O LEÃO, A RAPOSA E A URNA

O LEÃO, A RAPOSA E A URNA
Por Caio Brandão
Maquiavel, se por aqui andasse, talvez pedisse um café forte e refizesse as contas. Ao prescrever, no século XVI, que o governante deveria encarnar a astúcia da raposa para escapar das armadilhas e a força do leão para espantar os lobos, o florentino pensava a partir do topo do poder. Olhava do palácio para a praça. Sucede que o tempo passou, as engrenagens da política ganharam refinamentos quase diabólicos e a vida real cuidou de inverter o tabuleiro.
Hoje, quem precisa desesperadamente das virtudes do leão e da raposa é o cidadão comum.
O eleitor contemporâneo acorda todos os dias sob o cerco de uma alcateia bem adestrada. Os lobos já não uivam nas florestas; usam terno sob medida, contratam marqueteiros a peso de ouro, frequentam restaurantes sofisticados e operam algoritmos com a precisão de cirurgiões. Aprenderam, inclusive, que não precisam mostrar os dentes o tempo todo. Basta sorrir.
Diante de uma engrenagem tão bem lubrificada, a ingenuidade deixou de ser uma virtude poética para se tornar um erro crasso. Quem se comporta como ovelha na praça pública acaba, inevitavelmente, servido no banquete alheio.
“Quem se comporta como ovelha na praça pública acaba, inevitavelmente, servido no banquete alheio.”
Teoricamente, a saída seria o sobressalto da cidadania. A raposa-cidadã apuraria o olfato para farejar a demagogia barata, desconfiando do discurso fácil e recusando o engodo embalado com fitas coloridas. O leão-cidadão assumiria a soberania inflexível do voto, lembrando aos que se julgam donos do mundo que a autoridade é delegada e o mandato, temporário.
Seria bonito.
Mas a verità effettiva da nossa época tropeça num obstáculo humano e incrivelmente prosaico: a preguiça cívica, a moralidade elástica e o peso sufocante da nossa própria história.
Pesa sobre nós a herança atávica das capitanias hereditárias. O poder no Brasil continua sendo transmitido como sesmaria. Mudam os nomes, os partidos, as alianças e até o discurso, mas a propriedade simbólica do território permanece quase sempre nas mesmas mãos. Alternam-se o patriarca, o primogênito, o cunhado, o sobrinho e, eventualmente, a ex-esposa — convenientemente acomodada em algum posto de prestígio, onde a oligarquia possa ser julgada com a serenidade de quem conhece a família há muitos anos.
Não importa muito a sigla nem o arranjo, desde que a teta do Estado permaneça gorda, generosa e inesgotável.
"Mamemos", parece dizer a regra não escrita das elites político-familiares, embaladas pelo verso do poeta Paulo Emílio Pinto: "depois, o que importa o depois, se a vida é o instante que passa".
E assim vamos passando.
A política, contudo, não para na praça nem no parlamento. Ela extravasa. Alcança os tribunais, inclusive os superiores, onde a parentela pode encontrar abrigo e sorver, no entorno do poder, vantagens como se delas fosse o mérito. Tudo muito elegante, sob justificativas jurídicas plenas, regimentos, pareceres e formalidades. Nada que não possa ser embrulhado em papel timbrado.
O problema é que, quando a legalidade passa a servir de biombo para a falta de pudor, a sociedade começa a perder a capacidade de distinguir o que é legítimo daquilo que é apenas convenientemente legal.
Aliás, o diagnóstico central talvez seja este: perdeu-se o pudor.
Aquele mesmo pudor sociológico que, na Belo Horizonte da década de 1960, levou à execração pública, pelos habitantes do tradicional bairro do Carmo, do adolescente conhecido por Bio, surpreendido tão somente por fumar, discreta e educadamente, o seu baseado.
O jovem virou pária por uma ninharia comportamental. Era praticamente um perigo para a civilização.
Hoje, em contraste, a pilhagem institucionalizada das grandes somas pode atrair mesuras, tapetes vermelhos, homenagens, convites para eventos e até respeitabilidade social. O que antes produzia escândalo agora, dependendo do tamanho do cheque, pode produzir uma fotografia sorridente.
Mudou o crime ou mudou o nosso espelho?
Talvez tenhamos apenas aprendido a estabelecer uma curiosa escala moral. Pequenos pecados individuais continuam provocando indignação. Já os grandes pecados públicos, quando praticados por gente importante, recebem tratamento protocolar.
Por isso, as eleições batem à porta sem qualquer novidade e o eleitor assiste a tudo com uma indulgência cúmplice. Os cofres públicos são exauridos à vista de todos com bondades de última hora, anúncios salvadores, inaugurações providenciais e promessas que chegam sempre com a proximidade milagrosa das urnas.
E o cidadão gosta.
Gosta porque o benefício é imediato, a conta fica para depois e o depois, como já advertiu o poeta, é uma criatura que não se explica muito bem.
A turba acostumou-se às facilidades e ao fisiologismo. Afinal, se estivesse lá em cima, boa parte faria o mesmo. Os escândalos caem na vala comum e cria-se uma perversa escala de prestígio: quanto mais se abiscoita sob o véu tragicômico de verbas nebulosas, mais hábil parece o operador do sistema.
