RAYMOND CHANDLER E BILLY WILDER ENGANAM A CENSURA. PACTO DE SANGUE FAZ UMA REVOLUÇÃO EM HOLLYWOOD
- Hatsuo Fukuda

- há 6 minutos
- 4 min de leitura

RAYMOND CHANDLER E BILLY WILDER ENGANAM A CENSURA. PACTO DE SANGUE FAZ UMA REVOLUÇÃO EM HOLLYWOOD
Hatsuo Fukuda
O pessoal da Paramount estava preocupado. Eles tinham os direitos para um romance de James M. Cain – Double Indemnity - mas havia dois problemas. A poderosa Liga Católica e o Hays Office vigiavam Hollywood com olhos de águia, atentos a qualquer desvio da moralidade vigente, e Cain era tudo aquilo que eles não gostavam. Seus livros eram recheados de sexo, crime, adultério, fraude. Tisk tisk tisk. O outro problema, este imediato, era fácil de resolver. Cain, a primeira escolha para elaborar o roteiro do filme, não estava disponível. Alguém sugeriu o nome de Raymond Chandler, um escritor de romances e histórias de detetives publicadas em revistas pulp fiction como The Mask, revistas que eram vendidas por centavos nas bancas de jornais. Ele foi chamado.

Chandler nunca tinha trabalhado em Hollywood, e não estava acostumado aos modos vigentes lá. Seus romances não tinham feito sucesso. Os grandes escritores de histórias de detetives eram Dashiell Hammet e Eric Stanley Gardner. James M. Cain havia entrado na lista de best sellers, mas Chandler, que já havia publicado The Big Sleep, ainda não era um sucesso de crítica ou de público. Wilder, entretanto, havia ficado encantado com os diálogos de Chandler e dizia: “Quem é capaz de escrever isso hoje em dia?”.

Foi uma parceria difícil, mas proveitosa. Mais tarde, Chandler disse que foi uma das maiores provações de sua vida. Ele era um homem recluso, lutando com alcoolismo – ele voltou a beber escondido neste período – e se ressentiu de trabalhar na mesma sala junto com Wilder. Mas de alguma forma o trabalho foi concluído. Embora seja difícil dizer o que pertence a quem, seguramente pode-se dizer que os diálogos afiados na maioria pertencem a Chandler, e a estrutura se deve a Wilder, o homem do cinema.
Pacto de Sangue conta a história de um corretor de seguros, Neff, que se envolve com Phillys, a mulher de um homem de negócios. Eles planejam matar o marido e ficar com o dinheiro do seguro. Adultério, sexo, fraude, violência. Tudo aquilo que Hollywood havia desistido de fazer, no decorrer da década de 30, com medo da censura. Mas estávamos na primeira metade dos anos 40 e a Paramount, detentora dos direitos do livro de Cain, estava disposta a fazer uma tentativa. Para isso escalou Wilder, um diretor novato (ele havia feito apenas dois filmes até então). Ele nada tinha a perder. Fred MacMurray, até então um ator de comédias, havia sido escalado porque todos os atores principais da Paramount haviam recusado o papel, temerosos de encarnar o papel de um assassino e adúltero. Barbara Stanwick foi convencida por Wilder (“Você é uma atriz ou uma ratazana?”, perguntou Wilder. Ela foi indicada ao Oscar pela sua atuação).
Um exemplo de como ambos, Chandler e Wilder, driblaram o Hays Office e a Liga Católica. No início do filme, Neff, o corretor de seguros, chega a casa de seu cliente e encontra a mulher dele, Phyllis (Barbara Stanwyck).
Ele é todo sorrisos - sorrisos de vendedor de seguros – para os censores. Mas para os espectadores, o sorriso diz outra coisa. Eles conversam:
Phyllis – Há um limite de velocidade no Estado: 45 milhas por hora.
Neff – Eu estava muito rápido?
Phyllis – Eu diria que estava a 90.
Neff – Suponho que você me dê uma multa.
Phyllis – Suponha que eu dê uma advertência.
Neff – Suponha que não seja necessário.
....
Neff - Você estará aqui amanhã?
Phyllis – Imagino que sim. Normalmente estou.
Neff – Mesma poltrona, mesmo perfume, mesma tornozeleira?
Phyllis – Eu me pergunto o que isso significa.
Neff – Eu me pergunto se você se pergunta.
É de trânsito que eles estão falando? Os olhares e sorrisos – o conjunto da cena – diz tudo. Uma sugestão poderosa, mas que vai direto na veia. Estava aberta a porta para o lado negro da força que o Hays Office e a Liga Católica se esforçavam para esconder.
O filme fez um grande sucesso e Hollywood prestou atenção. O filme foi indicado para sete Oscar, em 1945, inclusive melhor filme, roteiro adaptado e direção. Não ganhou nenhum, mas firmou a estrela de ambos, Wilder e Chandler, em Hollywood.

Um detalhe revelador: quem ganhou o Oscar de melhor filme e melhor roteiro foi Going My Way (de Leo McCarey, um grande cineasta), a história de um padre boa praça. O filme é bom, e mereceu os prêmios que ganhou (sete, de 10 indicações), mas é também revelador de como Hollywood sabia como navegar em águas turbulentas. Ambos os filmes eram da Paramount, e comentou-se que a Academia não quis afrontar o Hays Office.
De qualquer modo, a porteira fora aberta. Double Indemnity é considerado um marco do cinema noir. A fotografia e a trilha sonora tornaram-se canônicas no gênero. Billy Wilder partiu rumo a se transformar em uma lenda hollywoodiana. Para Chandler, significou, além de redenção econômica, que seus livros passariam a ser levados à tela, tal como ele os imaginara.

The Big Sleep, um de seus grandes livros, em seguida seria filmado por Howard Hawks, com o detetive Philip Marlowe interpretado por Humphrey Bogart, com grande sucesso. Mas esta é outra história.
Double Indemnity (Pacto de Sangue) – Roteiro de Billy Wilder e Raymond Chandler. Direção de Billy Wilder. Foi indicado a sete Oscar: Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Atriz, Fotografia, Trilha Sonora, Som. Curiosidade: neste ano (1945), Ari Barroso teve a canção Rio de Janeiro, do filme Brazil, indicada para o Oscar de Melhor Canção Original. Quem ganhou foi Swinging on a Star, de Going my Way. Foi o ano de Bing Crosby e Going my Way. O filme Brazil é um exemplo da diplomacia de boa vizinhança dos tempos da guerra. Está no Youtube, na integra. A versão (traduttore, traditori) do diálogo é minha, com auxílio do Gemini.

Hatsuo Fukuda é um cinéfilo de arrabalde. E concorda com Raymond Chandler, que dizia que se Shakespeare vivesse no nosso tempo, trabalharia em Hollywood.










Comentários