top of page

ATHANÁSIO, MORTO, MAS ERETO NA SALA

há 13 horas
4 min de leitura

Ilustração de um gabinete de estudos à luz de velas com livros antigos, um sino de bronze e cinzeiros em formato de caveira sobre a mesa.

ATHANÁSIO, MORTO, MAS ERETO NA SALA


Por Caio Brandão


Anatole, Roberto e Fernando. Em princípio, três desajustados que não davam conta de si mesmos, mas continuavam tentando. O trio era perfeito para grandes e pequenas maquinações. Anatole, um diletante do viver, mas competente; Roberto, empresário bem-sucedido, porém complexo; Fernando, uma mistura dos dois, além de jornalista e praticante das artes da fungicultura experimental, contido apenas pelo bridão das convenções sociais e pelas amarras do cotidiano.


A mistura tinha tudo para dar errado — ou para dar certo, dependendo apenas das circunstâncias, que nunca foram exatamente uma preocupação para aqueles três.


Estavam próximos de Barcelona, em Figueres, na Catalunha. A viagem fora inspirada pela visita ao famoso cemitério de Poblenou, onde se destaca a escultura “O Beijo da Morte”: um esqueleto alado abraçando e beijando a bochecha de um jovem ajoelhado, que se entrega ao momento com serenidade e resignação. Uma cena de amor eterno, embora ninguém soubesse exatamente se o rapaz havia sido consultado.


“Uma cena de amor eterno, embora ninguém soubesse exatamente se o rapaz havia sido consultado.”

Viajar à sombra das asas daquela criatura sobrenatural em direção a Figueres foi um salto. A meta era a redescoberta, mais atenta e criteriosa, de Salvador Dalí no Teatro-Museu Dalí, projetado pelo próprio artista e erguido sobre as ruínas do antigo Teatro Municipal da cidade. A expectativa era grande. O espaço, descrito como um labirinto sem roteiro definido de visitação, abrigava centenas de obras do artista e, como se não bastasse, o próprio Dalí encontrava-se sepultado no local.


Nosso amigo, anfitrião e guia, Sebastià, catalão por nascimento e convicção, era tão desajustado quanto os demais e excessivamente rico, mas sem qualquer ostentação. Era primoroso no trato, misturava português com catalão e tinha como intérpretes algumas notas de 500 euros, que funcionavam como chaves mestras para quase todos os infortúnios.


A receita dos aventureiros estava pronta. Faltava apenas o componente etílico, sempre avistado na linha do horizonte próximo.


E Sebastià cumpriu a expectativa.


O Teatro-Museu tinha horários rígidos e estava fechado. Foram todos para um bar de especialidades regionais e debruçaram-se sobre o suquet de peix, ensopado intensamente temperado, regado a incontáveis doses de ratafia — licor artesanal de ervas, tradicional da Catalunha, com respeitáveis 30% de teor alcoólico.


A festa foi interrompida pela lembrança do horário do museu que, a essa altura, já tinha sido reaberto e fechado novamente.


Decepção? Não.


Apenas um incidente corriqueiro para aventureiros tão descompromissados com o planejamento.


Anatole não se deu por vencido. Numa loja próxima, comprou dois cinzeiros com alusão explícita a caveiras: um com a caveira esculpida no tamanho de um mamão; outro com várias caveirinhas dispostas em círculo. Comprou também um pequeno sino de som estridente, destinado a funcionar como batedor de alertas para eventuais excessos, crises de importância, elevação de egos e coisas do gênero.


Tudo bem, pensou Anatole. Os cinzeiros evocavam a excentricidade de Dalí e, de quebra, lembravam que o fumo leva ao câncer, e o câncer ao cemitério. Uma sequência lógica, embora talvez excessivamente mórbida para quem acabara de almoçar.


Foram embora felizes, prontos para reencontrar Gaudí na Sagrada Família. Naquela altura da viagem, Dalí e Gaudí já começavam a se misturar na cabeça dos aventureiros, o que não chegava a ser um problema grave: ambos eram gênios, ambos eram catalães e nenhum deles estava ali para reclamar.


