O Sol que Responde: Os Três Amanheceres de Jorge Tahech
- JORGE TAHECH

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O Sol que Responde: Os Três Amanheceres de Jorge Tahech
Por Hatsuo Fukuda
Em 1893, um menino de cinco anos chamado Israel Baline desembarcava em Nova York fugindo da violência na Rússia czarista. Anos mais tarde, sob o pseudônimo de Irving Berlin, ele se tornaria um dos maiores compositores dos Estados Unidos e autor de "God Bless America", o hino não oficial que nasceu não como uma marcha patriótica, mas como uma prece de agradecimento à terra que lhe deu um lar.
A história de Berlin se confunde com a saga de tantas famílias — como os Assad, Bark, Feres, Richa, Maluf, Temer, Hijaz e tantas outras — que cruzaram oceanos, venceram a angústia do recomeço e ajudaram a construir o tecido da nossa própria nação. Mudar de país é um ato de coragem mística.
O relato que vocês lerão a seguir, enviado pelo meu grande amigo Jorge Tahech — advogado formado pela UFPR que há doze anos vive em Miami com a família —, é a continuidade desse fluxo humano. Sob o título de Carta da América, Jorge usa o nascer do sol como metáfora das fases de sua jornada.
Mas o leitor atento perceberá que o segundo amanhecer descrito por ele ultrapassa o registro geográfico. No limite da insônia e do medo, Jorge vive na sacada de um apartamento uma verdadeira epifania, uma experiência quase mística onde seu clamor por um sinal divino é respondido pela própria luz que rompe a escuridão. É a reiteração, em pleno século XXI, da mesma prece silenciosa que o jovem imigrante russo depositou em sua canção há um século.
Com vocês, a Carta da América.
Carta da América
Jorge Tahech
Hatsuo, meu grande amigo, bom dia! Espero que esteja tudo bem com você. Do nosso lado tudo segue excelente, graças a Deus. Muito boa essa retomada de contato depois de tantos anos... Que saudades de você, meu parceiro. De coração aberto, eu digo isso.
Como eu tenho o hábito de caminhar todo dia pela manhã, acordo muito cedo. Quatro e meia, cinco horas eu já estou de pé. Acha que é coisa de idoso? Enfim, acordo muito cedo e saio para caminhar bem no alvorecer do sol. E hoje eu fiquei pensando nas várias vezes em que vi esse nascer do sol por aqui, e nos sentimentos tão diferentes que experimentei em cada um deles.

Nessa caminhada de hoje, lembrei do primeiro nascer do sol que vi nos Estados Unidos. Foi quando vim aqui pela primeira vez, cheguei em Miami com toda a família. Mais uma família de turistas para conhecer os Estados Unidos, a Disney, a Universal... E como a gente chegou de madrugada, aluguei um carro para ir até Orlando. E nessa viagem de carro, eu tive a boa sorte de ver um nascer do sol maravilhoso.
Naquele momento, toda a família estava dormindo — a esposa e as minhas três filhas, que eram muito pequenas. Primeira viagem nos Estados Unidos, eu dirigindo por aquela estrada Miami-Orlando, e aquele nascer do sol foi realmente algo muito bacana. Parecia que eu estava vivendo um filme americano, sabe? Da pessoa dirigindo, a família dentro do carro dormindo, e aquele sol maravilhoso nascendo. Foi algo muito bom, muito bacana mesmo. Um sentimento... nossa, de satisfação, de uau, né? Estou na América, dirigindo aqui para Orlando, naquela estrada maravilhosa, sem buracos... enfim, você deve ter vindo aqui, então sabe bem do que eu estou falando. Foi um sentimento muito bacana esse primeiro nascer do sol.

Já um outro nascer do sol que vale mencionar para você foi quando eu decidi, junto com a família, fazer uma experiência de um tempo mais prolongado aqui. A gente veio no começo não para ficar direto, mas para um projeto de dois anos. E quando a gente chegou no apartamento, já de noite, todo mundo foi dormir e eu desabei. Era um projeto de dois anos, uma coisa difícil de fazer, sobretudo pelas minhas responsabilidades com os negócios que eu tenho no Brasil — e tenho até hoje, o escritório e outros assuntos. Aquilo me trouxe uma preocupação enorme se eu estava fazendo a coisa certa.
O resultado? Eu não consegui dormir. Foi uma noite muito mal dormida. Levantei sozinho, fui ali para a sacada do apartamento e fiquei olhando aquele nascer do sol com muita, muita preocupação. Foi um nascer do sol completamente diferente, rezando para Deus para que Ele me mandasse um sinal se eu estava fazendo a coisa certa. Entender se realmente aquele movimento tinha sido correto. Eu estava muito angustiado.
Mas quando amanheceu de vez, naquele nascer do sol, eu senti uma paz tão bacana... Pensei: "Não, acho que está certo, o caminho é esse mesmo, vai funcionar, vai tudo dar certo". Trouxe paz no coração, sabe, Hatsuo? Foi um sentimento muito especial. Primeiro de angústia, que foi desaparecendo para ser substituído por um alívio. Esse foi bem marcante, porque trazia todo esse desafio.

E, por último, meu amigo, o nascer do sol que eu acompanho quase todas as manhãs agora. Tem vezes que ele fica tão lindo que merece uma parada para uma fotografia. É o nascer do sol que traduz a minha oração de: obrigado, meu Deus, por estar onde eu gostaria de estar, com quem eu gostaria de estar e fazendo o que eu gostaria de fazer. É realmente uma benção, uma dádiva, uma graça que me foi concedida poder viver isso.
Trago para você aqui a experiência de quem está aqui há mais de uma década, são mais de 12 anos. E que entende que, enfim, escolher o caminho certo valeu a pena, sobretudo pensando nas minhas filhas. Hoje elas já estão bem crescidas, todas formadas, empregadas, as duas mais velhas casadas, encaminhadas. Um futuro que, talvez, elas não chegassem perto de ter se estivéssemos no Brasil. Então, por elas, principalmente, eu estou com a alma em paz. Sei que escolhi o caminho certo. Estou feliz por essa opção que a gente exercitou lá no passado. Obrigado.
Hoje eu tenho certeza que passamos muito mais da metade do caminho de um dia pensar em voltar para o Brasil. Acho que é para seguir adiante aqui, cada vez com raízes mais fortes do que imaginar voltar. Então, é isso, meu parceiro. Esta é a experiência de alguém que veio do Brasil cheio de dúvidas, viveu a experiência de turista, depois o primeiro dia como um novo residente permanente, e agora, depois de tanto tempo, a tranquilidade, já como cidadão americano, né? É um longo trajeto.
Mas, de todo modo, as nossas raízes ainda estão aí. Muitos negócios no Brasil, muita ligação, continuamos brasileiros. Um amor grande pela família e também, especialmente, pelos amigos, como você. É isso, espero ter ajudado te falando dessas experiências, desse nascer do sol que te encontra de maneira especial em cada uma dessas situações, sempre com sentimentos diferentes. Tá bom, meu parceiro? De maneira tranquila eu falo isso, de coração aberto. Um grande abraço, meu parceiro, muita saúde, paz e alegria a você, sempre!
Jorge Tahech é advogado no Brasil há 38 anos e atua diretamente de Miami, onde oferece apoio estratégico aos clientes do seu escritório, o Tahech Advogados, que possuem ou pretendem estabelecer relações comerciais com os Estados Unidos. É colega de turma da Faculdade de Direito da UFPR e amigo especial do articulista Hatsuo Fukuda, de quem guarda profundas saudades.










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