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MAZZINHA FAZ ANIVERSÁRIO E GANHA UM PRESENTE

Mazzinha, o maior carnavalesco da cidade de Curitiba. Assista o vídeo Mazzinha, minha fantasia sou eu, de Estevan Silveira,e você vai concordar.
Mazzinha, o maior carnavalesco da cidade de Curitiba. Assista o vídeo e vocêvai concordar.

MAZZINHA FAZ ANIVERSÁRIO E GANHA UM PRESENTE


Hatsuo Fukuda


O irmão de Mazzinha, Luiz Geraldo Mazza, tinha feito 80 anos. Era o decano do jornalismo paranaense, dedicado principalmente ao jornalismo político, nas páginas da Folha de Londrina, e em comentários diários na Rádio CBN, fazendo dupla com o impecável e sempre correto José Wille. Os amigos não deixariam passar a data em branco, e organizaram uma festa comemorativa. A festa fora realizada na Sociedade Garibaldi, na praça do Relógio das Flores – local mais do que adequado, lembrando que a família era de italianos. Uma festança.

Todo o mundo político e jornalístico da cidade esteve lá.


Luiz Geraldo Mazza, o mais famoso comentarista político do Paraná, era o irmão mais velho do Mazzinha.
Luiz Geraldo Mazza, o mais famoso comentarista político do Paraná, era o irmão mais velho do Mazzinha.

Mazzinha, irmão caçula, amava apaixonadamente o irmão. O laço fraterno numa familia italiana se somava a uma admiração enorme pela inteligência e vivacidade do irmão mais velho. Mazzinha dedicou sua vida a atividades culturais, relacionando-se com artistas, músicos, atores, gente do meio artístico, principalmente. Seu irmão, nas colunas jornalísticas, dedicava-se ao comentário político. E, num país que considera arte e cultura como produtos descartáveis e discute política apaixonadamente – esta divisão entre lulistas e bolsonaristas sempre existiu, com outros nomes – naturalmente o nome de Luiz Geraldo Mazza era mais conhecido do que o de Mazinha, um mero agitador cultural.


Só se falava no nome do irmão mais velho, o que provocou ciúmes no irmão caçula. Foi neste momento, logo após a festa, que Áureo Zamprônio Filho, meu sócio no escritório, o encontrou, chateado porque havia sido eclipsado por Lulu (ele sempre o chamava assim, Lulu, apelido familiar). O aniversário de Mazzinha se aproximava, e ninguém se lembrava de promover para ele uma festa de arromba como a do irmão.


Os amigos de Mazzinha o lançaram candidato a prefeito de Curitiba. Deveria ter sido candidato a Presidente. Seria muito melhor do que estes que andam por aí.
Os amigos de Mazzinha o lançaram candidato a prefeito de Curitiba. Deveria ter sido candidato a Presidente. Seria muito melhor do que estes que andam por aí.

Áureo e eu pensamos imediatamente em dar a Mazzinha um presente de consolação. Era sexta-feira, seu aniversário seria no domingo, e seria comemorado no Bar Brasileirinho, na Rua Mateus Leme, bem próximo ao Cavalo Babão. Uma canção, o presente mais adequado a alguém que passara a vida envolvido com a arte e a cultura. E, sendo um animado carnavalesco, uma marchinha de carnaval seria a escolha óbvia.


Redigi uma letra, pensando nas aventuras amorosas do personagem – algumas realmente surpreendentes e engraçadas – e a título de consolo, surgiu o título: Chupisco pro Mazzinha. Áureo, piadista, inseriu os trechos surreais na letra – na hora. Sua veia cômica e satírica estava a mil.


Gegê Felix, músico e compositor, fez a marchinha carnavalesca em menos de duas horas.
Gegê Felix, músico e compositor, fez a marchinha carnavalesca em menos de duas horas.

Liguei para o Gegê Felix, nosso amigo músico, e combinamos um almoço no Bife Sujo, no dia seguinte. Gegê, como todo músico curitibano, que vive tocando em bares e restaurantes da cidade, tinha uma preocupação mundana por comer todos os dias e pagar o quarto do hotel em que vivia, na Boca Maldita. Uma feijoada grátis viria a calhar, no sábado.


Entre uma garfada e outra explicamos a questão. Tínhamos a letra, e precisávamos da música. E tinha que ser uma marchinha – Mazzinha o carnavalesco mais conhecido de Curitiba - coisa fácil para um músico tarimbado como Gegê – e tinha que ser para hoje. Alimentado, de bom humor, Gegê topou na hora. Em seguida fomos ao escritório. Gegê, armado com o violão e a letra na mão, começou a trabalhar. Fiquei espantado com a evolução do trabalho. Alguns acordes toscos iniciais aos poucos se transformaram em uma canção. Foi rápido. Não deve ter demorado duas horas (foi bem menos) e canção estava pronta.


Nosso presente para o Mazinha:


Chupisco pro Mazzinha

Que maldade da Vandinha

Ela não perdoou

Prometeu um chupisco pro Mazzinha

Foi e nunca mais voltou

Vai Vai Vandinha

Dá um chupisco no Mazzinha

Vai vai Vandinha

Dá um chupisco pro Mazzinha

Bye Bye Mazzinha

Te procurei no Vidigal

Acordei em Antonina

Mas você estava mal

Vai Vai Vai Vandinha

Dá um chupisco pro Mazzinha


 

Chupisco-pro-MazzinhaLETRA DE HATSUO FUKUDA E AUREO ZAMPRONIO FILHO, MÚSICA DE GEGÊ FELIX

Eram umas quatro e meia da tarde e precisávamos gravar. Gegê ligou para alguns amigos e conseguiu um estúdio, em um bairro distante, que se dispôs a abrir as portas no sábado à noite.


