CRÔNICAS DE MANAUS II: Fados, tabernas e um professor que declamava Camões
- JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

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Fados, tabernas e um professor que declamava Camões
Por José Ribamar Bessa Freire
Nota do Editor: Continuamos hoje a publicação da trilogia de crônicas de Manaus de José Ribamar Bessa Freire no Dialeticos.com. Neste segundo episódio, o autor relembra a presença da colônia portuguesa no bairro de Aparecida e as inesquecíveis e teatrais aulas sobre Camões no Colégio Estadual do Amazonas.
Tripa de vitela
Mas os portugueses vivos, de carne e osso, não cessavam de chegar a Manaus, especialmente na época áurea da borracha. Mais recentemente, a longa noite tenebrosa da ditadura de Salazar (1932-1968) fez com que muitos deles emigrassem para o Brasil por razões políticas, econômicas ou familiares. Foram acolhidos no Bairro dos Tocos, onde a colônia lusa se tornou numerosa. Abriram comércios de secos e molhados, mercearias, padarias, açougues, tabernas e bares.
Talvez o bairro de Aparecida fosse mesmo o lugar mais interessante, nos anos 40 e 50, para um portuga recomeçar sua vida em Manaus. Havia um clima receptivo, lusófilo, gerado pelo saudoso comandante Ventura, criador do Corpo de Bombeiros Voluntários de Manaus e fundador do Grupo Musical de Danças Folclóricas Lusas formado por meninas do bairro, entre elas quatro irmãs minhas. O quartel dos Bombeiros ficava na Alexandre Amorim, rua que abrigava vários comerciantes nascidos em Portugal.

Nesta rua, lá no Plano Inclinado, se instalou o Mário Soeiro com um bar. Duas quadras acima a taberna de seu irmão Cassiano na esquina com a Coronel Salgado, além do armazém de secos e molhados do seu Armindo da Casa Dias já na confluência com a Dez de Julho, rua onde ficava o Bar Brasil do seu Antônio e a Loja Cabacense de Antônio Gonçalves Pureza, que vendia ferramentas, produtos importados e miudezas.
Os portugueses se espalharam pelas 15 ruas e 13 becos do bairro. O comércio do Fernando português ocupava um imóvel na esquina da Xavier com a Gustavo Sampaio, bem em frente à taberna do seu Júlio, natural de Viana do Castelo. Ainda na Xavier, a padaria do seu Armando fazia pão em forno de lenha, tendo como vizinhos seu Porfírio Afonso e dona Amália do Distrito de Leiria, além das lusitanas Alzira, Balula e Armanda.

Carolina Neves conhecida doceira, célebre por seus saborosos pastéis de nata, depois de morta, virou nome de um beco, onde se estabeleceu, em 1953, o Armando da Bica, recém-chegado de Coimbra, então com 17 anos de idade. Com ajuda do seu tio Armindo, dono da Casa Dias, arrendou a taberna da Dona Bati na esquina da Xavier de Mendonça. No mesmo beco, morava dona Vera Margarida numa casa com quintal onde plantava uvas. Bem em frente, o seu Leopoldino e dona Generosa que, justificando o nome, me fez saborear a primeira rabanada e o primeiro pastel de Belém, cujo cheiro de casca de limão e canela guardo na memória afetiva e olfativa.
A dona Carolina Neves era mãe do Zé Buchinho e avó da Fátima Buchinho, a grande estrela do grupo folclórico criado pelo comandante Ventura. Vestida com trajes coloridos típicos da terrinha, com um xale sobre os ombros, Fátima “acabava com o açaí” ao cantar Maria Papoula. Ela era a nossa Amália Rodrigues de igarapé, da mesma forma que o fadista Alfredo Marceneiro do bairro de Aparecida era o Maravalhas.

