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CASABLANCA

Um clássico do cinema que merece ser revisitado.


Bate o sono enquanto assisto mais um filme na Netflix. Me pergunto se a velhice finalmente assentou praça na mente. As leituras iniciam e são interrompidas por cochilos intermitentes. A biografia de Stalin, Waiting for Hitler, inconclusa até agora, vencida por sucessivas crises de sono. Naturalmente, é o peso do livro (capa dura, mais de mil páginas), que me impede de ler, acostumado que estou pelo Ipad e Kindle. Argumento para lá de frágil. O peso dos livros nunca me impediu de lê-los, e nenhum filme ruim (ou bom, pouco importa) me levou ao sono, exceto o inesquecível Pokemon, O Filme, que me fez dormir desavergonhadamente em meio ao entusiasmo de meu filho e de centenas de outras crianças no cinema. Pensando bem, houve um outro, também inesquecível, mas a vergonha me impede contar; não vá abalar meu prestígio intelectual...


Mas... depois de uma conversa com Tailine, minha colega, peguei a biografia de Humphrey Bogart para refrescar a memória; e não conseguia parar de ler. Em seguida, assisti em série O Falcão Maltês, Casablanca e Key Largo, maratona que se encerrou por volta de meia-noite. Sem cochilos.

Claro que Casablanca é um grande e maravilhoso filme. Tem todos os ingredientes que nos atraem: uma grande e belíssima estrela, um ator charmoso, uma fotografia espetacular, grandes diálogos, dos escritores Philip e Julius Epstein (e não escreveram para serem citados; era natural deles). Além deles, dois outros escritores ajudaram a dar o tom nos aspectos românticos e políticos, Howard Koch e Casey Robinson; mas é uma história de amor que, francamente, se contada, é patética. Mas todas as histórias de amor são patéticas.


Sobre a natureza do material, conta-se que um dos homens da Warner, chamado a opinar sobre a história (Everybody comes to Rick’s, de Murray Burnett e Joan Alison) disse que “It was crap. But it was a great piece of crap – wich is often better than real literature.”

Hollywood sempre foi cosmopolita, desde sempre. Naturalmente, a situação na Europa nos anos 30 só intensificou a vinda de atores, cantores, técnicos, diretores. Na produção de Casablanca isso está evidente. Michael Curtiz, o diretor, era húngaro; Conrad Veid, o vilão nazista, era um alemão casado com uma judia; Peter Lorre, artista judeu em Berlin; Paul Henreid (Victor Laszlo), era vienense; Marcel Dalio (o croupier), era francês; Carl tinha vindo de Budapest. A grande Bergman era sueca. Madeleine LeBeau (Yvonne) tinha fugido da França com Marcel Dalio, que por sua vez tinha a mãe em Paris, escondida em um porão. Só três eram americanos, Bogart, Dooley Wilson e Joy Page, a jovem refugiada húngara, que emociona a todos com sua candura e espírito de auto-sacrifício. Assim, não é de espantar que a cena em que Victor Laszlo comanda a orquestra para tocar a Marseillaise deixou todo o grupo em lágrimas. Muitos tinham parentes em campos de concentração.


O filme é recheado de cenas e diálogos memoráveis, que entraram para a história do cinema. Todos tem suas frases preferidas. As minhas:


Ugarte: “Você me despreza, não?


Rick: “Se eu pensasse em você, desprezaria.


Ou:


“- Qual a sua nacionalidade?


“- Sou um bêbado.


Prenda os suspeitos de sempre.


Os irmãos Epstein escreviam o material de um dia para outro, às vezes antes do início das filmagens. Trabalhavam apenas duas horas por dia, o que deixava Jack Warner possesso (ele os queria trabalhando full time). Com sete semanas de filmagem, faltando apenas duas para encerrar o cronograma, não havia decisão sobre o final. Bergman reclamou: “Como vou interpretar uma cena de amor se eu não sei como a história vai terminar?” Ela trabalhou a maior parte do tempo no escuro, provando que era uma grande estrela. A cena final foi gravada um pouco antes do encerramento das filmagens.


Eu literalmente adoro a idéia de uma grande produção como Casablanca se construindo dia-a-dia, aparentemente quase de improviso. Caminante, no hay camino. El camino se hace al andar, o que é sempre atraente, seja na vida, na arte, ou mesmo na indústria. Aqui se mostra a magia de uma indústria, o studio system, em sua melhor face, combinando talento, criatividade, técnica e big money. Casablanca, o filme, recheado de cenas antológicas, é um dos pontos altos deste sistema. Em certas áreas circula a história que a Warner considerava Casablanca apenas como mais uma das centenas de produções que Hollywood fazia todo ano. Errado. Desde o início a produtora sabia que tinha um grande filme na mão; só não sabia quão grande seria o sucesso que fez e continua a fazer.


Não há quem não se comova com a história de amor, com uma Bergman virginal realçada pela fotografia de Arthur Edeson (o mesmo de Falcão Maltês). O personagem inicialmente seria o de uma americana aventureira, e foi modificado posteriormente para se adequar à Bergman. Michael Curtiz se inspirou em um poema de Heinrich Heine para o nome e o personagem:


I am the Princess Ilse

And dwell in the Ilsenstein;

Come with me to my castle,

We will be happy there…

You will forget your pain,

O heartsick man!


Mas a virginal Bergman, nas lendas hollywoodianas, era notória pelos seus casos com seus leading man (embora fosse casada), e a Princess Ilse tinha um elemento de perigo em sua aura de sonho de amor, perigo este que poderia levar um homem à destruição, ou, talvez, simplesmente deixá-lo abandonado em uma estação de trem, debaixo da chuva, com um bilhete na mão.


E levar um homem a renunciar a seu amor, porque pouco importa a vida de três pequenas pessoas neste mundo louco.


Para mim, foi o início de uma bela amizade.

Casablanca recebeu em 1943 os Oscar de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro adaptado. Foi indicado também para melhor ator (Bogart), melhor ator de apoio (Claude Rains), melhor fotografia, melhor edição, melhor score musical (Max Steiner). American Film Institute o tem incluído entre os 100 melhores filmes americanos de todos os tempos (em 3.º lugar, atualmente). No Youtube você pode ver as cenas memoráveis, e ouvir sem parar aquela fabulosa corny música, As time goes by. As informações foram recolhidas no livro BOGART, de A.M. Sperber e Eric Lax (William Morrow and Company, Inc. New York)

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