaram alegando que os empregados eram terceirizados e nada sabiam das condições de trabalho.

As notícias dão conta que a taxa de desemprego em Bento Gonçalves está em 1%, contrastando com a brasileira, que está em torno de 10%. A região é um oásis de desenvolvimento e de pleno emprego, em boa parte devido à indústria vinícola. Ou seja, para que haja colheita, a mão de obra recrutada na Bahia e em outros lugares é indispensável.

Bento Gonçalves - Imagem de Viagens e Caminhos.



O que me choca em toda a história é o contraste entre a modernidade da indústria vinícola e a empedernida rusticidade de alguns dirigentes empresariais. Diante de uma crise gravíssima, eles, burocraticamente, publicaram anônimas notas oficiais. Não foi a primeira vez que vimos este contraste, e, suponho, não será a última. Alguns empresários “modernos” tratam a modernidade como uma mera questão de marketing. E o marketing apenas como uma camada cosmética destinada a encobrir uma mentalidade atrasada, quando não francamente nazista. Quando pilhados em uma malfeitoria, escondem-se no anonimato.


Ora, a terceirização no Brasil é um fenômeno consolidado, tanto sob o aspecto empresarial quanto legal. Os tribunais (inclusive o Supremo Tribunal) têm uma vasta jurisprudência sobre o tema. E, naturalmente, a responsabilidade sobre os empregados terceirizados é da empresa que se beneficia do seu trabalho (no rapapé jurídico: “responsabilidade subsidiária”). Alegar que não eram seus empregados não exime a empresa tomadora dos serviços de responder por eventuais danos.

Assim, a Aurora, a Garibaldi e a Salton – e outras vinícolas que utilizaram a mão de obra escravizada – deverão pagar as indenizações devidas, se a empresa que os contratou não o fizer. Nenhuma novidade nisso. Na realidade, os terceirizados gozam de uma dupla garantia: a da empresa que os contratou, e das empresas para quem trabalharam. Não adianta dizer que não sabiam.

Mas este preço jurídico não se compara ao preço mercadológico que as empresas pagarão, bem como a cidade de Bento Gonçalves, a indústria vinícola gaúcha e o próprio Brasil, que ainda percorre os primeiros passos na busca do reconhecimento internacional de seus vinhos. Um longo caminho já percorrido, desde que os primeiros italianos ali se instalaram, em busca de uma vida melhor (eles eram os baianos do século XIX), da noite para o dia voltou várias casas no jogo.


Torcemos para que os vinhos gaúchos se recuperem e possamos bebê-lo, sem culpa.



As histórias coletadas pelos jornais nos lembram em tudo o grande romance americano, de John Steinbeck, publicado em 1939, As Vinhas da Ira (que deu origem a um grande filme de John Ford). Nele, agricultores pobres dirigiam-se para a California, atraídos pela promessa de trabalho na colheita de laranjas e uvas. Em uma pobreza extrema, eram estigmatizados como “okies” (de Oklahoma, de onde muitos saíam em busca de trabalho). Aqui, são chamados de “baianos” e tocadores de tambor. Frutos da grande depressão dos anos 30, o sofrimento destas pessoas deu origem a um grande livro e a um grande filme, além de ter gerado um Prêmio Nobel ao seu autor.


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