FANTASIADO DE BUNDA EM FESTA DE TARADOS

Fantasiado de bunda em festa de tarados
Por Caio Brandão
O espetáculo chegou ao fim no Palácio das Artes, na avenida Afonso Pena, e as pessoas deixaram vazio o Grande Teatro, em Belo Horizonte, sempre reservado a eventos de maior relevância. Numa das poltronas, retardatário, permanecia em sono aparente o padre Darly — que, à época, havia sido nomeado pelo então governador Itamar Franco como assessor para a redação de missivas de teor reservado e caráter pessoal.
Darly, que não mais era clérigo, mas carregava para sempre a marca indelével do sacerdócio, dormia. Era, entretanto, o sono eterno, porque morto se encontrava. Morreu no transcurso do espetáculo, com elegância e rigorosa discrição, embalado pelos sons que escolhera ouvir e da forma como pretendia escutá-los. A passagem não chamou sequer a atenção daqueles que estavam ao seu lado, embora as cadeiras fossem próximas umas das outras.
Boa noite, meu amigo Darly Gomes Soares.
Estávamos em Ipatinga, no Vale do Aço, na terra da Usiminas, hospedados em hotel típico do interior, sem ostentação e dotado de conforto aceitável. Fomos a serviço de uma autarquia estadual, e nossa missão contemplava levantamentos socioeconômicos, mediante entrevistas com autoridades locais e moradores da cidade, além de contatos com prefeito e vereadores.
Em face disso, optamos por começar com os nativos em um dancing modesto, próximo à nossa hospedagem, recomendado pelo porteiro do hotel. Lugar simples, muitas luzes de cores agressivas e, suspensa no centro da pista de dança, uma esfera giratória feita de fragmentos de espelhos, emitindo reflexos atordoantes e hipnóticos.
Darly, apesar do sacerdócio deixado em passado remoto, mantinha ar episcopal e observava, com reserva, as moças que dançavam, remexendo-se com os trejeitos da época. Vestiam-se com ousadia, mas no estilo cerca: com as vestes protegendo a propriedade, sem, contudo, tirar-lhe a visibilidade.
Malgrado sua aura de superioridade, uma das garotas, extrovertida, sentou-se à nossa mesa e se encantou com a fisionomia taciturna do clérigo que, com ar melancólico, desdenhava dos atributos da mercadoria que a casa oferecia em cardápio desinibido e de valor educado.
A jovem era impetuosa. Começou tocando de leve a mão de Darly, que cortesmente retirou a sua e encaminhou-a em direção à bebida colocada sobre a mesa: um suco amarelo, de sabor artificial.
Mas as mãos da garota, ambiciosas e que não se contentavam com o cotovelo, seguiram empreendendo prospecções cada vez mais vigorosas. Darly se contorcia, num desconforto feito de malabarismo constante, tentando se proteger não apenas das mãos da garota, mas também dos pés e joelhos que, por sob a mesa, trabalhavam com competência e se esfregavam no que encontravam da cintura para baixo.
Darly, exausto, disse à garota que ela devia se conter, por ser ele um vigário com sacerdócio em Salto da Divisa — o que, respeitado o tempo decorrido, era apenas meia verdade.
A jovem não se deu por vencida e retrucou, perguntando se Darly já tinha feito amor.
Darly, com firmeza, afirmou não ser dado às práticas sexuais e que era virgem, estando suas devoções voltadas exclusivamente para Jesus.
A jovem, inconformada e temerosa de competir com Cristo, disse a Darly, cautelosamente, que poderia iniciá-lo nas práticas elementares da sexualidade, de forma delicada, haja vista ser muito experiente e capaz — porque os pênis que ela conhecera, se emendados fossem, dariam para ir de Ipatinga ao Rio de Janeiro e voltar.
Darly, veterano do confessionário e experiente nos aconselhamentos que oferecera ao longo da vida sacerdotal, retrucou:
— Mas, minha filha, você com essa rodagem toda e eu com apenas quinze centímetros? Acho que a minha contribuição nessa quilometragem vai ser muito modesta.

Deixando o amigo Darly com suas evasivas inteligentes, acordo na memória o saudoso Roberto, com quem convivi na empresa e fora dela por mais de duas décadas.
Nossa relação, em que pese a subordinação natural existente entre dono e empregado, tinha duas vertentes: a profissional, com a vigência de todos os seus paradigmas, e a pessoal, que não se misturava com a primeira.
Fora da empresa, era comum nossa presença conjunta em eventos diversos, principalmente políticos, meio em que Roberto costumava se sentir fragilizado. Alguns políticos eram agressivos nas abordagens, e Roberto era pessoa cuja polidez e educação criavam dificuldades para se safar de situações embaraçosas.
Nessas ocasiões, o “não” era comigo, minha especialidade. Eu sacava o “não” e atirava como pistoleiro, sem remorso.
A empresa era poderosa, tinha imensa capilaridade no país, acesso franco e rápido ao poder em todos os níveis, além de contar com cofre capaz de atender às mais extravagantes demandas. E, para estimular ainda mais o imaginário das pessoas, além dos seus sócios, Roberto também tinha no bolso a chave do baú.
Era junho, mês das festas que multiplicam fogueiras, quentão, caldo de feijão e derivações etílicas.
No sítio, o governador recebia eufórico os amigos de sempre: políticos, familiares e a entourage das vizinhanças. A festa era tradicional, mas, naquela ocasião, acontecia em período próximo às eleições.
Roberto, apesar de notório por si mesmo, virou estrela cadente, iluminando as demandas dos candidatos e o imaginário deles, contemplado pelos altos valores financeiros exigidos pelas campanhas.
Um chegava com tapinha nas costas; outro, com a mão estendida; alguns, com ousadia indevida; outros, em contraponto, com reverência exacerbada. E havia, com destaque, um político que, estando Roberto de costas, lhe aplicou no calcanhar alguns leves chutes com a ponta da bota.
Roberto, confundindo a estocada com picada de cobra, saltou de banda, arrupiado. Mas se tratava de outro tipo de picadura.
Aliás, picadura de político em período pré-eleitoral é coisa comum. As picadas chegam pessoalmente, mediante recado, por telefone, via internet... Não importa o meio: o negócio é picar.
O governador, em final de mandato, esforçou-se para socorrer o amigo, inclusive no banheiro, de onde retirou alguém alcoolizado que, dirigindo-se a Roberto, com uma mão regia argumentos, gesticulando eufórico e com os olhos injetados, enquanto, com a outra, tentava encontrar, no interior da calça, o pênis que jazia foragido.
Roberto não havia bebido; não houve tempo.
Esquivando-se de um, desculpando-se com outro, contornando conversas e se revezando de grupo em grupo, ele não suportou a pressão.
Falando baixo com o governador, disse:
— Amigo, vou saltar fora, porque estou me sentindo fantasiado de bunda em festa de tarados.

Caio é jornalista mineiro.











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