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A Velha e a Nova Gazeta do Povo (3/3): Guilherme Cunha Pereira Queima as Caravelas

há 5 horas
8 min de leitura
Guilherme Cunha Pereira discursando em evento, segurando microfone e gesticulando compenetrado sentado em poltrona branca.
Guilherme Cunha Pereira, o missionário que desafiou a tradição e lançou a Gazeta na trincheira conservadora nacional.

Parte III: Guilherme Cunha Pereira Queima as Caravelas: "Nada do que foi será, do jeito que já foi um dia".


Por Hatsuo Fukuda


Nem as mais reluzentes láureas do jornalismo investigativo foram capazes de estancar a sangria financeira da Gazeta do Povo. As rotativas que haviam impresso a denúncia dos Diários Secretos assistiam, impotentes, à fuga dos anunciantes para os algoritmos da Internet. Encurralado entre a falência de um modelo de negócios e a responsabilidade de manter de pé o império da Praça Carlos Gomes, Guilherme Cunha Pereira percebeu algo que a grande imprensa tradicional teimava em desdenhar: um Brasil profundo, colérico e conservador, emergia com fúria, órfão de uma voz institucional.


Ele havia ultrapassado os anos de aprendizado de Publisher. Assessorado por Carlos Alberto di Franco – este o principal acólito da Opus Dei no Brasil na imprensa, através de sua consultoria –, deu a segunda guinada radical que nenhum outro órgão da imprensa brasileira se atrevera a dar.


A Gazeta do Povo se transformou em um pasquim de combate. Cercou-se de colunistas com uma única orientação política: o antipetismo, o antilulismo e a defesa dos valores conservadores. Expoentes da direita nacional foram agregados ao jornal, agora somente digital. Alguns medalhões como Alexandre Garcia, J. R. Guzzo, Guilherme Fiuza, nomes consolidados na imprensa brasileira, com passagens pelos grandes veículos como Veja, Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, apesar de seu permanente oposicionismo, ainda preservariam a qualidade literária que se espera de um jornal. O próprio Guilherme Cunha Pereira passou a expor suas ideias, marcadas pelo tom jurídico e elevado que se espera de um professor de Direito, e Carlos Alberto di Franco, com seus comentários sobre o papel da imprensa, sempre lúcido, racional e elegante.


Mas a imensa maioria dos colunistas limita-se a despejar lugares-comuns atacando os inimigos de sempre. Qualquer dia, qualquer hora, qualquer acontecimento, o leitor encontrará sempre o mesmo chorrilho virulento e irracional. Hay Gobierno, soy contra. Continuamos herdeiros e praticantes da velha cantilena ibérica. Este discurso atrairá o público, que monetizará o jornal via assinaturas. A tradicional separação entre opinião e notícia, que é o padrão da imprensa em todo o mundo, apagou-se. O noticiário foi editorializado, acompanhando a opinião, que por sua vez, é a opinião de sua nova base de leitores, que hoje é majoritariamente nacional. A Gazeta do Povo deixou de ser um espelho da sociedade curitibana, e passou a ser um veículo de opinião bolsonarista.


A cerimônia do adeus. Guilherme queima as caravelas


Esta autêntica revolução jornalística não tem paralelo no Brasil. Assis Chateaubriand, com os Diários Associados, e sua pena afiada e borbulhante, sempre disposta à polêmica e ao debate, é uma lembrança que me ocorre. Samuel Wainer, outro revolucionário da imprensa, com a mais fabulosa rede já criada no Brasil, a Última Hora, poderia ser lembrado, pelo seu engajamento com as políticas getulistas.


Rupert Murdoch, criador de um império de mídia, com tentáculos na Austrália, Inglaterra e nos Estados Unidos seria o paralelo mais adequado. Ele viu uma oportunidade ao constatar que a mídia americana – New York Times, Washington Post, CNN, as grandes redes ABC, CBS, NBC –, atolada até o pescoço no politicamente correto, deixava a descoberto o imenso público conservador do país. Murdoch criou a Fox News, uma rede de colunistas reacionários e pouco dados a checar a veracidade de seus comentários. Murdoch abriu, na prática, o caminho da nova imprensa, num mundo polarizado. E ficou um pouco mais rico com isso.


Chateaubriand, Wainer, Murdoch, Cunha Pereira, todos eles se assemelham em um aspecto, a audácia.



Guilherme Cunha Pereira no programa Opinião na Mesa da Gazeta do Povo, com óculos e as mãos postas à frente em tom reflexivo.
Guilherme Cunha Pereira em "Opinião na Mesa": o professor de Direito, o pregador e o publisher amalgamados no vídeo digital.

