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CINEMATOGRAFIA NUDISTA EM CURITIBA EM 1933

Cena do filme  Elysia. Valley of the nude (Elysia. Vale do nudismo), que  passou em Curitiba em 1933, no Cine República.
Cena do filme  Elysia. Valley of the nude (Elysia. Vale do nudismo), que passou em Curitiba em 1933, no Cine República.

CINEMATOGRAFIA NUDISTA EM CURITIBA

       

Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

Nudismo é o uso de estarmos nus em momentos variados, com naturalização da nudez, por sua vez correlato ao entendimento de que nenhuma parte do corpo humano, masculino ou feminino, é vergonhosa; de que a nudez natural (não sexual) nada tem que ver com sexualidade, indecoro, desrespeito, libertinagem, malícia nem com pecado e sim com naturalidade, liberdade, conforto, saúde, prazer; de que qualquer pessoa, de qualquer idade, pode estar nua a sós e com outrem (nudez social) sem tabus, sexualização nem conotação negativa, no lar, em família; em campos e praias. Em suma: há espírito nudista que produz a prática nudista, em que se toma a nudez como naturalidade e liberdade, saúde e prazer, divorciada de sexualidade, vergonha e malícia.


O ideal nudista consiste na ideia de ser a nudez moralmente inocente e benfazeja; de que, em si, nada contém ela de sexual nem de censurável, e de que parte alguma do corpo é intrinsecamente vergonhosa. Em suma: liberdade com naturalidade sem malícia. 


Anúncio do filme Elysia, Vale do Nudismo, que divulgava as vantagenso do naturismo para a saúde física e mental. Estreou no Cine República, em Curitiba, em 1933.
Anúncio do filme Elysia, Vale do Nudismo, que divulgava as vantagens do naturismo para a saúde física e mental. Estreou no Cine República, em Curitiba, em 1933.

De 1903 a 1925, oito livros da autoria do alemão Ricardo (Richard) Ungewitter, publicados na Alemanha, todos à volta do nudismo, lá introduziu o ideal nudista. Tiveram ótima aceitação, foram reproduzidos em cerca de cem mil exemplares e reeditados sucessivamente; influenciaram acentuadamente o espírito e os costumes dos alemães, austríacos, croatas.

 

Em meados dos anos 1920, por iniciativa do francês Marcelo (Marcel) Kienné de Mongeot, repontou o nudismo na França, em que também rapidamente obteve adesões, sobremodo nas classes elevadas da França, apesar da oposição dos pudicos.


Depressa o nudismo tornou-se movimento cultural e de costumes que se espraiou pela generalidade dos países europeus e pelos E. U. A., na forma de grêmios, campos, piscinas, nudismo doméstico (em família), jardins de infância, fotografias, cinematografia.


Dentre outras duas películas cinematográficas de divulgação do nudismo que se fizeram, duas foram exibidas em Curitiba:


1) Elysia. Valley of the nude (Elysia. Vale do nudismo). Foi produzida em 1933, nos E. U. A., sob supervisão de Hobart Glassey, diretor do campo de nudismo Campos Elísios (Califórnia), no intuito de demonstrar os benefícios da exposição integral do corpo aos raios solares e ao ar, e seu fundamento na na valorização da saúde mental e física.


Elysia. Valley of the nude (Elysia. Vale do nudismo), filme produzido em 1933, por Hobart Glassey, expondo as vantagens para a saúde física e mental de seus praticantes.

Dura 45 minutos; no 17º minuto personagem expõe os malefícios do encobrimento do corpo, as virtudes do nudismo e suas vantagens psicológicas e sanitárias. A contar do 24º minuto veem-se imagens captadas no campo de nudismo Campos Elísios, presentes homens, mulheres e crianças, todos despidos.


Foi divulgado em Curitiba reiteradas vezes na gazeta O Dia, como “Um libelo tremendo contra a malícia !” (O Dia, 17 de setembro de 1935); em outro anúncio de aproximadamente meia página, via-se gravura de moça nua e fotografia de outra, tendo ao colo criança, ambas despidas (O Dia, 1º de outubro de 1935).


A projeção dele decorreu em 1º e 2 de outubro de 1935, no Teatro Palácio.


Anúncio do filme La Marche au Soleil, que passou em Curitiba em 1933. Anúncio do jornal O Dia,
Anúncio do filme La Marche au Soleil, que passou em Curitiba em 1933. Anúncio do jornal O Dia,

2) La marche au soleil (A marcha sob o sol). Foi documentário acerca dos campos e das praias de nudismo europeus e dos métodos de fisiculturismo neles empregados, apresentados pelo médico e sexólogo Pedro (Pierre) Vachet, autor de La Nudité et la physiologie sexuelle (1928).

A folha O Dia divulgou-o repetidamente, antes de sua estreia e durante sua exibição, com anúncios de formato grande e explicitação de seu conteúdo nudista: “Estupendo filme demonstrativo do progresso da cultura do nudismo integral e dos seus métodos de cultura física” (O Dia, 27 de janeiro de 1933 e outros dias); “O grande acontecimento científico-cinematográfico que obteve em toda a Europa e América do Norte o mais ruidoso sucesso. La marche au Soleil ou O NUDISMO NA EUROPA, tal como é praticado. Um interessantíssimo filme que nos apresenta os campos de nudismo europeus e os métodos da cultura física” (O Dia, 29 de janeiro de 1933).


Cena do filme Elysia. Valley of the nude, que passou em Curitiba, no Cine República, em 1933.
Cena do filme Elysia. Valley of the nude, que passou em Curitiba, no Cine República, em 1933.

Matéria relativa a esta película enfatizava: “Quase todas as opiniões conhecidas sustentam que ele [o nudismo] traz benefícios inestimáveis ao corpo humano [...]. Agora que tanto se fala em nudismo, não podia ser mais oportuno o filme La Marche au Soleil, anunciado para o próximo dia 1º, quarta-feira, no Avenida.” (O Dia, 27 de janeiro de 1933).

Esteve em cartaz de 1º a 4 de fevereiro de 1933 no cine Avenida, proibido para menores.

 

***

 

Em janeiro de 1933 o publicista francês Renato (René) Deckers fundou na fazenda Córrego Fundo (Goiás) o primeiro campo de nudismo da América do Sul (O Dia, 11 e 15 de janeiro de 1933); simultaneamente, nas praias da cidade do Rio de Janeiro imperava o nudismo, sobremodo nas distantes (O Dia, 31 de dezembro de 1933 e 3 de novembro de 1935).


Por interesse político de granjear apoio da igreja católica, Getúlio Vargas favoreceu-a assaz no seu afã de reconquistar o espírito dos brasileiros, que dela se ia afastando e laicizando; vai daí o ensino majoritariamente católico, a inculcação de suas doutrina e mentalidade, e formação de costumes com elas condizentes, por sua vez pudicos e gimnofóbicos.

Do pudor e do velamento do corpo resultam a malícia e a estigmatização de certas regiões do corpo, duplo efeito ausente do espírito nudista.


Atualmente no Brasil, o ideal nudista raramente é assunto, embora os jovens sejam maioritariamente indiferentes à nudez e muitos pratiquem-na em suas moradas, nas regiões quentes do Brasil.


Toda praia há de ser de nudismo facultativo.

 


Arthur Virmond de Lacerda Neto é um adepto do naturismo.

Arthur Virmond de Lacerda Neto é um adepto do naturismo.

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