ATHANÁSIO, MORTO, MAS ERETO NA SALA

ATHANÁSIO, MORTO, MAS ERETO NA SALA
Por Caio Brandão
Anatole, Roberto e Fernando. Em princípio, três desajustados que não davam conta de si mesmos, mas continuavam tentando. O trio era perfeito para grandes e pequenas maquinações. Anatole, um diletante do viver, mas competente; Roberto, empresário bem-sucedido, porém complexo; Fernando, uma mistura dos dois, além de jornalista e praticante das artes da fungicultura experimental, contido apenas pelo bridão das convenções sociais e pelas amarras do cotidiano.
A mistura tinha tudo para dar errado — ou para dar certo, dependendo apenas das circunstâncias, que nunca foram exatamente uma preocupação para aqueles três.
Estavam próximos de Barcelona, em Figueres, na Catalunha. A viagem fora inspirada pela visita ao famoso cemitério de Poblenou, onde se destaca a escultura “O Beijo da Morte”: um esqueleto alado abraçando e beijando a bochecha de um jovem ajoelhado, que se entrega ao momento com serenidade e resignação. Uma cena de amor eterno, embora ninguém soubesse exatamente se o rapaz havia sido consultado.
“Uma cena de amor eterno, embora ninguém soubesse exatamente se o rapaz havia sido consultado.”
Viajar à sombra das asas daquela criatura sobrenatural em direção a Figueres foi um salto. A meta era a redescoberta, mais atenta e criteriosa, de Salvador Dalí no Teatro-Museu Dalí, projetado pelo próprio artista e erguido sobre as ruínas do antigo Teatro Municipal da cidade. A expectativa era grande. O espaço, descrito como um labirinto sem roteiro definido de visitação, abrigava centenas de obras do artista e, como se não bastasse, o próprio Dalí encontrava-se sepultado no local.
Nosso amigo, anfitrião e guia, Sebastià, catalão por nascimento e convicção, era tão desajustado quanto os demais e excessivamente rico, mas sem qualquer ostentação. Era primoroso no trato, misturava português com catalão e tinha como intérpretes algumas notas de 500 euros, que funcionavam como chaves mestras para quase todos os infortúnios.
A receita dos aventureiros estava pronta. Faltava apenas o componente etílico, sempre avistado na linha do horizonte próximo.
E Sebastià cumpriu a expectativa.
O Teatro-Museu tinha horários rígidos e estava fechado. Foram todos para um bar de especialidades regionais e debruçaram-se sobre o suquet de peix, ensopado intensamente temperado, regado a incontáveis doses de ratafia — licor artesanal de ervas, tradicional da Catalunha, com respeitáveis 30% de teor alcoólico.
A festa foi interrompida pela lembrança do horário do museu que, a essa altura, já tinha sido reaberto e fechado novamente.
Decepção? Não.
Apenas um incidente corriqueiro para aventureiros tão descompromissados com o planejamento.
Anatole não se deu por vencido. Numa loja próxima, comprou dois cinzeiros com alusão explícita a caveiras: um com a caveira esculpida no tamanho de um mamão; outro com várias caveirinhas dispostas em círculo. Comprou também um pequeno sino de som estridente, destinado a funcionar como batedor de alertas para eventuais excessos, crises de importância, elevação de egos e coisas do gênero.
Tudo bem, pensou Anatole. Os cinzeiros evocavam a excentricidade de Dalí e, de quebra, lembravam que o fumo leva ao câncer, e o câncer ao cemitério. Uma sequência lógica, embora talvez excessivamente mórbida para quem acabara de almoçar.
Foram embora felizes, prontos para reencontrar Gaudí na Sagrada Família. Naquela altura da viagem, Dalí e Gaudí já começavam a se misturar na cabeça dos aventureiros, o que não chegava a ser um problema grave: ambos eram gênios, ambos eram catalães e nenhum deles estava ali para reclamar.
A viagem chegou ao fim e cada um seguiu para o seu canto.
Mas Anatole não se deu por vencido quanto a deixar aquelas lembranças na prateleira das reminiscências. Cemitério, Anjo da Morte, caveiras e cogumelos... Era coisa demais para ser arquivada apenas na memória.
Melhor deixar a lembrança visível em algum canto da casa.
Comprou um esqueleto humano de corpo inteiro, com articulações e inserções musculares. Deu-lhe o nome de Athanásio.
Athanásio instalou-se na sala sem maiores cerimônias.
No começo, ficou apenas de pé, encostado num canto, com aquela dignidade silenciosa que os mortos costumam cultivar. Depois, ganhou uma cadeira. Em seguida, passou a participar das sessões de Netflix. Não opinava sobre os filmes, é verdade, mas também não fazia comentários inconvenientes nem perguntava quem era o assassino antes da hora.
Era um companheiro exemplar.
Com o tempo, Anatole passou a levá-lo também para pequenos passeios de fim de tarde. Certa feita, os dois foram comprar empanados num restaurante próximo. Athanásio ocupava o banco do carona, perfeitamente ereto, olhando para a frente com a serenidade de quem já não tinha absolutamente nada a perder. Na ocasião, ostentava peruca ao estilo Alain Delon e óculos escuros do tipo Ray-Ban, sugestões do decano Paulo César, que ainda continua na AG, com quase 60 anos de guarda fidelíssima, ao estilo cego, surdo e mudo.
“Athanásio ocupava o banco do carona, perfeitamente ereto, olhando para a frente com a serenidade de quem já não tinha absolutamente nada a perder.”
Foram flagrados pela Polícia de Trânsito.
O policial aproximou-se, olhou para Anatole, depois para Athanásio e, por alguns segundos, pareceu tentar compreender a situação.
O carona não tinha documentos.
Mas tudo bem. Afinal, ele não estava ao volante.
A partir daí, Athanásio adquiriu uma espécie de cidadania doméstica. Já não era simplesmente um esqueleto comprado por impulso. Era presença. Estava ali quando Anatole acordava, quando recebia visitas e quando a casa ficava silenciosa. Não reclamava da temperatura, não pedia dinheiro emprestado, não discordava de opiniões políticas e jamais perguntava quando seria a próxima reunião de condomínio.
Tinha, portanto, qualidades que não se encontram facilmente nos vivos.
Anatole não é esquisito. Apenas pensa diferente.
Athanásio tampouco é o Retrato de Dorian Gray. É apenas um cartão-postal do passamento a que todos estaremos submetidos — sem arrogância, sem vaidade e com a humildade característica de nossa impotência diante do tempo.
Além disso, Athanásio presta serviços de utilidade pública. Mostra, com precisão anatômica, a localização de dores, desconfortos, cãibras e outros achaques, sem cobrar consulta e sem exigir plano de saúde.
Basta olhar para ele.
Agora, com a Inteligência Artificial, talvez possa aprender a falar. E, se isso acontecer, o futuro estará praticamente assegurado: Athanásio poderá tornar-se consultor de mídias sociais, comentarista político ou até integrante de algum instituto de pesquisa eleitoral.
Afinal, nessas vertentes não existe compromisso obrigatório com o acerto.
São apenas tentativas.
Bem remuneradas.

“O Beijo da Morte” (El petó de la mort), célebre escultura em mármore localizada no Cemitério de Poblenou, em Barcelona, cuja visita inspirou o ponto de partida do relato.

Caio Brandão é jornalista. Quase foi guia turístico.











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