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CAMINHANTE CURITIBANO


Em meio às ruínas de uma nova Curitiba, caminha sobressaltado um ex-poeta.


A esquina das marechais: onde nosso cronista quase foi assaltado - Imagem de Wikimedia Commons.


Ouço, com meio ouvido, a notícia que o vizinho foi assaltado na esquina, próximo ao supermercado. Um morador de rua, indignado por não ter recebido dinheiro, puxou da faca e fez justiça com as próprias mãos. Felizmente a vítima está bem. Outra foi assaltada, em uma das caminhadas habituais no Passeio Público. Outra quase teve o pescoço decepado, na esquina da Rua Barão do Rio Branco com a XV de Novembro, em uma tentativa de roubo de uma correntinha. Eu, com minha habitual perspicácia, evitei um confronto com dois ladrões graças aos meus olhos de águia e pernas ágeis. Ao perceber a manobra de cerco, corri como um coelho jovem, o que os deixou desconcertados. Isso na esquina das duas Marechais.


Já contei aqui da velha senhora que mora próximo à Praça Osório e que para ir ao supermercado disfarça-se de rapaz? Calças jeans, camiseta, blusa de moleton velha com capuz levantado cobrindo os cabelos, boné. Óculos escuros não, por motivos óbvios (são fáceis de roubar). A sacola de compras não pode mostrar o conteúdo. Adeus, vaidade feminina. A beleza fulgurante da beldade curitibana de outrora (mas visível quando ela se veste para sair, nas raras saídas noturnas a que se concede), esconde-se como tática de sobrevivência.


O centro da cidade que antigamente era um local de compras e passeios das famílias curitibanas, está abandonado. Os mais abonados refugiam-se nos shoppings, transformados em locais de lazer dos finais de semana. Placas de vende-se ou aluga-se em lojas e escritórios se repetem monotonamente. O maior patrimônio imobiliário e urbano da cidade aos poucos se transforma em reduto de moradores de rua e trombadinhas. Mesmo assim, otimistas incuráveis, agradecemos a Deus por não ter se transformado ainda em uma São Paulo ou Rio de Janeiro, entregues ao crime organizado e milícias.


Alguns ainda resistem à enchente que parece inexorável. Aqui e ali um bar ou restaurante. Um café. A prefeitura inaugurou o Cine Passeio, uma iniciativa tímida e lenta (como demorou), que está ajudando a revitalizar uma área quase toda abandonada. O Belvedere foi restaurado, o que se refletiu imediatamente na Praça do Alto São Francisco, hoje quase sempre ocupado por casais, grupos de amigos fumando um baseado ou bebendo cerveja. Em paz.


Vejo que a Rua Prudente de Moraes se transformou em um reduto de bares e restaurantes, muito simpático e bem frequentado. Quase lembra uma Curitiba antiga, amigável e pacífica. Mas é uma ilha, em meio às ruínas daquilo que já fomos.


O caminhante curitibano é um sobrevivente.



Não menosprezo as políticas municipais de recuperação urbana. Elas existem, algumas são excelentes, e têm contribuído (muito) para impedir a degradação da cidade. Mas têm sido insuficientes. O prefeito Rafael escreveu no monumento ao Cavalo Babão: “Hoje só cavalos de sonho vencem as barreiras da modernidade”. Está difícil sonhar nas ruas de Curitiba, prefeito. Em algum momento a cidade vai ter que escolher entre a civilização e a barbárie.

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