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CHLORIS FAZ CEM ANOS



Quando você tiver um problema, busque uma solução. É o método da Professora Chloris Casagrande Justen, que faz cem anos.


Imagem de Hatsuo Fukuda



Certa vez ela me contou que um dos motivos da criação do Centro Paranaense Feminino de Cultura foi para dar oportunidade a que as mulheres saíssem de casa. Isso foi nos anos 30 do século passado. Curitiba, apesar de ser a capital da província, era uma pequena e modorrenta cidade. E, num tempo em que o mundo já havia praticamente normalizado a educação e o trabalho feminino, a província ainda se dedicava a fechar as mulheres nos claustros domésticos e das igrejas, o que chamou a atenção de Chloris Casagrande Justen e outras intelectuais e as motivou a criar o Centro, ainda hoje atuante.


Ela não era apenas uma senhora “do lar”, como se dizia antigamente. Normalista, como as mocinhas de boa família da época, era professora e se dedicava a desasnar as criancinhas no Instituto de Educação. Não era uma atividade trivial. No Brasil pouco educado, os antigos Grupos Escolares, dedicados ao ensino primário (da 1.ª a 4.ª séries), eram a única e escassa oportunidade da população fugir ao analfabetismo e à incultura. Eram, aqueles grupos escolares, as poucas luzes existentes na Terra dos Papagaios. E aquelas normalistas eram as portadoras da luz, abre-alas do Caminho Suave, que alfabetizou milhões de crianças Brasil afora.


Eu a conheci na Secretaria de Educação, onde ela foi bater as portas, alguns anos atrás (vejo agora que ela tinha, na ocasião, 88 anos). Presidente da Academia Paranaense de Letras, estava preocupada com o ensino de História do Paraná, que era ignorada nos currículos escolares, e foi pedir ao Secretário, Flávio Arns, alguma providência. Era este o tipo de preocupação que a movia. Franzina, aparentando ter ossos frágeis, movia-se com cautela, mas seus olhos brilhavam à medida que expunha seus pensamentos. Decididamente ela tinha alguma coisa a dizer, e a expunha com clareza e determinação. Estava preocupada com a ignorância da atual e das futuras gerações. A professora normalista ainda estava atenta e forte.


Uns poucos anos depois, Chloris e o senador Flávio Arns (na época era secretário de Assuntos Estratégicos), chamaram interessados em discutir uma solução para o Belvedere, um prédio histórico que estava abandonado, no Alto São Francisco. Abandonado pela cidade, mas ocupado por moradores de rua e ponto de encontro de usuários de craque. Idem a Praça João Cândido. Chloris nos levou ao local, tomado por lixo e excrementos.



Imagem de Hatsuo Fukuda


O Museu Paranaense, ao lado, também preocupado, cedeu o espaço para as reuniões do grupo. Comerciantes da região, moradores, as igrejas da vizinhança (inclusive a mesquita, do lado), todos, em algum momento, participaram das discussões. Em tempo, vieram representantes do IPPUC, do Patrimônio Histórico, da Secretaria de Segurança, e medidas foram tomadas. O IPPUC fez um projeto de revitalização da praça. O Senac assumiu o compromisso de lá instalar um café. A Polícia Militar instalou um posto mais próximo da praça. A Prefeitura Municipal bancou financeiramente a reconstrução do prédio, que havia sido incendiado. Não esquecendo que sem o prefeito Rafael nada teria acontecido. Hoje, no andar superior, funciona a Academia Paranaense de Letras e o Observatório da Cultura Paranaense, e no térreo, um café do Senac. De lambujem, a Praça voltou a ser do povo.


Foi uma bela obra coletiva, fruto da pertinácia de Choris, que pediu ajuda a Flávio, que iniciou o movimento. Não fosse ela, a cidade estaria chorando a perda do prédio e lamentando a incúria das autoridades e o descaso da comunidade com seu patrimônio. Ela tinha 93 anos nesta ocasião.


Dia 15 de setembro, Chloris faz cem anos. Sei que continua lúcida, atenta. O Centro Paranaense Feminino da Cultura, que a tem como presidente emérita, fará uma homenagem a ela no dia 19. A presidente do Centro, Elieder, informa que haverá uma apresentação da pianista Larissa Boruschenko e das alunas do Instituto de Educação. Nada mais apropriado: reunir a nova geração com uma das que a antecederam. A chama ainda aquece nossos corações. Obrigado, Chloris, aguardamos o seu chamado para outras batalhas.

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