DIÁLOGO ENTRE UM DOUTOR E ARTHUR VIRMOND DE LACERDA NETO
- Arthur Virmond de Lacerda Neto
- há 4 dias
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A ausência de várias preposições em diferentes situações revela o estado do brasileiro supostamente letrado, quanto ao vernáculo: estado de subconhecimento, despreparo, desleixo. Anos a fio de desprezo pela gramática, de glorificação das "variantes", do popular, do mudancismo, do antiportuguesismo, resultaram nisto.
[Doutor] — Mas se a gente [não sabe dizer: eu, nós] não usar elas dá para entender.
[ A. V. L. N.] — Você pode exprimir-se com propriedade, rigor lógico e correção, ou sem nada disto e falar com desleixo, como "todo o mundo" que sabe mal e imita o desconhecimento alheio. Como tudo na vida, optará entre ser apenas medíocre ou ser melhor do que a mediocridade.
— Mas veja bem: a gente tem o idioma brasileiro, a língua é organismo vivo e você não querer engessar ela com a gramática lusitana.
— As preposições propiciam rigor lógico às frases; são elementos inteligentes do idioma, desenvolvidas ao longo de séculos, e consagradas pelos gramáticos em suas gramáticas devido a seu valor como instrumento de eficaz comunicação. No caso do português, a tarefa de observação, reflexão, seleção e organização fez-se com base em séculos de literatura existente em Portugal. Os brasileiros e mais países lusófonos são beneficiários do esforço secular de nossos antecessores portugueses, que nos legaram nosso idioma e seus requintes.
— Beleza, mas, tipo, Portugal é só nos livros de história. A língua é organismo vivo e têm mudanças ocorrendo no Brasil, a gente não tem porque ficar preso à gramática lusitana.
— Nem toda mudança é para melhor. Mudar por mudar não é intrinsecamente valioso; é desejável mudar para melhor.
—Ah, [es] tá. Então, tipo, a gente tem que ficar preso às regras que fizeram trezentos anos em outro país ?
— O "outro país" era o nosso país há trezentos anos; aquele e este país eram o mesmo, até 1822. É com base nelas e graças a elas que tu e eu entendemo-nos neste momento. Ademais, por que mudar, para que mudar, que sentido há em mudar o que é bom e que, por sê-lo, conserva-se há trezentos anos e mais ? Por que mexer no que nos permite entendimento, sobretudo se a mudança empobrece, retira elementos de precisão, rigor, exatidão, se nos diminui a capacidade de pensamento e de exata expressão de ideias, sentimentos, vontades ?
— Mas dando para entender, qual é o problema de mudar e simplificar ?
— As simplificações e as mudanças que subtraem precisão, diminuem a eficácia e até a graça com que falamos.
— Me diga, ninguém tem que ser literato, ainda menos quando fala. Se a gente se entende, para que regras ?
— Entendemo-nos graças às regras e não ao desregramento. Ninguém precisa de ser literato, mas todos queremos ser entendidos, queremos que nos entendam, efeito para o qual a língua é nosso instrumento. Quanto mais bem usado, tanto mais bem seremos entendidos porque com tanto mais acurácia exprimir-nos-emos. Tu próprio, falas-me e entendo-te porque segues inúmeras regras da herança portuguesa. Note que nosso idioma é português, não é brasileiro, não foi criado aqui, de 1500 ou antes, para cá.
— A gente tem coisas bem nossas, como as gírias da gente, que fazem parte do jeito que a gente fala.
— Do extrato mais ínfimo e efêmero da coloquialidade de que em poucos anos nem tu te recordarás.
— Mas eu acho que dá para falar “nós pega o peixe”, que todo o mundo entende.
— Entende; também entenderá “nós pegamos o peixe, vós pegais o peixe, tu pegas o peixe, eu pego o peixe, ele pega o peixe, eles pegam o peixe”.
— E daí ? Isso não está com nada, não prova nada.
— Prova que com seis pessoas do discurso tu podes exprimir-te com precisão, riqueza, variedade e arte, ao passo que normalmente quem diz “nós pega o peixe” diz assim não porque quer e sim por incultura.
— Quer dizer que você acha que “nós pega o peixe” não é regra do brasileiro...
— Nem o pode ser: é produto de pouca escolaridade, de carência de escola de qualidade, de leitura, e da mentalidade de que o importante é comunicar-se.
— É claro que é.
— É importante comunicar-se com qualidade, com cultivo do conhecimento do idioma, com o hábito da leitura dos melhores autores. A qualidade, a riqueza, a destreza, a graça são virtudes em favor da boa comunicação; elas encarnam-se na gramática, encontram-se nos bons autores.
— Que ninguém precisa ler.
— Enquanto tu pensares assim, tu só saberás exprimires-te como ouve os outros fazerem e será dependente do ambiente que te circunda. Tu falas em independência idiomática do Brasil em relação a Portugal, porém todo apedeuta do idioma é dependente do ambiente em que vive, das ignorâncias alheias, dos vícios alheios, do nível alheio. Somente o cultivo do idioma é libertador. A independência individual e o engrazamento social passam pela norma culta e não ao contrário.
— Afinal, que tem que ver as preposições com tudo isso ?
— Sabê-las e usá-las é o mínimo que se deve esperar de alguém minimamente bem formado em língua portuguesa.
— Não preciso. Sou doutor, tenho doutorado.
— E erras as preposições, desconhece mesóclises, contração pronominal, as segundas pessoas, tens parco léxico. Tu tens título sem teres a altura correspondente em vernáculo.
— Eu fui aprovado por banca.
— E se a banca fosse de conhecimento do vernáculo, de redação graciosa, correta, com estilo próprio e livre de erros, tu tiravas nota vermelha. Ser doutor indouto, ter título sem dominar doutoralmente o vernáculo, é motivo de vergonha.
— Não tirei doutorado em português, sou de Exatas, lido com números, o idioma é para o pessoal de Letras.
— Seja "de Exatas", seja "de Letras", todos são "do idioma". Os estudantes brasileiros tiram os últimos lugares nos exames PISA há décadas; o vulgo já não sabe preposições e fala e escreve sem elas. O pior é ler textos de doutores com doutorado e doutorandos fluentes em inglês, com estágios "sanduíche" nos E. U. A. ou na Inglaterra, com artigos publicados em inglês, e ineptos nas preposições de seu primeiro idioma. São brasileiros fluentes em inglês e subpreparados em português. Dá vergonha.
A primeira obrigação de todo cidadão é a de saber bem e usar bem seu primeiro idioma, doutor ou não. Aliás, as bancas de doutorado deveriam examinar a qualidade com que os candidatos falam e escrevem: escreve mal, desconhece preposições, mesóclise, conjugação verbal, fica reprovado.
—Não [se] pode ser radical, o que importa é a pesquisa, nem "todo o mundo" é professor de português.
— Isto não é ser radical. O conhecimento com qualidade do idioma é o mínimo que se espera de qualquer cidadão e ainda mais de quem aspira a altos estudos. Não tem que ser professor de português, tem que saber o português. A pesquisa é outra coisa. Mestrando, bacharelando, professor de segundo grau, estudante de segundo grau, cidadão brasileiro, elevar-se às riquezas e às virtudes do idioma é o mínimo que se pode exigir da pessoa bem formada.

Arthur Virmond de Lacerda Neto é o último amante da inculta e bela língua portuguesa.










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