Deserto de Ideias: A Inteligência Artificial está Sufocando o Pensamento?
- INÊS LACERDA ARAUJO

- há 12 minutos
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Deserto de Ideias
Por Inês Lacerda Araújo
Jornais, streams, postagens, comunicação instantânea, vídeos curtos, jogos, soluções para dúvidas, informação em escala planetária. Pergunte e o robô responde: dados e mais dados. A impressão que se tem é a de que não existem mais dúvidas; tudo pode ser esclarecido pela Inteligência Artificial, que resume, pesquisa e traduz textos, livros, notícias — e não sei até que ponto a literatura e a poesia.
Enfim, vivemos sob uma quantidade avassaladora de informação, de estatísticas e de resoluções de problemas. A sonhada Enciclopédia dos Iluministas está agora na palma da mão, com acesso praticamente universal.
Mas, cadê as ideias?!
Nas histórias em quadrinhos, quando um personagem tinha alguma ideia, isso era (ainda é?) representado por uma lâmpada acesa acima da cabeça. Fez-se luz. Até o Pato Donald é capaz.
Ter uma ideia é algo que não pode ser buscado nos milhões de dados, na informação técnica ou na comunicação veloz. Ter ideias requer pensar. É o resultado de estudos, leitura, interesse pelo mundo, pela condição humana, pelas situações banais ou espetaculares. Nasce das tentativas — bem-sucedidas ou não — de solucionar problemas, de criar, de insistir, de ter visão de mundo e uma total e completa abertura para o ser mesmo de tudo.
Ter ideias significa transformar no lugar de apenas reformar. É a capacidade de questionar com base, fundamento, lucidez, fidedignidade e sabedoria. É a possibilidade de inovar, de evidenciar o que está acobertado, de ver o simples no complexo e o complexo no simples.
Raramente ocorre às pessoas que elas podem e devem entender o limite infinito de sua capacidade de pensar por si próprias. Essa capacidade se anula ao aderir a esta ou àquela liderança, a este ou àquele mandatário sem pestanejar, abaixando a cabeça e seguindo. O resultado é a decadência, a idolatria, a imitação, o culto à personalidade e a anulação de si mesmo e de seus gostos — predileções que, talvez, a própria pessoa já nem saiba quais são, dado o nível do conformismo atual.
Sem pensadores dignos do nome e sem lideranças com ideias próprias e renovadoras, restam apenas salvadores, ditadores, pastores inflamados, chefes arbitrários, oligarcas, condutores de massas, líderes apocalípticos, propagadores de ideologias, usurpadores de direitos e manipuladores.
É do interesse desses personagens lidar com multidões, arrebanhar seguidores, cooptar fidelidade, mascarar erros em legalismos e erigir supremacias. Seguir o chefe, como na brincadeira infantil, parece vantajoso, pois seguir é muito cômodo!
Para que pensar se eu posso simplesmente usufruir?
Publicado originalmente no blog filosofiadetododia.

Quem é a autora
Inês Lacerda Araújo nasceu na Lapa, Paraná, em 1950. É graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), instituição onde atuou como professora do Departamento de Filosofia entre 1974 e 1998, lecionando as disciplinas de Filosofia da Ciência, Filosofia da Linguagem e História da Filosofia Contemporânea. Entre os anos de 2000 e 2009, atuou também como professora e pesquisadora no Curso e no Programa de Mestrado em Filosofia da PUC-PR.
É autora de obras de referência na área acadêmica, como Introdução à Filosofia da Ciência (Editora UFPR), Foucault e a Crítica do Sujeito (Editora UFPR) e Do Signo ao Discurso: Introdução à Filosofia da Linguagem (Editora Parábola), fruto de sua tese de doutoramento. Publicou também o livro eletrônico A teoria da ação comunicativa de J. Habermas.










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