Margarida Langer e o Lar Lapeano de Saúde
- Arthur Virmond de Lacerda Neto

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Margarida Langer e o Lar Lapeano de Saúde
Arthur Virmond de Lacerda Neto
Existe, na cidade da Lapa, estância de bem-estar naturista, o Lar Lapeano de Saúde. Fundou-o Ema Margarida Bornschein-Krisch (filha e neta de emigrantes da atual República Checa e da Prússia), natural de Joinville, em que nasceu em 1891 e onde viveu até seus 14 anos (1905), quando lhe morreu o genitor.
Primogênita, com cinco irmãos e mãe muito dependente, tornou-se arrimo de sua família, o que lhe alterou o curso da vida. Cancelou noivado que travara com fazendeiro que emigrara para os E.U.A. e permaneceu em Joinville até se mudar para Curitiba, o que fez no intuito de maridar-se com Roberto Langer, seu parente e vinte anos mais velho do que ela.
Eles tinham gênios discrepantes: enquanto ele era introvertido e nada afeito à cultura, ela era comunicativa, extrovertida e interessada por literatura e música. Foi casamento fadado ao malogro, que sobreveio com a separação, após dez anos.
A fim de sustentar-se, Margarida abriu a Casa Margarida, adicta à mercatura de artefatos de tecidos, armarinhos, lãs, linhas, agulhas. Principiou em 1949, na rua Marechal Deodoro, entre as ruas Barão do Rio Branco e Monsenhor Celso. Pertencia à própria Margarida e a Langer, Irmão e Companhia Limitada, por sua vez composta dos sócios Walter Schwaner, Egon Langer e Irene Langer, de que o primeiro era gerente e o segundo, filho de Margarida.
Posteriormente, a loja instalou-se no rés do chão do número 149 da rua Tobias de Macedo, em prédio de dous andares, em cujo segundo andar (no apartamento à esquerda de quem o vê da rua) habitavam Walter Schwaner, sua esposa e sua filha Irmgard (Mausi, de apelido).

Esta, por sua vez, ali residiu com Luís Castellano Biscaia até meados dos anos 1980, como inquilinos. Eram-me tios paternos e lá estive com eles em minha infância algumas vezes.
O interior da Casa Margarida (na rua Tobias de Macedo) era aconchegante, exalava cheiro de lã e era colorido, graças a sem-número de novelos dispostos em escala de matizes, em prateleira especial. Ela tinha vitrina que dava para a rua, como era costume na altura. Mausi inicialmente era caixeira da Casa Margarida; tornou-se-lhe sócia e gerente em 1957, quando Margarida Langer se retirou do quadro societário. A razão social manteve-se, bem como o ramo de comércio.
Interessada pela alta cultura, Margarida fez de seu lar sede de sessões de música clássica, com piano, violoncelo e violino, em que congregava amigos das famílias Frank, Pöck e Seyer; ali também promoveu leituras em voz alta de peças dramatúrgicas de Goethe, Schiller e Lessing. Dava-se com pintores como Lange de Morretes, Alfredo Andersen, Guido Viaro.
Ela padecia cronicamente de colite e de gastrite; procurou os recursos da medicina tradicional, inutilmente, pelo que buscou terapêuticas alternativas. De um amigo recebeu prospecto da “Naturheil Klinik”, clínica de Ralf Bircher Benner, na Suíça, que visitou em 1953, em viagem que também lhe proporcionou avivamento de sua fé protestante.

A clínica Benner pertencia a movimento mundial chamado naturismo, de medicina não alopática, que preconizava alimentação vegetariana, abstenção de álcool e de fumo, inaugurada na Alemanha no âmbito de movimento chamado reforma da vida, por Sebastião [Sebastian] Kneipp (1821 – 1897).

Na França, inaugurou o naturismo o médico Paulo [Paul] Carton (1875 – 1947), autor de vários livros a respeito e cujas doutrinas granjearam assinalado êxito e incontáveis adeptos, dentre os quais, em 1926, Marcelo [Marcel] Kienné de Mongeot introduziu-lhe o nudismo. Repontou com isso a ala nudista dos naturistas; vem daí a sinonímia entre nudismo e naturismo que eram, originariamente, doutrinas distintas, embora colimassem o mesmo fito de melhorar a saúde humana.
Por sua vez, o nudismo foi movimento cultural e higiênico de intensa voga na Alemanha desde os anos 1910, por efeito dos livros de Ricardo [Richard] Ungewitter (1869 – 1958), e na França em resultado da ação de Kienné de Mongeot. Da Alemanha propagou-se pela Europa afora.
Ao regressar da Suíça, Margarida concebeu o anelo de instituir no Paraná estabelecimento naturista (não nudista), o que principiou a concretizar com a compra de sítio nos arredores da Lapa, a fazenda Invernada, parte do latifúndio que fora a fazenda Roseira, de Arthur Virmond Suplicy (1866 – 1945), antigo maragato.
Na Invernada, que se passou a nomear Margarida, edificou a sede do Lar Lapeano de Saúde, estância naturista de bem-estar e saúde, em pavilhão grande, de rés do chão e andar, inaugurado em 1972, a 14 quilômetros do centro da Lapa. Nos anos a seguir, tornou-se conhecido pelo hipocorístico Lapinha.
Suas instalações dispunham já de aquecimento central, entretimentos (televisor, tabuleiros de xadrez, piano, leitura). Produzia in loco gêneros alimentícios de consumo próprio (laticínios, feijão, batata, trigo, arroz, nozes, frutas, verduras). Os quadros de pessoal compuseram-se, inicialmente, de freiras originárias especialmente da Alemanha; atualmente compõe-se de 170 empregados.
Margarida Langer expirou em 1978, porém o Lar Lapeano de Saúde perdura. Nos anos 1980 aumentou-se-lhe o número de quartos, ampliaram-se-lhe a secção de fisioterapia, sauna e piscina. Suas atividades mantêm-se na atualidade, em mãos das terceira e quarta gerações de Margarida Langer.
*O autor usa exantropônimos, isto é, prenomes traduzidos para o português, no que segue a tradição de inúmeros países, inclusivamente o Brasil, infelizmente interrompida há alguns anos. Entre colchetes vão os endônimos.
Nota do Editor: O antigo Lar Lapeano de Saúde, fundado por Dona Margarida Langer em 1972, consolidou-se como o primeiro spa médico do Brasil. Hoje conhecido internacionalmente como Lapinha Spa, o espaço permanece sob a gestão das terceira e quarta gerações da família, mantendo os pilares da medicina integrativa e do naturismo em uma reserva ecológica na Lapa, Paraná. Para conhecer os programas atuais de bem-estar ou realizar reservas, acesse o site oficial do Lapinha Spa.

Sobre o Autor
Arthur Virmond de Lacerda Neto é curitibano, advogado e historiador especializado em História do Direito pela Universidade de Lisboa. Dedicado ao resgate da memória cultural e genealógica regional, é membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Paraná (IHGEP) e autor de diversas obras biográficas, jurídicas e ensaios históricos, incluindo seu recente trabalho investigativo Revelações do Cerco da Lapa.










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