No Brasil, às vezes, o sujeito não é admirado porque roubou. É admirado porque roubou muito e não foi pego.
“No Brasil, às vezes, o sujeito não é admirado porque roubou. É admirado porque roubou muito e não foi pego.”
Há uma certa sofisticação nisso.
A aberração dessa ética capenga salta aos olhos nas ruas. Em Copacabana, vigilantes espancam até a morte um suspeito de furtar uma bicicleta, sob o aplauso furioso dos justiceiros de ocasião. No entanto, alguns desses mesmos paladinos da ordem caminham tranquilamente até as urnas para depositar o voto no cacique que desviou milhões.
A vala é comum e exala um mau cheiro insuportável, mas o eleitor não se apoquenta.
Talvez porque, no primeiro caso, o ladrão esteja perto demais.
No segundo, esteja muito bem vestido.
Para não ter o trabalho de analisar propostas, o cidadão aceita a névoa das promessas genéricas sobre saúde, educação e segurança. Prefere o conforto anestésico das pesquisas, o famoso voto "para não perder", como se eleição fosse corrida de cavalos e o eleitor precisasse apostar no animal que parece chegar primeiro.
Em vez de estudar o programa do candidato, consulta a pesquisa.
Em vez de examinar o passado, olha o percentual.
Em vez de perguntar para onde o sujeito pretende levar o país, pergunta quem está na frente.
É a democracia transformada em campeonato.
E canaliza toda a sua fúria fiscalizatória para a geopolítica do bairro: cobra o vereador porque sabe onde ele mora, telefona para reclamar da árvore, protesta contra a lâmpada queimada e, quando o problema não se resolve, pendura uma faixa no poste diante da casa do devedor.
Nesse território, somos todos leões.
O cidadão gasta sua fúria de leão contra o buraco da sua esquina. Sabe exatamente quantos centímetros de asfalto estão faltando diante da sua garagem, quantas vezes a prefeitura foi avisada e há quantos meses a lâmpada do poste está queimada.
Mas, diante das dinastias políticas, dos feudos familiares e das togas que se tornam parte do mobiliário do poder, recolhe as garras, baixa as orelhas e passa mansamente.
É um fenômeno curioso: somos ferozes com o pequeno poder que conseguimos enxergar e dóceis diante daquele que realmente determina nossa vida.
“Somos ferozes com o pequeno poder que conseguimos enxergar e dóceis diante daquele que realmente determina nossa vida.”
Talvez seja por isso que o vereador tenha mais medo da faixa no poste do que o grande cacique da urna.
Há uma ironia amarga nisso tudo.
O eleitor reclama do preço do pão, do imposto, do combustível, da saúde, da segurança e do buraco da rua. Reclama com justa razão. Mas, na hora decisiva, frequentemente entrega o próprio voto a quem ajudou a produzir exatamente o cenário de que está reclamando.
É como reclamar do incêndio e, no dia seguinte, contratar o incendiário para administrar o corpo de bombeiros.
A nossa raposa também anda meio preguiçosa.
Ela não fareja mais o rastro do discurso. Contentou-se com o cheiro da propaganda.
O nosso leão, por sua vez, continua feroz, mas descobriu que é mais confortável rugir no sofá, diante da televisão, do que estudar orçamento, acompanhar mandato, comparar propostas e lembrar, no dia da eleição, quem fez o quê.
E os lobos agradecem.
Se Maquiavel nos ensinou que a política é a arte de encarar o mundo como ele é, a lição que sobra para o nosso tempo é desoladora: não basta escolher entre leão e raposa. É preciso saber reconhecer o lobo quando ele aparece vestido de cordeiro, de estadista, de salvador da pátria ou simplesmente de candidato muito sorridente.
Pendurar faixas no poste pode aliviar o fígado, e certamente ajuda a conservar a boa saúde do cidadão indignado. Mas não substitui a responsabilidade de escolher.
Enquanto a indulgência com os feudos familiares, o pragmatismo tacanho e a memória curta ditarem a escolha na urna, continuaremos entregando o rebanho aos lobos de sempre.
E talvez aí esteja a grande ironia de nossa democracia: passamos quatro anos reclamando dos lobos, seis meses procurando o culpado e alguns minutos, diante da urna eletrônica, escolhendo outro.
Depois apertamos CONFIRMA, respiramos aliviados e voltamos para casa.
Se der tudo errado, pelo menos teremos a certeza de que a culpa foi do outro.
“Democracia é isso: o povo escolhe os seus governantes, os governantes escolhem os seus parentes, os parentes escolhem os seus cargos — e, no fim, todos escolhem esquecer quem escolheu quem.”
Afinal, democracia é isso: o povo escolhe os seus governantes, os governantes escolhem os seus parentes, os parentes escolhem os seus cargos — e, no fim, todos escolhem esquecer quem escolheu quem.
Maquiavel, se estivesse por aqui, talvez pedisse outro café.
E, desta vez, sem açúcar.

Caio Brandão é jornalista, de Minas Gerais.











Comentários