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"Pode apagar a vela"

Retrato em preto e branco do jovem médico Gerson Zafalon Martins com vestes de formatura da faculdade de medicina, usando capelo e beca solene.


"Pode apagar a vela"

Memórias de um acadêmico no Hospital Evangélico


Por Gerson Zafalon


Curitiba, meados de 1967.

No tempo em que só havia duas faculdades de medicina na cidade, a Federal e a Católica, o Hospital Evangélico de Curitiba tinha um programa de acadêmicos residentes. Eram estudantes que moravam lá e atendiam os pacientes, ajudavam nas cirurgias, faziam partos. Era uma rotina pesada mas gratificante, para um jovem que de Medicina só sabia o que ensinavam nas salas de aula.


Fotografia histórica em preto e branco da fachada curva e original do Hospital Evangélico de Curitiba no bairro Bigorrilho.
Hospital Evangélico de Curitiba, cenário do internato médico em 1967.

Certa noite, o alto-falante ecoou: "Acadêmico residente, urgente no quarto 301 no 3º andar". Ao chegar, encontrei um casal de idosos. O marido, deitado, segurava uma vela acesa; a esposa vigiava ao lado.


Auscultando o coração, ouvi batimentos fracos, mas presentes. Tranquilizado, falei: "Pode apagar a vela", e saí.


Uma hora depois, o chamado se repetiu. Ao entrar no quarto, a cena era a mesma, mas a vela estava apagada. Auscultei o coração e nada ouvi. Ele havia parado. Olhei para a esposa e disse: "Pode acender a vela".


Ela, já com o fósforo em mãos, iluminou o ambiente. Eu me retirei. No corredor, a caminho da sala dos residentes, parei, pensando no que tinha acontecido.


Nunca mais parei de pensar no que tinha acontecido.


Ring the bells that still can ring. Forget your perfect offering. There is a crack, a crack in everything. That's how the light gets in (Toque os sinos que ainda pode tocar / Esqueça sua perfeita oferenda / Há uma falha, uma falha em tudo / É assim que a luz entra.) [Leonard Cohen, "Anthem" . Veja no YouTube]


Esse verso nos alerta que a vela não é um cronômetro para medir a vida, é uma luz para honrar a história de alguém. Como médico, não devemos apagar as chamas da esperança ou do ritual; devemos ser aqueles que ajudam a manter a dignidade acesa, mesmo na escuridão.


Nos faz lembrar que a infalibilidade não existe e que é na vulnerabilidade (na fresta) que a empatia e o verdadeiro cuidado médico florescem.


Aquele jovem estudante sentiu que a Medicina não se limita à biologia, mas estende-se ao suporte do espírito e do ritual de despedida.


Compreendeu que a morte não é um erro médico, mas um evento biológico e social.


Entendeu a importância da escuta: atentou apenas no som do estetoscópio. Aprendeu a ouvir o silêncio e o simbolismo do ambiente.


Sentiu a inoportuna autoridade: Interrompeu um ritual por excesso de pragmatismo. Aprendeu a validar o luto e permitir que a família se despeça.


Compreendeu o que é a verdade: tratou a morte como uma sentença fria. Aprendeu a tratar a morte como uma conselheira sábia.



Décadas mais tarde, ao revisitar essa memória em encontros com jovens que iniciam a trajetória na medicina, aquela noite no quarto 301 se desdobra em três apontamentos sobre o cuidado:

  • O respeito ao sagrado: Se houver um símbolo (uma vela, uma oração, uma foto), ele é tão importante para o paciente quanto o soro que corre na veia.

  • O guardião do momento: O médico não comanda a morte, ele coordena a dignidade da partida.

  • A mudança de tom: Às vezes, a "urgência" do chamado não é para salvar um corpo que já se vai, mas para acolher um coração que fica.

"A medicina cura poucas vezes, alivia frequentemente e consola sempre."




Foto colorida do Dr. Gerson Zafalon Martins, de cabelos brancos e terno escuro.

Gerson Zafalon Martins

Médico graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR, turma de 1971), especialista em Pneumologia e Tisiologia e perito judicial. Foi presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) e representou o estado por 15 anos como conselheiro titular e diretor do Conselho Federal de Medicina (CFM), onde atuou como editor da Revista Bioética. Foi acadêmico residente do Hospital Evangélico durante 5 anos. Dedica-se à reflexão e ao debate sobre bioética, ética médica e a humanização do cuidado à beira do leito.

 

3 comentários


José Maria Correia
há uma hora

Doutor Gerson merece ser chamado de médico de seres humanos e de almas .

Em poucas palavras e com um exemplo conseguiu dar uma bela lição de vida e de generosidade .

Como tenho um neto médico e uma neta ainda acadêmica, vou compartilhar com eles .Mas o conselho serve também para todos nós, assim vou deixar uma vela por perto também

Beijo fraterno do amigo

José Maria

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Convidado:
há 3 horas

Que maravilha! Essa reflexão é tão util para os que ficam quanto para os que se vão, o final um dia chega para todos.

Editado
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Sérgio Tadeu M. de Almeida
há 7 horas

Excelente reflexão quando à transição de nossa vida nesta dimensão para outros níveis de existência. Afinal tudo é vida em continuidade em diferentes níveis existenciais. Assim entendo.

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