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NO TERREIRO, DE CAPA, TRIDENTE E COM CHARUTO ACESO NA BOCA  

Ilustração em estilo dramático de um ritual em terreiro de Quimbanda: pessoa de capa vermelha segurando tridente e fumando charuto em meio à fumaça e penumbra litúrgica.

NO TERREIRO, DE CAPA, TRIDENTE E COM CHARUTO ACESO NA BOCA  


Caio Brandão


A espiritualidade sempre bateu à minha porta — e, não raro, bateu com força.  


Aos nove anos, assisti, em família, a parte de uma sessão de materialização realizada por médiuns de rara e elevada sensibilidade, que expeliam ectoplasma abundante pela boca, pelos poros, pelo nariz e pelos ouvidos. Esse fluido etéreo apresentava-se, sob a ótica da matéria, como uma geleia viscosa e semilíquida. Minha presença na sessão foi rápida e acidental, mas suficiente para me acarretar um marcante, embora passageiro, transtorno psicológico. O impacto maior veio ao ver a cabeça de um espírito materializada sobre a mesa, de onde, pausadamente e com voz arrastada, a entidade conversava com os presentes.  


Dizia-se que eventos dessa natureza eram raros à época e que, nos dias atuais, seriam ainda mais difíceis, dada a escassez de médiuns considerados capazes de produzi-los.  


Mas não parei por aí.  


Na adolescência, convivi com o famoso médium Zé Arigó por intermédio de uma prima, Marci Brandão, que mantinha com José Pedro de Freitas — seu nome de batismo — um discreto e intenso relacionamento. Zé Arigó costumava receber pacientes na residência de meus pais, na rua Caldas, em Belo Horizonte. As sessões ali não avançavam além de cirurgias de catarata, embora fossem conhecidos os dons do médium que, mediante a incorporação do espírito do Doutor Fritz, médico alemão, realizava em outros locais inúmeras intervenções invasivas para a retirada de tumores no fígado, no estômago e em outras partes do corpo.  


Com a casa cheia e o médium no centro da sala, Arigó segurava um grande volume de algodão hospitalar, levantava os braços, orava, e o algodão descia por suas mãos encharcado de um líquido inodoro, com aparência de água. O fluido, que o médium utilizava como anestésico, também servia para esterilizar os locais das intervenções.  


Ele operava com um canivete comum, curto, de ponta arredondada, instrumento que introduzia nos olhos dos pacientes para de lá retirar pequenos fragmentos de tecido vivo, com pouquíssimo sangramento. Eu permanecia ao lado do médium, com o braço direito esticado, e Arigó, à medida que retirava os fragmentos, limpava a lâmina deslizando-a na minha pele.  


Encerradas as intervenções, eu circulava pela sala exibindo o braço, ao qual aderiam os vestígios de tecido humano. Alguns aproximavam o rosto para enxergar melhor e balbuciavam, entre si, comentários de espanto.  


Anos depois, Ruy Nogueira Netto, mineiro, publicitário e residente em São Paulo, enviou-me uma mensagem numa quarta-feira, às nove da noite. Perguntou se eu tinha interesse em “conhecer algo oriundo das profundezas”, como ele definiu.  


Respondi que sim, haja vista a minha sempre acesa disposição para lidar com o inusitado.  


Marcamos um encontro em Pouso Alegre, no Sul de Minas. No horário aprazado, alertado pela recepção do hotel, desci apressado. Ruy estava acompanhado de três amigos — entre eles uma jovem — e chegara num Volvo C-70 cheirando a novo. Apertamo-nos no carro e seguimos por uma estrada de terra rumo a uma chácara próxima.  


O local era simples e fomos recebidos na varanda da casa. A anfitriã reuniu-nos ao centro e, riscando um círculo ao nosso redor, derramou um fluido inflamável a que ateou fogo. As chamas avermelhadas elevaram-se a não mais de vinte centímetros. Ficamos em silêncio; o fogo se apagou e nos dirigimos ao interior.  


Em uma sala ampla, fomos acomodados em bancos semelhantes aos de igreja, enquanto ouvíamos os sons vindos do recinto contíguo. Através de uma cortina de fina textura, enxergávamos os movimentos opacos de pessoas que interagiam ao som de atabaques e cantorias.  

Em vinte minutos, fomos chamados a integrar o grupo ritual na sala ao lado.  