E os músicos?


Saul do Trumpete, a lenda da noite curitibana, era um homem animadíssimo, sempre disposto a fazer música.
Saul do Trumpete, a lenda da noite curitibana, era um homem animadíssimo, sempre disposto a fazer música.

Áureo ligou para Saul do Trumpete. Ele estava no dolce far niente, após o almoço do sábado, e, animado como sempre, concordou (como era animado, o Saul). Gegê, versátil, tocaria os demais instrumentos.


Pensamos na Norma Ceci para cantar. Onde anda a Norma? Nós a localizamos em um barzinho na Rua Padre Anchieta, próximo ao apartamento onde morava, tomando umas cervejas. Ela, claro, disse não. Nos aboletamos no meu Gol, eu, Gegê, Áureo, Saul, um violão e o trumpete e fomos atrás da Norma Ceci.


Norma Ceci durante muitos anos trabalhou como crooner em casas noturnas da cidade. Eram casas com boas orquestras, com um cantor ou uma cantora, aonde as pessoas iam para dançar. Grandes pistas de dança, com casais abraçados, dançando boleros e canções românticas. Ela fazia um grande sucesso, e sua beleza e as minissaias que expunham suas pernas invejáveis não prejudicavam sua popularidade
Norma Ceci, cantora e agitadora cultural, durante muitos anos animou os bailes da cidade.

Norma Ceci estava à vontade no bar – era vizinha deles, – sentou e ouviu a música, um copo de cerveja na mão. Ela, como sempre, sorridente e amigável, mas determinada a proteger o relaxamento do sábado à tarde. Ela estava trabalhando no Governo, e suponho que a chatíssima burocracia estatal estava cobrando um preço à artista e boêmia Norma Ceci. O sábado era sagrado, ponto.


Norma Ceci durante muitos anos trabalhou como crooner em casas noturnas da cidade. Eram casas com boas orquestras, com um cantor ou uma cantora, aonde as pessoas iam para dançar. Grandes pistas de dança, com casais abraçados, dançando boleros e canções românticas. Ela fazia um grande sucesso, e sua beleza e as minissaias que expunham suas pernas invejáveis não prejudicavam sua popularidade. Eram necessárias uma grande dose de bom humor e estamina para manter a disposição da platéia nas madrugadas, e Norma Ceci tinha energia e carisma de sobra para animar o público. A cantora da noite Norma Ceci não poderia resistir à aventura que lhe propunham os amigos músicos. Entramos todos no carro.


O estúdio ficava longe, muito longe, mas o carro, mesmo lotado, resfolegando, chegou lá. Era um quartinho na parte de trás de uma loja, lotado de aparelhos de gravação, em um grande terreno, e nos fundos, havia um sobradinho onde morava o proprietário do estúdio. Era um homem de barba, relativamente corpulento – vá lá, era gordo, barbudo, cabeludo, vestia uma camiseta do Black Sabath e uma bermuda. Gegê apresentou a todos, e começaram a trabalhar. Um pouco antes, reservadamente, Gegê assegurou ao desconfiado titular do estúdio que sim, ele seria pago, não havia com que se preocupar, apontando para mim, como garantia do negócio. Eu, um pouco afastado, fiz sinal de positivo. Não era hora de explicar ao rapaz, adolescente de 40 anos, um velho roqueiro, os problemas financeiros de um advogado que amava os Beatles e os Rolling Stones.


Às vezes ele desaparecia. Gegê controlava os instrumentos em sua ausência. Da porta, víamos o rapagão na janela do sobrado, fumando ervas naturais como se não houvesse o dia do amanhã. Ele preferia fumar solitário a dividir a bagaça com estranhos.


Como as coisas estavam demorando, fomos atrás de uma cerveja para animar a loirinha. Começou a chover torrencialmente. O titular do estúdio sumiu definitivamente, perdido nos embalos de sábado à noite em seu quartinho de roqueiro adolescente. Gegê, não familiarizado com os instrumentos, fez o que podia. Por volta da meia-noite conseguiu fechar a gravação, que se ressente da precariedade. Até hoje ele se envergonha do trabalho, que somente veio a ser publicado quando o Estevan Silveira a colocou no documentário Mazzinha – Minha fantasia sou eu.


O documentário de Estevan Silveira, Mazzinha, minha fantasia sou eu, está disponível no Youtube e aproveitou a canção Chupisco pro Mazzinha.

No dia seguinte, domingo, dia da Feirinha no Largo da Ordem, fomos até o Bar Brasileirinho encontrar Mazzinha. Ele já estava na fase eufórica, envolvido com abraços e beijos dos amigos que haviam lotado o bar.


Eram os mesmos de sempre: artistas, músicos, cantores, atores, saltimbancos e equilibristas de Curitiba. Bebendo e dançando, no ritmo da vida. Era uma festa de arromba, descontraída e alegre, no cenário mais adequado ao homenageado, um brasileiríssimo botequim. Pedimos para tocar o CD. Ouvimos a marchinha, e aguardamos ansiosos o veredito do homenageado. Mazzinha foi simples e direto:


Nunca comi nenhuma Vandinha.


Hatsuo Fukuda, desconsolado, é solidário com Mazzinha. Ele também nunca conheceu uma Vandinha.

     

Hatsuo Fukuda, desconsolado, é solidário com Mazzinha. Ele também nunca conheceu uma Vandinha.

1 comentário


Norma Cecy
há 3 dias

Que bacanaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!´Lembro como se fosse hoje!!!!!!! Foi bem engraçado!!!!!!!! Foi uma honra participar!!!!!!!!! Amo vocês!!!!!!!!!!!

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