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No BAR ANGA com Sigmund Freud

Marinho Bastos conversando e rindo com Sigmund Freud em uma mesa clássica do Bar Anga, com copos de cerveja, petiscos e ambiente acolhedor de boteco.

No BAR ANGA com Sigmund Freud

Por Marinho Bastos


Sexta-feira. O sorriso está no rosto, mas a alma já pediu demissão faz tempo. Desço a escadaria da Secretaria de Educação saltitando de felicidade. Passo o cartão, encho os pulmões e solto um suspiro que quase desintegra meu cérebro.


Paro em frente à praça feito estátua. Onde estacionei o Fusca?


Não é Alzheimer. É um desligamento que carrego desde sempre. Não é a primeira vez, nem será a última. Aprendi a conviver com meus fantasmas. Afinal, lidar com eles também é uma forma de autoconhecimento.


Vou perambulando pelas ruas próximas até que o encontro.

Lá estava a joia. Até parecia sorrir do meu esquecimento.

Entro no Fusca e tento dar a partida. A princípio ele regateia, mas logo o motor desperta. Música para meu aparelho auditivo.


Avisei à Italiana que iria direto para o BAR ANGA. Admito certa inquietude. O convidado daquela noite era homem de grande distinção.

Curitiba marcava nove graus. Um frio que não incomoda: apenas corta a alma.


Estacionei. Bambu Albino veio ao meu encontro. Seu figurino oficial estava em modo esquimó. Como sempre, disse para eu não me preocupar: a joia estaria bem cuidada.


Fachada noturna e retrô do Bar Anga em uma esquina de paralelepípedos, com vitrais coloridos e mesas com cadeiras na calçada sob a luz de um poste antigo.

Entrei no BAR ANGA como quem entra num abrigo. O coração sossegou.

Cumprimentei o Sr. Edu e pedi ao Flash Gordon a caipirinha de sempre. Sentei-me à mesa costumeira, estrategicamente posicionada. Dali eu via quem chegava, ouvia o samba e organizava as perguntas que faria ao convidado.


O primeiro gole desceu queimando, declarando guerra às partes congeladas do meu corpo. Aos poucos, a vida retornou às extremidades.

O bar enchia. O samba animava os desanimados. A noite cumpria seu papel.


Foi quando vi Sigmund Freud entrar.


Chapéu, sobretudo, cachecol e luvas. Todo um aparato para enfrentar o inverno curitibano. Caminhava devagar, com a elegância de quem nunca teve pressa de parecer jovem.


Acenei.


Ele retribuiu com um leve sorriso e veio até mim, desviando das mesas. Apertamos as mãos e nos abraçamos.


Tirou o chapéu, revelando os cabelos grisalhos, pendurou o sobretudo no encosto da cadeira e sentou-se. O terno preto, de corte inglês, parecia alheio ao bar, mas não deslocado. Limpou os óculos com um guardanapo e me encarou com serenidade.


— Como vai a vida, Sig?


Ele sorriu antes de responder.


— Meu caro Marinho... continuo preferindo os bares aos consultórios quando o assunto é existir. Aqui, pelo menos, o inconsciente fala sem pedir licença.


Chamei Flash Gordon.


— Cerveja para o meu amigo. E alguns petiscos para beliscar. Pensar com fome costuma dar maus resultados.


Flash Gordon saiu resmungando baixinho.


Que se inicie a terapia!


Close em mesa rústica de madeira no Bar Anga com um copo de cerveja gelada suando, porções de azeitonas verdes, amendoins, guardanapo de papel e vitrais ao fundo.

— O álcool — disse Freud — tem a vantagem de suspender o superego por algumas horas. Não resolve nada, mas revela muita coisa.

Brindamos.


— Saúde. Que a fonte nunca nos falte...


— Saúde. E que não nos falte lucidez...


Observou o ambiente como quem analisa um sonho.


— Curioso como as pessoas acreditam que vêm ao bar para esquecer. Na verdade, vêm para lembrar daquilo que evitam durante o dia.


— Ato falho coletivo?


— Exatamente. Aqui ninguém tropeça por acaso. O erro quase sempre é sincero.


— O inconsciente não quer ser explicado — disse ele. — Quer ser escutado. O problema é que quase ninguém suporta ouvir o que ele tem a dizer.


— E quando escuta?


— Entra o ego, tentando negociar. E o superego, punindo. É um teatro permanente.


Ficamos alguns segundos em silêncio. O samba seguia. Uma mulher dançava perto do balcão, completamente alheia a qualquer teoria.


