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DUNA 2


O ano começou bem. Grandes filmes no Oscar, e a estréia de Duna 2. Denis Villeneuve fez o maior filme de ficção científica das últimas décadas. Depois de Duna, a ficção científica subiu de patamar.


Imagem promocional.


Isabella Boscov, em seu canal no Youtube, conta que não queria sair do cinema, após o final. Foi um difícil retorno à realidade, após 2 horas e quarenta minutos de felicidade cinematográfica. Eu, da minha parte, em determinado momento, durante a sessão, pensei comigo mesmo que ainda teria mais de uma hora de filme, o que tornou ainda mais alegre meu coração, arrebatado por tanta beleza. Sugestão da Boscov – nossa maior crítica de cinema hoje – é assistir o filme na maior tela possível. Um Imax, de preferência. Concordo plenamente.


Alguns não gostaram do primeiro Duna. Um amigo achou muito chato. Penso no filme – é um único filme, pelo menos para mim – como uma sinfonia, em que a primeira parte introduz os personagens, os temas, os cenários, em um ritmo lento e majestoso. A seguir, em Duna 2, o maestro desencadeia de maneira exata e determinada, milimetricamente preciso, toda as fúrias, as delicadezas, as monumentalidades da história. E aos atores e atrizes – um elenco fenomenal – resta apenas fazer o que mais gostam: brilhar.


Denis Villeneuve, que é um grande cineasta, autor de grandes filmes, neste filme se alçou ao panteão dos grandes mestres, se é que havia alguma dúvida quanto a isso. Reparo que usei a palavra “grande” três vezes na mesma frase. Para não deixar dúvidas, repito: grande.


A história de Frank Herbert, se você não a conhece, trata de um planeta que é um imenso deserto, Arrakis, onde potências coloniais exploram a especiaria que faz mover o universo. Sem a especiaria não haveria viagens espaciais. Lembra alguma coisa? Petróleo, talvez? Os habitantes de Arrakis, o povo Fremen, falam e rezam como beduínos na Península Arábica. A riqueza, entre eles, se mede pela quantidade de água que possuem. É um povo totalmente integrado à vida no deserto. A irmandade Bene Gesserit, durante centenas de anos, plantou entre as populações do deserto a lenda da vinda do Messias, e aos poucos, as pessoas passam a acreditar que Paul Atreides (Chalamet) é aquele a quem esperavam. Em torno dele se agruparão para travar a guerra santa, a Jihad, contra seus inimigos, os Harkonenn, uma cruel potência colonial, o Império, a Corporação, e (spoiler) o resto da humanidade. Como diz Paul Atreides, ainda indeciso a seguir o papel que dele esperam, “Bilhões de pessoas morrerão nesta Jihad”. A guerra com todos os seus horrores aguarda nossos guerreiros, como bem sabem os combatentes das guerras santas.


Como todo bom livro de ficção científica, Frank Herbert, em linguagem dirigida ao público infanto-juvenil, trata de temas sérios sob a forma de uma ópera espacial. E, como os melhores, sem querer querendo, exerce o papel de antena da raça. Os grandes temas que ainda não entraram na agenda humana, surgem profeticamente nos melhores livros. Arrakis se desgarra da Península Arábica e do triste papel das potências coloniais, e discute o futuro da humanidade e o equilíbrio necessário com a natureza. Tudo isso sob a forma de entretenimento para jovens em formação e adultos que jamais se tornarão sérios, como este escriba eventual.


No filme, Villeneuve extrai do grande elenco uma atuação formidável. Chalamet não é um garotinho bonito e indeciso. Ele é bonito, indeciso, e como todo adolescente está a procura de seu caminho. No decorrer do filme ele se revela um homem duro e capaz de liderar homens empedernidos como os habitantes do deserto. Dá medo. Zendaya não é uma cantora pop star. É uma atriz consumada que nos convence que é a única mulher possível para acompanhar o profeta em sua jornada. Rebeca Ferguson nos inspira piedade como mulher de um homem que ela sabe condenado a morrer, e mãe de um filho que ela anseia ser o escolhido (mas teme por ele se não for). Depois, inspira medo como a alta sacerdotisa, implacável na conquista do poder. E a grande Florence Pugh surge como uma sacerdotisa Bene Gesserit e filha do Imperador. No final - atenção para o spoiler – Anya Taylor Joy surge como a irmã louca de Paul Atreides. Caso Villeneuve consiga executar os novos filmes com base na saga – fala-se de três novos filmes – ambas terão papéis de destaque na continuação, se os livros de Herbert forem utilizados como base.


Não perca. Filmaço.



Um amigo perguntou: “Afinal, o que comem estes Fremen?”. A julgar pela maneira que fazem café, e a certeza da falta de banhos, a comida não deve ser grandes coisas. Aliás, Lawrence da Arábia, no livro Sete Pilares da Sabedoria (um grande livro, um clássico que lembra Júlio Cesar. Se Lula tivesse lido o livro não diria besteiras sobre o Oriente Médio), conta um episódio sobre comidas no deserto. Mas os beduínos tinham ovelhas, arroz e especiarias para temperar a comida. Preciso reler Duna. Mas não me lembro de referências à comida do deserto. Deixe de ser preguiçoso e descubra você mesmo, amigão.

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