Nascido em Póvoa de Varzim, José Fernandes Gomes Novo, o Maravalhas, morava na Bandeira Branca e trabalhava com o pai, responsável pela atracação dos navios no porto de Manaus. No fim de semana, porém, ele era poeta, cantor e artista. Cantava fados na Rádio Baré e no Luso Sporting Club, do qual foi diretor e onde, aos domingos, preparava tripa de vitela com chouriço e toucinho. Era vascaíno, como todos os patrícios, nunca perguntei, mas suspeito que não havia lido Os Lusíadas.
Ferida que dói
A maioria dos migrantes portugueses, com letramento precário, não conhecia Camões, que só reapareceu em minha vida quando entrei, aos 16 anos, no Curso Clássico do Colégio Estadual do Amazonas. Lá tive aulas de Literatura Portuguesa com o professor Farias de Carvalho, poeta, fundador do Clube da Madrugada. Aula é um modo de dizer. Ele não dava aula. Declamava. Era ator performático, usava os recursos corporais, as bochechas infladas, as mãos fartas, o olhar penetrante, o riso sardônico. Parecia Orson Welles, no físico e no espírito: um clown charmoso e provocador, corpulento, carismático.
Autor de Pássaro de Cinza (1957) e Cartilha do Bem Sofrer com Lições de Bem Amar (1965), o poeta Farias de Carvalho focou três nomes no programa da disciplina: Gil Vicente no teatro, Sá de Miranda na poesia e Camões na narrativa da história por meio de versos. Por ínvios caminhos, o professor nos fez apreciar esses autores, o que muito me ajudaria nos dois vestibulares que fiz depois na UFRJ: Jornalismo e Direito.

No dia em que ditava um ponto sobre Os Lusíadas, Farias de Carvalho estava com a macaca solta. Baixou nele o espírito de Falstaff, personagem burlesco e farsante de Shakespeare recriado por Welles. Enquanto reverenciava, trovejante, "as armas e os barões assinalados" e velejava, endiabrado, "por mares nunca de antes navegados", viu que nenhum aluno estava interessado, alguns copiavam mecanicamente a aula ditada com repetidos bocejos. Outro confessou que não compreendia aquela linguagem arcaica. Mesmo assim, Farias continuou:
— Os Lusíadas é a epopeia de uma raça, poema épico humanista, com dez cantos, 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos...
Foi interrompido por um aluno menos tímido:
— Desculpa, professor, mas o senhor já leu TUDO ISSO?
-Eu vou lá perder o meu tempo com essa meeeerda - vociferou Farias para estupefação geral. Advertiu para não copiarmos aquela frase no caderno. Fechou parêntese, mudou de personagem e retomou o papel de ator-professor, como se nada houvesse ocorrido. Foi um discutível “tratamento de choque pedagógico” para fazer com que alunos do séc. XX, no Amazonas, pudessem admirar a genialidade de um escritor português do séc. XVI. Com voz impostada e total domínio de cena voltou a exaltar o poema:
— Vocês acham que é uma merda, mas o cara é genial.
Farias recitou de memória o famoso soneto 81 de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver”, foi ao quadro negro e o copiou na íntegra. “Amor é ferida que dói, e não se sente”? Começamos a perceber que sentimentos e problemas registrados por Camões eram os mesmos de hoje, embora a linguagem inicialmente pudesse parecer chata e difícil, criando enorme distância entre a língua que falávamos e a escrita poética que, para sua época, foi ousada e inovadora, com um domínio dos recursos da arte da versificação.
— Com um olho só, Camões viu mais longe do que qualquer homem do seu tempo – ensinava Farias de Carvalho, revelando que o poeta perdera o olho direito numa batalha no Marrocos. A aula não havia ainda terminado e um papelzinho já circulava de uma carteira à outra, com uma caricatura, batizando de Camões nosso colega Flávio Farias, que tinha a córnea opaca e era cego de um olho. Aí foi bullying mesmo.
Na próxima semana: Não perca o encerramento da trilogia: O Prêmio Camões e a Literatura Lusófona, com as reflexões sobre a escritora Lídia Jorge e as históricas polêmicas do prêmio.

José Ribamar Bessa Freire é jornalista, Doutor em Letras e professor da Pós-Graduação em Memória Social da UNI-Rio e da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas. Com vasta obra publicada sobre a Amazônia e a história social da linguagem, escreve semanalmente para jornais amazonenses desde 1984 e é o criador e editor do site Taquiprati, onde a crônica foi originalmente publicada.










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