— Você leu Quando Nietzsche Chorou?


Freud inclinou levemente a cabeça.


— Um belo exercício de imaginação. Nietzsche nunca foi meu paciente, mas poderia ter sido. Alguns homens transformam a inteligência na forma mais sofisticada de esconder a própria dor.


— E chorou?


Freud sorriu.


— Quem pensa demais acaba chorando, Marinho. Alguns apenas escolhem lugares onde ninguém perceba.


A cerveja diminuía na garrafa. A conversa crescia. Olhei para Sig. Havia uma pergunta que eu guardava fazia algum tempo. Resolvi colocar uma pequena farpa na mesa.


— Sig, Simone de Beauvoir não engoliu muito bem essa sua história de inveja do pênis.


Freud pousou o copo.


— Imagino.


— Em O Segundo Sexo, ela praticamente lhe entrega a conta.


Ele sorriu.


— E você pretende que eu pague?


— Você é meu convidado. A do bar eu pago. Essa é sua.


Freud riu, mas demorou alguns segundos antes de responder.


— Talvez Beauvoir tenha percebido algo que nós, homens do meu tempo, não conseguíamos enxergar por inteiro. Mas não jogue minha teoria pela janela tão depressa. O inconsciente também tem seus argumentos.


— Então ela está errada?


— Não disse isso.


— E você está certo?


Freud levou o copo à boca.


— Também não disse isso.


Bebeu lentamente.


— Algumas perguntas ficam melhores quando ninguém consegue vencê-las.


Vista do Bar Anga, a partir do balcão, com várias mesas ocupadas por fregueses.

Despejei cerveja nos copos. Sig espetou uma azeitona e levou-a à boca. Fiquei observando aquele homem por alguns segundos. À minha frente estava uma das mentes mais inquietas da história. Definitivamente, um homem fora da curva.


— Seu gosto por piadas e anedotas, Sig...


— Percebo que você foi fundo na minha biografia. Com sua permissão, vou contar uma.


Ajeitou-se na cadeira.


— Um judeu comprou um cavalo e resolveu economizar, acostumando o animal a comer cada vez menos. Todos os dias diminuía a ração. Quando finalmente o cavalo aprendeu a passar o dia inteiro sem comer, o dono chegou ao estábulo e o encontrou morto. Olhou para o animal e lamentou: “Que azar! Logo agora que ele tinha aprendido a viver sem comer...”


Olhei para Freud.


— Sig, essa foi tão ruim que quase ficou boa.


— Chamo de absurdo cômico.


— Sig, era para ser uma anedota!


— E é. O problema é que, comigo, tudo termina em análise.


Rimos.

Brindamos novamente.


— Saúde. A fonte que nunca nos falte...


— Saúde. E coragem para continuar.


Freud tomou um gole e me olhou.


— Marinho, você é a única pessoa que me chama de Sig. Acho maravilhoso!


— É porque tenho RG.


Franziu a testa.


— RG? O que é RG?


— Rola Grossa!


Por alguns segundos, dois homens adultos, um deles fundador da psicanálise, riram como crianças da quinta série.

Já perto do fim da noite, chamei Flash Gordon e pedi a conta.


— Você é meu convidado. Além disso, este bar não aceita moeda estrangeira.


Freud levantou-se, vestiu o sobretudo e me abraçou.


— Marinho, às vezes passamos a vida inteira procurando um sentido quando, no máximo, encontramos algum alívio.


Antes de sair, colocou um papel dobrado em minha mão.


— Leia depois.


Acompanhei-o até a porta. Vi Sigmund Freud desaparecer na neblina curitibana, acompanhado por uma mulher que não parecia preocupada nem com o frio nem com teorias.


Dentro do Fusca, acendi a luz de cortesia e abri o papel.

Estava escrito:

“Às vezes, um charuto é apenas um charuto.”

Sorri.

Liguei o motor.

Algumas conversas não terminam.

Apenas ficam esperando a próxima sexta-feira no BAR ANGA.



Sobre o Autor

Retrato de Marinho Bastos, autor da crônica "No BAR ANGA com Sigmund Freud" para o Dialéticos.

Mario Luiz Bastos

Marinho Bastos é um escritor. Em outra encarnação foi funcionário público e psicólogo. Em todas as vidas que viveu foi um crente nas virtudes terapêuticas do chá de flores de hibisco, acompanhado de finos biscoitos amanteigados. Chin Chin.

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