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Acrofobia

Uma ilustração vibrante e detalhada em estilo de conto de fadas, com uma composição equilibrada e uma paleta de cores ricas. No centro, uma araucária majestosa e estilizada ergue-se no meio de uma praça da aldeia, com suas ramificações em espiral e folhas em forma de agulha. À esquerda, uma charmosa casa de enxaimel com telhado de palha e uma pequena varanda. À direita, outra casa de enxaimel com telhado de telhas e uma pequena loja no térreo. O jardim em primeiro plano está repleto de flores coloridas, como hortênsias, rosas e dedaleiras. A rua da aldeia é de paralelepípedos e tem um poste de luz rústico com uma lanterna acesa. No fundo, casas de enxaimel e uma torre de castelo, sob um céu azul claro com nuvens fofas e uma lua crescente. O estilo é acolhedor, mágico e cheio de detalhes, como um livro de contos de fadas medieval.

Acrofobia


Por Marinho Bastos


O pardal nasceu com o céu nos olhos e um abismo no peito.

Desde filhote, enquanto os irmãos se lançavam do galho com a audácia de quem confia no mundo, ele tremia. O vento, para ele, não era um convite, mas um sussurro perigoso. A altura não significava liberdade: era um poço aberto, vertical e faminto. Seu coração batia como asas presas em uma gaiola de ossos.


— Voa — dizia a mãe, com ternura. — O céu é a nossa casa.


Mas para ele, o céu era apenas um precipício invertido, infinito e sem chão.


Cresceu à margem do bando: saltinhos tímidos, voos curtos de galho em galho e aterrissagens aflitas. As outras aves riam com um carinho cruel. “Um pássaro com medo de altura?”, zombavam, os cantos ecoando pelas copas. Ele fingia procurar sementes no solo para não ouvir, mas o medo pesava em suas asas mais do que o chumbo.


Até que, em uma tarde de inverno, uma tempestade violenta rasgou o bosque. O galho grosso onde ele se escondia estalou e cedeu. Não houve tempo para o ensaio, a escolha ou a coragem: restou apenas a queda livre.


E, no vácuo da queda, a física do medo mudou.


O pânico paralisante abriu espaço para o puro instinto de sobrevivência. Suas asas se estenderam primeiro por reflexo, depois por pura decisão. O vento cortante deixou de ser um inimigo e virou braço, um suporte invisível. O abismo, de repente, transformou-se em caminho.


Ele não voava bonito; voava necessário, rasgando a chuva com fúria.


Quando finalmente pousou em solo firme, encharcado e tremendo, percebeu a grande verdade: o medo não tinha ido embora. Continuava ali, respirando junto com ele sob as penas do peito. Mas agora havia algo maior: a memória muscular do ar sustentando seu corpo.


Na manhã seguinte, com o céu limpo, ele subiu calmamente ao galho mais alto que conseguiu suportar. O coração martelava contra as costelas. O horizonte parecia imenso, assustador e belo.

Ele fechou os olhos, respirou o vento e saltou.


Não porque o medo tivesse sumido, mas porque finalmente compreendeu que até o medo, se bem moldado, pode ter asas.



Foto colorida do escritor Mario Luiz Bastos, de terno e gravata, usando óculos, olhando para a camara.

Mário Luiz Bastos (Marinho) é colaborador do dialeticos.com, personagem notório das madrugadas curitibanas, dedicado a escrever crônicas e contos entre copos e discussões de balcão. Sócio fundador do Clube dos Canalhas — situado entre o Paraná Clube e o Athletico Paranaense —, em uma outra encarnação teria atuado como psicólogo na Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Suas reflexões etílico-filosóficas têm como refúgio habitual as mesas do Bar Anga.

1 comentário


Caio Brandao
há 3 horas

Excelente inspiração do medo que descobre poder voar . É libertador.

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