Neste processo, Guilherme Cunha Pereira deu um novo passo. Acompanhando os novos tempos digitais, ele criou uma coluna pessoal no YouTube, Opinião na Mesa, onde, na contramão dos costumes da mídia tradicional - o Publisher normalmente se mantém nas sombras - expõe, em tom professoral, educado e culto, suas opiniões, marcadamente de natureza jurídica e constitucional. O professor de direito, o pregador religioso e o jornalista se amalgamaram no veículo preferencial das massas iletradas. Em tom incisivo – com uma forte carga emocional – ele toca nas feridas que dilaceram o país, notadamente, as questões envolvendo o Supremo Tribunal Federal.


Finalmente a operação se realizou. No dia 30 de janeiro de 2026, Guilherme Cunha Pereira, sua irmã Ana Amélia Filizola e seu sócio Mariano Lemanski (filho de Edmundo Lemanski), diante da equipe reunida, em cerimônia transmitida para toda a empresa, anunciaram a separação entre as operações da Gazeta do Povo e os demais veículos de rádio e televisão. Como Hernan Cortez antes dele, na véspera da conquista de um império para os Reis Católicos da Espanha, as caravelas foram queimadas. Não haveria caminho de volta. Ou seria vitorioso, ou pereceriam todos.


A cisão foi uma lição apreendida pela história do velho matutino (aqui a sabedoria dos Cunha Pereira): a operação televisiva expunha a empresa, pois a sujeitava às injunções editoriais da Rede Globo, por um lado, e do Governo Federal, por outro, em vista do cipoal regulamentador (e político) que rege o ecossistema. A memória de Paulo Pimentel e sua briga com o governo não tinha sido esquecida. Guillherme Cunha Pereira monetizou os ativos televisivos, protegeu o flanco e liberou a Gazeta para seus próprios objetivos. A partir desse dia as naus seguiriam separadas.


No ato, Guilherme não conteve a emoção, e teve que interromper seu discurso. Todos aqueles que haviam participado da saga da velha Gazeta do Povo, ao cortarem os laços, choravam, e ele não fugiu à regra. Mas se aqueles velhos jornalistas choravam a perda da Mãe Gazeta, Guilherme chorava a perda do Pai Francisco, a quem, naquele momento, traía, ao abrir mão de uma de suas maiores conquistas, que eram os canais de televisão e rádio. Transmitia-se ao vivo, pela Internet, o assassinato ritual ancestral do Pai, que se transformaria em Tótem, em meio às lágrimas do Filho.


Mas na gravidade do momento – estamos no Brasil – em meio ao sofrimento de um, a mal disfarçada alegria de outro. Lemanski, um neto de banqueiro, de óculos escuros, com seu indefectível chapéu de cowboy – ele é criador de cavalos – pegou o microfone e deu vivas à liberdade e à democracia. O velho conservadorismo nativo seguiria em frente, com uma operação confiável e segura, enquanto seu ex-sócio perseguiria miragens revolucionárias.


Guilherme Cunha Pereira, como sua antepassada, Joaquina de Pompeu, deu sua banana ao Imperador.


Comparação entre a velha e a nova Gazeta


As semelhanças e diferenças entre Francisco Cunha Pereira Filho e Guilherme Cunha Pereira saltam aos olhos: ambos são advogados, professores de Direito, que deram o salto (Guilherme parcialmente, pois ainda continua lecionando) para o mundo da mídia. Ambos são conservadores, imersos no mundo da elite curitibana. Ambos se caracterizam por sua natureza educada e afável, pelo menos externamente, pois não temos elementos para julgar seus comportamentos no interior dos muros do quarteirão onde se abrigou o clã, no bairro do Batel.


A capacidade empresarial de ambos já está demonstrada: Francisco Cunha Pereira Filho e seu sócio, Edmundo Lemanski, transformaram uma empresa jornalística falida e insignificante, numa cidade de 300 mil habitantes, que nunca esteve no mapa econômico e político do país, na maior empresa de mídia do Sul, ultrapassando Minas Gerais e Rio Grande do Sul (Estados muito maiores), além de sobreviver aos grandes veículos da imprensa, como Jornal do Brasil – hoje uma sombra do que foi –, aos Diários Associados de Assis Chateaubriand, e à rede de jornais Última Hora, de Samuel Wainer. Guilherme Cunha Pereira pegou um veículo à beira do abismo, vitimado pelas redes sociais, e transformou-o em um jornal nacional, e o principal porta-voz da direita brasileira.


Ambos foram visionários, ambos foram audaciosos, e sua capacidade empresarial os coloca como um case mercadológico.


Enquanto um construiu o império a partir de uma quase simbiose com a sociedade paranaense, monitorada permanentemente, e diariamente espelhada nas páginas da Gazeta do Povo, seu filho procedeu de uma forma diametralmente oposta. Na juventude deixou-se seduzir por um homem, Josemaria Escrivá, que não admitia meios termos aos que o seguiam, e Guilherme, ainda nos bancos escolares, passou a viver o caminho.