O cômodo era retangular e, no centro, em desnível e de forma ovalada, havia um piso secundário recoberto de areia lavada. Nos cantos, altares ornavam-se com figuras de Orixás, Exus e outras entidades do mundo cabalístico. Numa das paredes, erguia-se o altar principal, monumental, dominado pela efígie esculpida do Mestre Caveira, que se projetava sobre a falange em austera presença.  


Ficamos sentados em pequenos tamboretes, em cantos separados, até sermos convidados para o espaço central. Fomos colocados de pé, enquanto o amigo do Ruy — o motorista do Volvo — foi posto deitado de barriga para o chão, com a testa alojada num pequeno monte feito de uma mistura de areia grossa e fragmentos de ossos humanos moídos.  

Permanecemos em volta do “paciente”, todos paramentados com capa vermelha, charuto aceso na boca e um tridente na mão direita.  


Em dado momento, Pai Pedro adentrou o recinto, incorporado, bebendo cachaça e contorcendo-se na coreografia de dança peculiar ao Exu Caveira.  


O “cavalo” — grande, obeso, mas incrivelmente leve e ágil — chegou ocupando os quatro cantos do terreiro. Girava em torno de si mesmo e movimentava-se velozmente ao ritmo de afoxés, atabaques e agogôs, instrumentos freneticamente batucados pelos Ogãs, todos escolhidos a dedo pelo Caveira e devidamente “iniciados”.  


O couro dos tambores, retirado de caprinos, fora curtido com sangue de galo em ritual próprio, quando da imolação dos animais sob as bênçãos dos Orixás.  


Com o Ruy ao meu lado, temi que ele incorporasse algum Exu diante da ardência do ritmo intenso e contagiante, que promovia a conexão com as entidades presentes e que, em frenesi, começavam a se manifestar nos cavalos.  


Pai Pedro dançava, estalava os dedos, saltava alto e retornava com leveza ao piso de areia, seguido por vários discípulos que também dançavam e entoavam os pontos cantados do Caveira.  


O ar saturou-se da fumaça espessa da “fundanga” — a pólvora ritual que eclodia em sintonia com o batuque —, enquanto eu percebia, no Ruy, o olhar se multiplicar em movimentos rápidos e inusitados.  


Algumas mulheres gargalhavam alto, projetando sons penetrantes e jogando para trás os corpos, cujos cabelos compridos chegavam a tocar a areia.  


De repente, a música cessou.  


Uma mulher, trajando vestes nas cores preta, branca e vermelha, entrou trazendo uma enorme bandeja de aço inox. No centro, repousava a cabeça de um bode preto, com chifres, recém-sacrificado e com traços de sangue vivo escorrendo pelas narinas.  


A cabeça decepada do animal foi colocada sobre a nuca do amigo do Ruy, que permanecia deitado.  


Em seguida, uma jovem, também incorporada, encheu a mão com o sangue remanescente e lambuzou os nossos rostos, enquanto fomos orientados a espetar nossos tridentes na areia, próximos aos braços esticados do “paciente”.  


Até então, eu me mantivera ali na condição de mero curioso.  


Mas a fumaça recrudesceu, o batuque aumentou, a dança me envolveu e a cantoria reverberou, intensa e contagiante.  


Senti o roçar sutil de uma presença inusitada, um enleio espiritual e sedutor que me envolvia, sopro silencioso indicando que era hora de partir — ou, então, de ceder ao momento, entregando-me à falange.  


Preferi me afastar.  


Fiz um sinal para o Ruy e, devagar, sem alarde, caminhando no ritmo do agogô, deixamos o salão.  


Do lado de fora, deparamos com várias capelas, estreitas e compridas, adornadas com motivos da Quimbanda e decoradas com encantamentos de magia sob a proteção do Orixá Omolu, regente da falange dos Caveiras.  


Ruy, provedor de uma delas, abriu a porta.  


Do interior reluziram imagens de Orixás, Exus, Pombagiras, Caboclos e Pretos Velhos, além de velas acesas, copos d’água, tigelas com pólvora, garrafas de cachaça e uma luz tênue, de penumbra.  


Segundo Ruy, inúmeras famílias de empresários, banqueiros e grandes comerciantes mantinham ali suas oferendas, e muitas fortunas de São Paulo eram sustentadas pela macumba.  


Na saída, perguntei a Ruy Nogueira:  


— E então, Ruy, qual o propósito do trabalho?  


— Pergunte ao Exu Caveira — respondeu ele.  


Então, completei:  


— Laroiê, Exu!  



foto colorida de caio brandão, de óculos escuros e olhando para a camara.

Caio Brandão é jornalista e escritor mineiro.

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