A viagem chegou ao fim e cada um seguiu para o seu canto.


Mas Anatole não se deu por vencido quanto a deixar aquelas lembranças na prateleira das reminiscências. Cemitério, Anjo da Morte, caveiras e cogumelos... Era coisa demais para ser arquivada apenas na memória.


Melhor deixar a lembrança visível em algum canto da casa.


Comprou um esqueleto humano de corpo inteiro, com articulações e inserções musculares. Deu-lhe o nome de Athanásio.


Athanásio instalou-se na sala sem maiores cerimônias.

No começo, ficou apenas de pé, encostado num canto, com aquela dignidade silenciosa que os mortos costumam cultivar. Depois, ganhou uma cadeira. Em seguida, passou a participar das sessões de Netflix. Não opinava sobre os filmes, é verdade, mas também não fazia comentários inconvenientes nem perguntava quem era o assassino antes da hora.


Era um companheiro exemplar.


Com o tempo, Anatole passou a levá-lo também para pequenos passeios de fim de tarde. Certa feita, os dois foram comprar empanados num restaurante próximo. Athanásio ocupava o banco do carona, perfeitamente ereto, olhando para a frente com a serenidade de quem já não tinha absolutamente nada a perder. Na ocasião, ostentava peruca ao estilo Alain Delon e óculos escuros do tipo Ray-Ban, sugestões do decano Paulo César, que ainda continua na AG, com quase 60 anos de guarda fidelíssima, ao estilo cego, surdo e mudo.


“Athanásio ocupava o banco do carona, perfeitamente ereto, olhando para a frente com a serenidade de quem já não tinha absolutamente nada a perder.”

Foram flagrados pela Polícia de Trânsito.


O policial aproximou-se, olhou para Anatole, depois para Athanásio e, por alguns segundos, pareceu tentar compreender a situação.


O carona não tinha documentos.


Mas tudo bem. Afinal, ele não estava ao volante.


A partir daí, Athanásio adquiriu uma espécie de cidadania doméstica. Já não era simplesmente um esqueleto comprado por impulso. Era presença. Estava ali quando Anatole acordava, quando recebia visitas e quando a casa ficava silenciosa. Não reclamava da temperatura, não pedia dinheiro emprestado, não discordava de opiniões políticas e jamais perguntava quando seria a próxima reunião de condomínio.


Tinha, portanto, qualidades que não se encontram facilmente nos vivos.


Anatole não é esquisito. Apenas pensa diferente.


Athanásio tampouco é o Retrato de Dorian Gray. É apenas um cartão-postal do passamento a que todos estaremos submetidos — sem arrogância, sem vaidade e com a humildade característica de nossa impotência diante do tempo.


Além disso, Athanásio presta serviços de utilidade pública. Mostra, com precisão anatômica, a localização de dores, desconfortos, cãibras e outros achaques, sem cobrar consulta e sem exigir plano de saúde.


Basta olhar para ele.


Agora, com a Inteligência Artificial, talvez possa aprender a falar. E, se isso acontecer, o futuro estará praticamente assegurado: Athanásio poderá tornar-se consultor de mídias sociais, comentarista político ou até integrante de algum instituto de pesquisa eleitoral.


Afinal, nessas vertentes não existe compromisso obrigatório com o acerto.


São apenas tentativas.


Bem remuneradas.



Escultura em mármore 'O Beijo da Morte', no Cemitério de Poblenou em Barcelona, retratando um esqueleto alado abraçando um jovem ajoelhado.



 “O Beijo da Morte” (El petó de la mort), célebre escultura em mármore localizada no Cemitério de Poblenou, em Barcelona, cuja visita inspirou o ponto de partida do relato.





Retrato de Caio Brandão, autor do artigo.


Caio Brandão é jornalista. Quase foi guia turístico.


Comentários


bottom of page