Razões familiares o trouxeram ao aprisco familiar, da qual havia se afastado. Inicialmente, como seu pai havia feito, ele trabalhou com uma redação diametralmente oposta a sua maneira de ser e a seus propósitos. Mas foi um aprendizado necessário. Em seguida, confiante em seu próprio instinto empresarial, deu início à revolução, que deixou estupefatos os membros da redação e seus pares da grande imprensa.


Histórias circulam sobre aquele período, denotando que o jovem mestre da casa ignorava totalmente os princípios comezinhos da profissão. Pouco importa, sua visão prevaleceria, e se demonstrou correta.


Neste caminho, Guilherme deu as costas ao que era mais caro a seu pai: a profunda identidade com a sociedade paranaense. Sua visão implicava em fazer tábula rasa daquele jornal provinciano. Substituí-lo por outra folha provinciana e de horizontes estreitos – um jornal de denúncias – não estava na sua agenda. Ele deu o salto. Moisés levantou seu cajado, e implacavelmente, com a coragem dos verdadeiros crentes (alguns diriam fanáticos), fez a travessia do deserto, rumo a uma terra prometida que só ele via.


Já haviam ficado para trás as colunas como a Veterana Verba, do ilustre Davi Carneiro, historiador da Legendária Lapa e promotor da Cinelândia curitibana; a patética coluna social e sua pobre imitação da coluna de Ibrahim Sued; em páginas amareladas foram esquecidas as Populiras, inocentes versinhos do poeta Liberalino, publicados na página 2; ficaram para trás o noticiário enviesado, sempre favorável ao governante de plantão, produzido pelas assessorias de imprensa e reproduzidos ipsis literis nas páginas da velha Gazeta.


E esquecidos já estavam os inócuos editoriais redigidos em um português castiço pelo jornalista Bacila Neto, hábil em nada dizer, hábil em fugir dos temas candentes, hábil no equilíbrio entre o sim, o não e o talvez, levando tranquilidade aos seus leitores, a quem diariamente reafirmava que nada havia de novo sob o sol. Já haviam ficado para trás os massudos cadernos de publicidade que eram a razão de ser do jornal. Tanto melhor, o caminho estava aberto para um novo recomeço.


A sociedade curitibana ficou órfã, e a Gazeta do Povo seguiu um caminho jornalístico em tudo contrário ao que o Pai Todo Poderoso havia percorrido, primeiro com as bombásticas denúncias que atingiam o establishment do qual se originara, a seguir com o alinhamento incondicional com o radicalismo político emergente.


Aqui, a tentação quase irresistível de chamar as teorias freudianas para explicar o acontecimento. Mas esta é uma religião laica para homens que perderam contato com as raízes profundas da civilização. Um divã prosaico não substituirá jamais a solenidade milenar do diálogo com o confessor e orientador espiritual; muito menos poderá explicar o eu profundo de um homem navegando em um mar que se confunde com a história do Ocidente.


Qualquer que seja o desfecho desta saga – ele é jovem e os acontecimentos ainda estão se desdobrando – Guilherme Cunha Pereira já provou à sociedade paranaense seu ponto de vista, ao não deixar morrer a quase moribunda herança paterna; reafirmou sua identidade familiar; está deixando sua marca pessoal no mundo. Mas, como ele bem deve saber, a tarefa a que ele se propôs, que é a de revolucionar a imprensa brasileira, está apenas começando. Se ele sobreviverá neste mar tempestuoso de boquirrotos semiletrados tão distantes de suas profundas convicções e estilo, eis a questão que somente o tempo dirá. Ele deve ter lido Ibsen, que na peça Inimigo do Povo, afirma: “Ouçam com atenção: o homem mais forte do mundo é o que está mais só”. Qualquer que seja seu destino, nada mais verdadeiro: ele está só, como sempre estiveram os profetas antes dele.




Caricatura do autor Hatsuo Fukuda em traço de Paixão, com óculos escuros e boné branco lendo poltrona de biblioteca.

Hatsuo Fukuda , um velhinho cego, de bengala, procura um endereço: Praça Carlos Gomes, 4.

1 comentário


Jul Leardini
há um minuto

TRISTE FIM DESTE JORNAL, QUE FOI IMPORTANTE NA CIDADE. QUANDO TOMA UM LADO, PERDE O CARÁTER DE JORNALISMO - QUE DEVERIA SER IMPARCIAL - E ASSUME O CARÁTER DE PARTIDÁRIO. PERDE O RESPEITO E ASSUME O GADO QUE O ACOMPANHA.

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