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NÃO MAIS VELO DEFUNTO, E DE CAIXÃO ME LIVRO ATÉ DE FOTOGRAFIA

Ilustração em estilo cartum satírico mostrando um homem correndo apavorado por uma rua de paralelepípedos à noite, sendo perseguido por uma procissão fúnebre bizarra formada por padres, viúva furiosa, necromaquiadores e cúmplices carregando um caixão aberto.

Não mais velo defunto, e de caixão me livro até de fotografia


Por Caio Brandão


Asdrúbal Guimarães tinha suas preferências como advogado e costumava brilhar no criminal, mas só quando se envolvia emocionalmente na causa. Já no direito de família era raso, um jurisconsulto de rodapé que ostentava erudição de fachada, recorrendo a citações soltas e mal empregadas.


Em que pesem suas limitações, era atraído pelos honorários generosos dos inventários, terreno fácil de percorrer, sem maiores demandas de erudição ou conhecimento profundo. A clientela, fragilizada pela perda, oferecia-se fácil nas capelas velatórias: bastava-lhe a abordagem sutil de um “velho amigo” do falecido para colher a simpatia — e a submissão — dos herdeiros.


A prospecção de inventários era delicada. Começava com o trabalho do “olheiro hospitalar”, um vendedor de produtos de limpeza com livre trânsito nos hospitais e acesso franqueado a médicos e enfermeiras. Simpático, autodidata em química, falava com desenvoltura sobre germes e bactérias. Trazia consigo um embornal repleto de elixires e fazia pose de alquimista, um boticário de ocasião, sempre pronto a disponibilizar para a turma da limpeza alguns produtos “especiais”, inclusive certos baseados de procedência duvidosa, alguns importados da Turquia.


Entre uma conversa e outra, o “olheiro” ia se informando dos óbitos em perspectiva, dos endereços dos familiares e, sobretudo, do potencial financeiro dos enlutados.


Ilustração com traços em estilo quadrinho de uma bolsa de lona aberta no chão, com a inscrição "Produtos de Limpeza", espalhando frascos de elixires, rolos de papel e cartas marcadas com anotações de falecidos recentes e clientes potenciais.

Mas não agia sozinho.


Tinha por parceiro um consultor ecumênico — figura alta, magra e espectral, invariavelmente vestida de preto. Era a cobertura perfeita para preencher o vácuo dos óbitos fulminantes, ocorridos de surpresa, sem o aviso prévio que costuma rondar os moribundos. Quando a morte atropelava a estatística, chegava a sua hora de brilhar: consolava, orava, murmurava salmos e tateava ombros e mãos com uma intimidade perturbadora.


Assim, devidamente assessorado pelo “olheiro” e pelo “consultor ecumênico”, Asdrúbal garantia sua fórmula de sucesso — arrematada pela valiosa contribuição de um jornalista aposentado.


Ex-colunista social de poucos escrúpulos, o sujeito era um autêntico perito em segredos de alcova e podres da elite, conhecedor profundo de deslizes extraconjugais, discretas concessões bissexuais e outras esporádicas fugas da curva. Sabia quem traíra quem, quem devia dinheiro a quem e, principalmente, quem tinha dinheiro para pagar um advogado depois de morto.


Sob a liderança de Asdrúbal, o grupo mantinha ainda estreita relação com as funerárias da cidade, médicos fornecedores de atestados de óbito, tanatopractistas e necromaquiadores encarregados de devolver algum “brilho” aos cadáveres.


Apenas com o pessoal das coroas de flores a convivência andava estremecida — desavença antiga por conta de comissões devidas e jamais pagas.


Nas capelas, Asdrúbal — apenas para ajudar um velho amigo — costumava postar um professor de história e corretor de seguros, meio esclerosado. O sujeito discorria sobre a origem dos velórios na tradição cristã, explicando que a luz simbolizava o guia para a alma do falecido e a proteção do corpo contra maus espíritos durante a transição.

Puro xarope.


Mas a plateia escutava embevecida, emocionada e, sobretudo, distraída enquanto o advogado circulava entre os herdeiros.


Era uma operação empresarial quase perfeita:

  • O olheiro descobria o morto;

  • O ecumênico descobria a fé;

  • O jornalista descobria os podres;

  • O professor descobria a origem do velório;

  • O corretor descobria o seguro;

  • A funerária descobria o caixão;

  • E Asdrúbal descobria os honorários.


: Ilustração sombria e cômica de uma mão pálida estendendo-se em direção a um telefone antigo de disco que toca sobre uma mesa clássica de madeira, cercado por pastas de inventários e cartões de visita dos cúmplices do esquema.

Até que, duas da manhã, o telefone tocou.


Recusei-me inicialmente a atender. Um som irritante, insistente, quase agressivo. Estendi o braço no escuro e acabei derrubando o celular.

Levantei-me num pulo — o aparelho custara caro.


A tela não identificava o chamador.


Atendi assim mesmo.


Do outro lado, uma voz rouca disparou, sem rodeios: — Doutor, perdoe o horário, mas o Asdrúbal morreu.


Fiquei em silêncio.


— Dizem que foi infarto...


Mais silêncio.


— Estava com a namorada. A moça se excedeu, ele se deixou levar e acabou morrendo sufocado.


A voz nem esperou que eu processasse a morte exótica e asfixiante do colega. Com a naturalidade de quem escala um reserva de última hora, disparou: — Doutor, o senhor precisa assumir o leme antes de o defunto esfriar. A turma toda já está a postos no velório.


Respirei fundo. Declinei antes mesmo do primeiro café.


Deus me livre.


Não nasci para síndico da imoralidade alheia. Deixei bem claro que não iria herdar o bastão da quadrilha, muito menos administrar aquele ecossistema de urubus.


Avisei logo: não pagaria um centavo das comissões atrasadas dos floristas — que já prometiam mandar uma coroa para Asdrúbal com os dizeres “VAI EM PAZ E PAGA O QUE DEVE” — e muito menos me envolveria nas finanças do vendedor de maconha turca.


Para completar o circo, a esposa oficial do falecido já mandara avisar que não pagaria honorário nenhum a advogado algum. Dizia, bufando de ódio, que morrer sufocado nos braços da namorada era quebra de contrato conjugal e que, se dependesse dela, Asdrúbal iria para o chão numa caixa de papelão, sem choro nem vela.


Foi então que percebi a verdadeira dimensão da herança.

Não havia escritório.

Não havia sociedade.

Não havia sequer patrimônio moral.


Havia apenas um cadáver, uma fila de credores, meia dúzia de cúmplices e uma clientela de viúvas e órfãos à espera do próximo advogado.


Diante daquela herança maldita, exerci meu sagrado direito de cair fora.

Desliguei o celular, virei para o canto e decretei meu próprio luto:

Não mais velo defunto.

E de caixão me livro até de fotografia.


Fotografia colorida do escritor Caio Brandão, um homem idoso, de óculos escuros, olhando para a câmera.

Caio Brandão é advogado, jornalista e cronista. Com vasta experiência na vida pública e empresarial brasileira, transita pelos labirintos da alma humana com ironia fina, olhar cirúrgico e refinado humor mineiro. É colaborador do Dialéticos.com e do Diário de Minas.

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