top of page

Rosinha, o cronista improvável

há 1 hora
4 min de leitura
Retrato em plano fechado do médico e cronista Dr. Rosinha, com barba e cabelos brancos, camisa social clara e expressão serena e sorridente sobre fundo branco neutro.

Rosinha, o cronista improvável

Do mezanino do Bond Bar ao lançamento de seu novo livro: memórias de uma Curitiba que sabia conversar.


Hatsuo Fukuda


Minha lembrança mais antiga dele é de quando o conheci, no Bond Bar, que ficava numa galeria na Rua Emiliano Perneta. O Bond era inicialmente uma livraria, e tinha um bar anexo. Os jornalistas e intelectuais amigos do Rosnel Bond e Cesar Bond, sócios no empreendimento, logo a transformaram em um bar, com uma livraria anexa. Em seguida – uma evolução notável – assumiu-se definitivamente, os livros esquecidos nas estantes em meio à fumaça de cigarros e tilintar de garrafas e copos. No claustrofóbico mezanino nos acotovelávamos, discutindo as questões candentes no início dos anos 1980, em que uma onda refluía e outra, aos poucos, tomava forma.


Rosinha – eu não sabia que era apelido – às vezes aparecia, tranquilo, mimetizando os bêbados de sempre, um ar odara – a palavra era dessa época – mas, não sei se por vício profissional (ele ainda era estudante de Medicina, ou recém-formado), pouco bebia e não fumava, ao contrário da maioria de nós, profissionais do álcool. E apesar do ar riponga, não era dado às ervas naturais que muitos de nós consumíamos. Sua natureza se manifestava na conversa tranquila, serena, bem-humorada, amigável, dispensando chaves artificiais.


O estereótipo petista da época era um personagem do cartunista Angeli, publicado na Folha de São Paulo, um barbudinho enfezado, usando uma capa e com tendências paranóicas e salvacionistas. Era verdadeiro o estereótipo, que infestava as escolas e locais frequentados por jovens. Mas não era o caso do Dr. Rosinha, um tipo naturalmente franciscano. Aliás, eu sequer sabia que ele era petista.


Quando ele saiu candidato pela primeira vez, a vereador, colou alguns cartazes nos muros da cidade, anunciando que política tem remédio, fugindo do blablablá salvacionista, ligando sua medicina diária (ele era médico de um postinho de saúde da prefeitura na periferia) à política, e foi um sucesso. Não só o pessoal do bairro votou nele: todos nós votamos, mesmo os não petistas como eu.


Pobre Rosinha, ingênuo Rosinha. Às vezes, ele subia à tribuna para prosaicamente ler notícias tiradas da Folha de São Paulo, numa tentativa de trazer um pouco de Brasil a uma Câmara de Vereadores infensa ao mundo. Os vereadores, como sempre foram, tinham preocupações restritas ao buraco na rua, à falta de água no bairro, a necessidade de um melhor atendimento à comunidade. Debates mais amplos não eram com eles. Mas eles espelhavam uma necessidade que de outra forma não seria atendida.


Rosinha logo alçou outros voos, e eu o perdi de vista, eventualmente sabendo que levara seu fusquinha a Brasília, e mesmo presidira o Parlamento do Mercosul. Eu o vi, uma vez ou outra, no Aeroporto, ou na Boca Maldita, ele sempre animado.


O fusquinha de Rosinha (não sei se ele ainda o tem) é um caso à parte. É o máximo que um garoto riponga, que viajava de carona na juventude (no site Revérbero a história é contada), se permitiria. Ele o levaria a Brasília, como deputado federal. Na Corte brasiliense devem ter estranhado seu despojamento. Mas não estranhariam se soubessem que no Paraná havia um precedente ilustre: o Dr. Milton Luiz Pereira, que fora prefeito de Campo Mourão, e renunciando para ser juiz federal – depois ministro do STJ -, foi presenteado pela população agradecida com um fusca, que foi o seu único carro pelo resto da vida. Rosinha apenas seguiu uma tradição da província.


Hoje, o debate político se tornou uma algaravia, e a lembrança de Rosinha lendo notícias nos jornais, para ilustração dos vereadores da terra, me faz sorrir. Bons tempos, aqueles. Na Câmara de Vereadores, hoje, acontecem coisas extraordinárias. Recentemente, uma vereadora, nascida no Ceará, e que fez a vida em Curitiba, foi convidada por uma colega a voltar para sua terra, insinuando de que lá nunca deveria ter saído. Xenofobia, racismo? Escolha, caro leitor.


E Curitiba é uma terra que enriqueceu graças a seus imigrantes, gente vinda de todas as partes do mundo e do Brasil. Tito Guimarães Filho, nosso articulista mineiro, acha que Curitiba é uma terra cosmopolita. Pobre Tito, não sabe da missa a metade. O câncer da intolerância se disseminou e criou raízes na outrora Cidade Sorriso, Cidade Universitária, Terra de Todas as Gentes (Olá Paulo Vítola e Marinho Galera!). Curitiba cada vez mais se parece, do tríptico daltoniano - província, cárcere, lar -, a segunda parte: cárcere.


Mas não o Doutor Rosinha. Ele não era intolerante na juventude, e com o tempo, sua principal característica, a afabilidade, se acentuou. Esta, fazendo parceria com uma visão atenta à realidade, se materializa em crônicas que tem publicado num jornal local, o Plural.


Rosinha é um grande cronista e observador da vida, tal como se apresenta aos seus olhos. Ao contrário da maioria dos políticos, ele olha para o mundo e o . Políticos, como se sabe, nunca deixam de nos assombrar com sua ignorância, egoísmo e cegueira. E sua inabilidade com a palavra escrita. Mas não o Rosinha.


Agora ele lançou um livro, Cartas para o Lula, coletânea de cartas que mandou ao Presidente Lula, quando ele se hospedou compulsoriamente em Curitiba. O lançamento foi no Bar Nina, ali na Avenida Marechal Deodoro, que lotou com seus muitos amigos e admiradores. Não pude ir, ocupado com meus pobres afazeres. Perdi de dar um abraço no grande escritor, além de ser xingado por alguns amigos que me aguardaram em vão com uma garrafa na mão.


Confesso que não li o livro. Estive na Livraria Curitiba, na Boca Maldita, e ele não estava disponível. Mas, conhecendo a habilidade narrativa de Rosinha, deve ser bom. Esqueça as disputas políticas. Rosinha é um mestre da palavra, vale uma missa.



Capa do livro Cartas para o Lula, de Dr. Rosinha, com fundo texturizado em tom alaranjado, título em letras brancas em destaque e selo das editoras Kotter e Goyazes no rodapé.


Caricatura do autor do artigo desenhada pelo cartunista Paixão, usando óculos escuros e com expressão bem-humorada.

Hatsuo Fukuda, leitor viciado, é um grande admirador do cronista Dr. Rosinha.

Comentários


bottom of page